EUA e Arábia Saudita fecham pacto nuclear de 30 anos
Acordo pode permitir enriquecimento de urânio em solo saudita e amplia influência americana no setor energético do país árabe
Os Estados Unidos e a Arábia Saudita firmaram um acordo nuclear com validade de três décadas, que dará a companhias americanas posição privilegiada na construção da estrutura atômica civil saudita, conforme apurado pelos jornais Wall Street Journal e The New York Times e divulgado na terça-feira, 21.
O texto, ainda sem confirmação formal da Casa Branca, pode ser formalizado já nesta quarta-feira, 22, e prevê a possibilidade de instalação de uma unidade de enriquecimento de urânio no território saudita.
Cláusula sobre enriquecimento gera divergências
O ponto mais delicado da negociação trata da autorização para que empresas americanas ergam uma planta de enriquecimento de urânio em solo saudita, desde que uma avaliação conjunta entre os governos ateste a necessidade dessa etapa.
Segundo a DW, a Casa Branca considera que a presença direta de firmas e representantes dos EUA no projeto ampliará o controle americano sobre o programa atômico saudita, mantendo-o dentro de finalidade civil.
O texto ainda será submetido à apreciação do Congresso americano e já enfrenta objeções de parlamentares.
A avaliação corrente é que a propagação de tecnologia atômica numa região com histórico de tensões eleva o risco de proliferação e pode, no longo prazo, abrir espaço para um programa de cunho militar. O enriquecimento de urânio, isoladamente, não gera uma arma nuclear, mas representa etapa relevante rumo a essa capacidade.
Concessões e histórico da negociação
De acordo com o New York Times, Trump concordou com restrições ao acesso de inspetores internacionais a certos locais sauditas, inclusive diante de suspeitas de desvio de material nuclear para fins bélicos — situação que reproduz debates já travados em torno do programa atômico do Irã, país que disputa influência regional com os sauditas mesmo após o restabelecimento de laços diplomáticos em 2023.
As tratativas atravessaram tanto o governo Trump quanto a gestão anterior, de Joe Biden, e tiveram participação do secretário de Energia Chris Wright, que discutiu proposta semelhante em viagem ao Oriente Médio em abril de 2025. O tema também esteve associado a esforços de normalização entre sauditas e israelenses, interrompidos após a eclosão do conflito em Gaza, no fim de 2023.
O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman defende publicamente a criação de um programa nuclear civil saudita. Em entrevista à emissora CBS, em 2018, ele declarou que o país buscaria obter armamento atômico “o mais rápido possível” caso o Irã viesse a desenvolvê-lo.
O modelo em discussão diverge do adotado pelos Emirados Árabes Unidos, que renunciaram ao enriquecimento próprio de urânio ao firmar acordo similar com Washington para a usina de Barakah.
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