Enxadrista Garry Kasparov critica Trump e o compara a Putin
Ex-campeão mundial e dissidente político russo detalha a instrumentalização da mídia sob Putin e alerta para a fragilidade das liberdades constitucionais nos EUA
Em sua newsletter The Next Move, o ex-campeão mundial de xadrez e dissidente político Garry Kasparov falou a respeito da transição da Rússia, de um país em que a liberdade era incerta, mas existia, para uma ditadura sob controle da KGB.
O cerceamento da liberdade de imprensa foi o eixo em torno do qual o autoritarismo girou. O processo se deu através de uma série de movimentos de censura, coerção financeira sobre donos de mídia e assédio a moral ou judicial a jornalistas. Essa estratégia visava impedir que a imprensa se tornasse um instrumento crítico contra o estado, para a consolidação do regime de Vladimir Putin.
A extinção da liberdade na Rússia
Ditaduras levam tempo. O estabelecimento de um estado policial na Rússia não aconteceu abruptamente. O que havia de liberdade entre os anos 1980 e 1990 foi asfixiado por Putin nos anos seguintes.
Ao assumir a presidência interina em 1999, o ditador disse o que pensava sobre a imprensa no primeiro discurso à Assembleia Federal. Afirmou que não permitiria que a mídia do país fosse transformada em “vias de desinformação e ou instrumentos de guerra contra o Estado”. Em outras palavras, Trump costuma dizer coisas semelhantes.
O governo russo sufocou a imprensa independente por meio do assédio a profissionais (apresentadores e jornalistas) e a proprietários de empresas de comunicação.
Aos poucos, forçou a remoção de programas que não se adequavam à narrativa oficial. Um dos primeiros alvos foi “Kukly” (bonecas), um show de marionetes que ridicularizava a elite russa. Outro foi o talk show político “Svoboda Slova” (“Liberdade de Expressão”), cancelado após uma equipe pró-Kremlin assumir o controle da rede NTV.
O método preferido era o assédio processual e a intimidação econômica. O Gabinete do Procurador-Geral convocava altos executivos e editores para interrogatórios sobre suas finanças. O Kremlin pressionou empresários emergentes para vender suas participações em conglomerados de mídia. Agentes do governo realizaram batidas nas sedes das redes.
As autoridades estrategicamente coordenaram fusões para assegurar a conformidade, destituindo “oligarcas maus” e instalando “bons oligarcas” em seus lugares. A liberdade, nota Kasparov, muitas vezes é perdida entre montanhas de burocracia e multas impagáveis, e não em um confronto direto com o ditador. Até Putin sabe que precisa salvar as aparências.
Muitos alvos do governo nunca chegaram a ser acusados ou presos. O assédio a poucas pessoas de alto perfil serviu como aviso aos demais. A campanha de assédio processual e legal dificultou o trabalho de jornalistas e executivos.
A fragilidade da democracia e o alerta aos EUA
Kasparov está preocupado com a América. Ele reconhece que são países de tradições democráticas muito diferentes; enquanto a Rússia não tinha um sistema imune para combater o vírus da repressão, os Estados Unidos têm longa história de resiliência constitucional.
Mas o enxadrista alerta que os EUA estão testemunhando o que ele classifica como “um ataque governamental sem precedentes às liberdades da Primeira Emenda na América”.
A diferença está na velocidade e na forma da capitulação. O caso de Jimmy Kimmel é um exemplo. Trump e a Federal Communications Commission (FCC) foram acusados de pressionar a ABC a cancelar ou suspender um talk show em retaliação aos comentários e piadas feitas pelo apresentador sobre a morte de Charlie Kirk.
A pressão deu resultado. Depois da suspensão, um acordo foi feito para a volta do programa à grade, com os devidos e previsíveis pedidos de desculpas do humorista. Mau sinal.
Para Kasparov, enquanto Putin precisou de dez a quinze anos para congelar totalmente a imprensa russa, nos EUA a capitulação está ocorrendo em muito menos tempo.
“O que você vai fazer a respeito?”, ele pergunta.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (1)
Eliane ☆
24.09.2025 21:53Rússia que faz parte do BRICS, que tem Putin,que nunca teve uma crítica do lula, que defende a democracia. Tem algo errado...