Filhas de sobrevivente do nazismo processam Museu de Auschwitz

03.11.2026

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Filhas de sobrevivente do nazismo processam Museu de Auschwitz
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Redação O Antagonista
5 minutos de leitura 18.09.2026 20:32 comentários
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Filhas de sobrevivente do nazismo processam Museu de Auschwitz

Herdeiras de Dina Babbitt pedem na Justiça dos EUA a devolução de sete retratos de prisioneiros romas pintados sob ordem de Josef Mengele

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Filhas de sobrevivente do nazismo processam Museu de Auschwitz
Museu de Auschwitz — Foto: Reprodução

As duas filhas da artista Dina Gottliebova Babbitt ajuizaram uma ação para reaver sete aquarelas que a mãe pintou em Auschwitz-Birkenau, em 1944, por ordem do médico nazista Josef Mengele.

O processo foi protocolado no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Central da Califórnia e tem como alvo o museu instalado no antigo campo, na Polônia. As obras estão no acervo da instituição desde as décadas de 1960 e 1970, e o museu recusa devolvê-las.

Retratos feitos sob ordem

Dina nasceu na antiga Tchecoslováquia, em 1923, e deixou os estudos de arte em 1939, após a invasão alemã. Em janeiro de 1942, foi enviada com a mãe ao campo de Terezín, no norte do país. No ano seguinte, as duas foram levadas a Auschwitz.

No campo, passou a pintar a pedido de uma prisioneira responsável por um alojamento infantil, que queria imagens de Branca de Neve e os Sete Anões e desenhos de animais. Usava tintas obtidas de forma clandestina.

O trabalho chegou ao conhecimento de Mengele. De acordo com a ação, o médico determinou que ela retratasse em aquarela prisioneiros escolhidos por ele para seus estudos. Ele buscava registrar traços que associava, sem respaldo científico, a uma suposta inferioridade racial.

Em entrevistas, Dina disse ter aceitado com uma condição: que ela e a mãe fossem poupadas das câmaras de gás. Os prisioneiros retratados foram mortos no campo. Ao menos seis das sete pinturas foram assinadas e datadas a lápis, em 1944, como “Dinah 1944”, a grafia original do nome dela.

Segundo documentos apresentados no processo, a artista criou simpatia pelas pessoas que pintou e via nas obras a razão de sua sobrevivência e da existência de seus descendentes: “Todos existem hoje por causa dessas pinturas”, afirmou Babbitt, segundo a ação.

Anos de tentativas de recuperação

Após a libertação de Auschwitz, Dina mudou-se para os Estados Unidos e trabalhou por quase duas décadas como assistente de animação em Hollywood, em personagens como Wile E. Coyote, Piu-Piu e Patolino.

Em 1973, viajou ao museu para autenticar as pinturas, na expectativa de recebê-las de volta. Conforme o processo, a instituição mostrou os trabalhos, fez perguntas e pediu que ela confirmasse a autoria, mas a mandou para casa sem as aquarelas.

Segundo a ação, o museu chegou a sustentar que as obras poderiam pertencer a Mengele, e um funcionário teria dito que apenas o médico poderia reivindicá-las juridicamente.

Ela recorreu por anos a autoridades americanas. Segundo as filhas, houve tentativas diplomáticas por meio de cartas ao governo polonês e ao museu, sem devolução das obras. Em vídeo de 2009, poucos meses antes de morrer, aos 86 anos, afirmou: “Quero segurá-las nas minhas mãos”. E acrescentou: “Quero que estejam aqui. Preciso delas”.

O pedido das herdeiras

Michele Babbitt Kane e Karin Wendy Babbitt recorreram a uma mudança na legislação da Califórnia. Em 2024, o estado abriu uma janela de dois anos para ações sobre obras ligadas ao Holocausto que poderiam estar prescritas.

Elas pedem que a Justiça reconheça Dina como proprietária das aquarelas, determine a devolução das sete obras e fixe uma indenização, cujo valor não foi especificado. A ação afirma que a artista nunca vendeu, transferiu ou abriu mão voluntariamente dos retratos, que Mengele retirava assim que ficavam prontos.

A advogada das autoras, Sharon Cohen Levin, do escritório Sullivan & Cromwell, afirmou que as pinturas retratam pessoas submetidas aos experimentos de Mengele e depois assassinadas: “O museu criado para homenagear as vítimas do Holocausto causou, neste caso, uma dor”.

Levin acrescentou: “Em sua memória, as filhas de Dina estão dando continuidade ao trabalho de décadas de sua mãe não apenas para recuperar o que legitimamente lhes pertence, mas também para honrar a dignidade e o legado de Dina e obter uma medida da justiça que lhe foi negada em vida”.

A posição do museu

O museu adquiriu seis das pinturas em 1963, de um sobrevivente, e a sétima em 1977. Para mantê-las, cita uma lei polonesa de 1996 sobre museus e seu estatuto, emitido pelo Ministério da Cultura e do Patrimônio Nacional. A lei de 1947 que criou a instituição a obriga a reunir e preservar provas dos crimes nazistas e a disponibilizá-las ao público.

Em declaração por e-mail, o porta-voz Pawel Sawicki reconheceu o peso emocional do pedido da família, mas defendeu que as obras permaneçam no local: “Os retratos, de vítimas romas, estão entre os poucos fragmentos remanescentes da documentação produzida por Mengele como parte de seus experimentos criminosos”.

O Sawicki questionou o que ocorreria se sobreviventes ou herdeiros reivindicassem outros objetos feitos nos campos, como pinturas, fotografias e projetos.

Citou o portão de Auschwitz com a inscrição “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”), produzido na oficina de metalurgia do campo pelo prisioneiro Jan Liwacz. Para o museu, criar um objeto por ordem da SS não torna o prisioneiro dono do que produziu.

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