Espanha registra 57 mortos em crise migratória
Travessia marítima e terrestre deixa dezenas de corpos nas águas do enclave espanhol; Espanha envia tropas para conter fluxo
Autoridades espanholas confirmaram nesta sexta-feira, 31, o número de 57 mortos localizados nas águas de Ceuta, após uma passagem em massa pela fronteira com o Marrocos.
Mais de 49 mil pessoas, em sua maioria jovens marroquinos, adentraram o território espanhol em apenas 24 horas, segundo balanço divulgado pelo Ministério do Interior.
Diante da magnitude do episódio, o governo central despachou contingentes militares para apoiar as forças de segurança na região.
Onda migratória sobrecarrega estruturas locais
O deslocamento em larga escala teve início na quinta-feira, 30, quando famílias, crianças e jovens sozinhos avançaram sobre a fronteira, sobretudo pela via marítima. Segundo balanço divulgado pelo governo espanhol, ao menos 43 óbitos foram confirmados durante essa travessia, com os corpos sendo recuperados no mar pelas equipes de segurança do país.
A rede de acolhimento da cidade, que já operava perto da capacidade máxima nos dias anteriores, viu-se ainda mais pressionada com a chegada abrupta de milhares de pessoas. Boa parte dos recém-chegados entrou nadando pelos quebra-mares próximos à praia de Tarajal, ponto que delimita a divisa entre os dois países; outros optaram por cruzar a pé pelos espigões costeiros ou tentaram romper as cercas fronteiriças.
Ceuta é um território autônomo espanhol situado no litoral norte-africano, banhado pelo Mediterrâneo e posicionado em frente ao Estreito de Gibraltar. Junto de Melilla, constitui uma das únicas fronteiras terrestres da União Europeia com o continente africano — condição que faz da cidade um ponto de entrada estratégico para quem busca chegar ao bloco europeu, apesar da soberania do território ser historicamente contestada pelo Marrocos.
Governos espanhol e europeu reforçam vigilância
Em resposta à escalada, o premiê Pedro Sánchez confirmou deslocamento a Ceuta nesta sexta-feira, acompanhado do titular da pasta do Interior, Fernando Grande-Marlaska. O Executivo espanhol sinalizou disposição para ampliar a articulação com Rabat, tanto no controle da divisa quanto na agilização de eventuais repatriações amparadas por acordos bilaterais.
A União Europeia, por sua vez, manifestou respaldo a Madri e sinalizou disposição para intensificar o apoio na proteção da fronteira externa do bloco, cogitando reforçar a presença da Frontex, agência comunitária encarregada da vigilância fronteiriça.
O cenário atual guarda semelhança com o episódio de maio de 2021, quando cerca de 5 mil pessoas atravessaram para Ceuta em um único dia, movimento então atribuído a um desgaste diplomático entre Madri e Rabat, motivado pelo acolhimento, por parte da Espanha, do líder da Frente Polisário para tratamento médico. O grupo defende a autodeterminação do Saara Ocidental, território cuja soberania segue sem resolução reconhecida pela ONU.
As causas por trás da nova onda ainda estão sob apuração pelas autoridades espanholas. Segundo o governo da Espanha, há sinais de que organizações criminosas voltadas ao tráfico de pessoas tenham estimulado parte das travessias, aproveitando-se de mudanças recentes na forma como são interpretadas as regras de devolução imediata de migrantes flagrados no mar. Até o momento, não foi identificado qualquer envolvimento das autoridades marroquinas no episódio.
Os migrantes que ingressaram em Ceuta passarão por identificação e deverão ser encaminhados a centros de acolhimento, enquanto cada situação é avaliada individualmente. Pedidos de proteção internacional serão analisados pelo governo espanhol; os demais casos poderão resultar em devolução ao Marrocos, conforme os tratados vigentes entre os dois países e decisões do Judiciário local.
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