Ferguson: “Trump disse exatamente o que ia fazer”
O historiador britânico Niall Ferguson analisa o início frenético do segundo mandato de Donald Trump e alerta para o risco de colapso econômico gerado por sua política tarifária agressiva
O historiador britânico Niall Ferguson publicou um artigo intitulado “Donald Trump está cumprindo com força sua lista de tarefas” no The Free Press nesta segunda, 28.
Com seu estilo objetivo e irônico, Ferguson lembra que Trump foi transparente quanto às suas intenções: “Ele nos disse exatamente o que ia fazer. Tudo o que você precisava fazer era olhar”.
Em 37 vídeos curtos divulgados entre dezembro de 2022 e dezembro de 2023, o então candidato delineou o roteiro que agora está seguindo.
Ferguson destaca que, nos primeiros cem dias de governo, Trump emitiu “211 ações executivas”, com foco em reduzir a máquina federal e reverter políticas progressistas.
“Se ele mantiver esse ritmo, poderá até superar a média recorde de 307 ordens executivas por ano de Franklin Delano Roosevelt em 1933”, escreve. Mas a comparação para por aí: enquanto Roosevelt expandiu o Estado, “o Novo Acordo de Trump quer encolhê-lo”.
O autor alerta, no entanto, que o governo opera com “quase nenhum pessoal”: apenas 53 das 1.300 nomeações necessárias foram confirmadas pelo Senado.
“Qualquer um que visite os corredores do poder hoje em dia encontra tudo estranhamente vazio”, aponta Ferguson.
A ausência de quadros experientes gera uma gestão veloz, mas caótica: “Eles estavam mirando na destruição criativa; mas existe também a destruição destrutiva”.
Outro ponto de preocupação, segundo Ferguson, é o impacto das tarifas impostas pelo governo.
Ele descreve o Dia da Libertação — 2 de abril — como o momento em que “Trump impôs tarifas recíprocas contra todos os países com os quais os EUA negociam, além de alguns territórios não soberanos, incluindo uma ilha habitada apenas por pinguins”.
A medida quase desencadeou uma nova crise financeira: “Durante vários dias, o mundo esteve à beira do colapso”, afirma.
Mesmo com algumas concessões posteriores, Ferguson observa que “os Estados Unidos continuam hoje muito mais protecionistas do que antes da segunda posse de Trump”, com a tarifa média efetiva saltando para “28%, a mais alta desde 1901”.
O aumento de preços é inevitável: “Os preços dos sapatos podem subir 87%, e das roupas, 65%”, adverte.
Apesar do início desastroso na política econômica, Ferguson reconhece êxitos na imigração: “As detenções na fronteira caíram quase 90% nos primeiros dois meses do segundo mandato”, um feito atribuído a Stephen Miller, assessor de segurança interna.
No campo universitário, ele celebra a tentativa do governo de combater o que chama de “insanidade de gênero da esquerda”, mas alerta para o risco de ataques indiscriminados ao financiamento da ciência.
Na política externa, Ferguson vê mais problemas do que soluções: descreve a equipe diplomática de Trump como “uma negociação entre o Primeiro Porquinho e o Lobo Mau” e duvida da capacidade do governo de resolver o conflito na Ucrânia ou conter o programa nuclear do Irã.
“Cada semana que passa dá ao Irã mais tempo para reparar suas defesas aéreas”, escreve.
Ferguson termina o artigo citando H.L. Mencken: “Democracia é a teoria de que o povo sabe o que quer e merece receber isso, bom e forte”.
Para ele, o risco de recessão, alta da inflação e novos desastres geopolíticos pode levar Trump a um destino semelhante ao de Richard Nixon. A conclusão é clara: “Os próximos cem dias dirão se a lista épica de tarefas de Trump foi demais, cedo demais”.
Quem é Niall Ferguson
Niall Ferguson é um historiador britânico, professor emérito da Universidade Harvard e pesquisador do Instituto Hoover, em Stanford.
Especialista em história econômica e relações internacionais, é autor de obras premiadas como The Ascent of Money e Civilization: The West and the Rest. Ferguson é conhecido por suas análises provocativas sobre o poder, a economia e os impérios, tendo recebido prêmios como o Benjamin Franklin Prize.
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