Religião é assunto público, defende filósofo inglês

25.09.2026

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Religião é assunto público, defende filósofo inglês
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Gustavo Nogy
5 minutos de leitura 24.09.2025 19:15 comentários
Cultura

Religião é assunto público, defende filósofo inglês

A mentalidade secular limita os tópicos aceitos em círculos intelectuais, empurra religião para fora da universidade e empobrece o debate filosófico

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Gustavo Nogy
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Religião é assunto público, defende filósofo inglês
Detalhe do “Cristo Crucificado”, de Diego Velásquez

O filósofo britânico Simon Critchley, professor na New School for Social Research, em Nova York, e autor de On Mysticism (“Sobre o misticismo”), defende que o lugar da religião na sociedade contemporânea deve ser repensado. Em uma entrevista à coluna “Mini Philosophy”, da Big Think, ele questiona o pressuposto de que a fé possa ou deva ser mantida estritamente na esfera privada.

Para o filósofo, experiências místicas e crenças religiosas moldam a vida pública de maneira importante demais para serem tratadas como assunto de foro íntimo, o que contraria a herança filosófica materialista.

Critchley critica o legado iluminista e defende a proposta de integrar manifestações religiosas da experiência, vistas como formas válidas de conhecimento e de interesse ao discurso filosófico. O objetivo é desmantelar o que ele define como “elitismo secular”, que teria empobrecido a tradição filosófica moderna.

A gênese da divisão público-privado

O pressuposto legal dessa divisão remonta ao início do século XVII, na Inglaterra. Sir Edward Coke, o Procurador-Geral à época, estabeleceu um princípio fundamental do Direito Comum, ao declarar que “an Englishman’s home is his castle” (“a casa de um inglês é seu castelo”).

Esse conceito estabelece que a conduta dentro do lar é assunto particular, desde que dentro da lei, protegendo o indivíduo de interferências estatais sem justificativa ou amparo legal. Embora essa jurisprudência tenha nascido na Inglaterra, ela se estende a outras nações que utilizam o Direito Comum, como Estados Unidos, Canadá e Austrália.

A distinção entre os domínios público e privado foi adotada e ampliada pela tradição filosófica. O pensamento Iluminista buscou confinar a religião ao âmbito doméstico, esperando racionalidade no espaço público, e reservando a fé e a emoção para o lar. (O que já é uma posição filosófica prévia: partir da premissa de que a religião é indiscutivelmente irracional. Filósofos e cientistas de todas as épocas teriam uma palavrinha a dizer sobre isso.)

Essa partição tem raízes no pensamento do teólogo Martinho Lutero e do filósofo Immanuel Kant. Lutero, depois de facilitar o acesso à Bíblia durante a Reforma, receou que a leitura livre demais gerasse sublevação política. Ele chegou a escrever que camponeses rebeldes deveriam ser “struck down like rabid dogs” (“abatidos como cães raivosos”)

Kant, ao herdar essa preocupação, propôs um acordo para o protestantismo em seu ensaio de 1784, What is Enlightenment?. Ele definiu que a “razão pública” deve ser disciplinada e lógica. A “razão privada”, por sua vez, poderia abrigar a fé que desejasse, contanto que se mantivesse em seu devido lugar.

Critchley resume a visão kantiana: “Privately, you can believe whatever you like, but you have to respect that distinction between the public and the private”. (“Na vida privada, você pode acreditar no que quiser, mas deve respeitar a distinção entre o público e o privado”).

Essa solução, que permite o exercício da religião no silêncio no lar, mas proíbe sua manifestação na vida cívica, é vista pelo filósofo britânico não como razoável, mas como repressiva.

A influência inegável da fé na cultura

O psicólogo e filósofo William James foi um dos primeiros a argumentar contra a possibilidade de compartimentalizar a mente humana. Critchley recorre a James para sustentar que as convicções de uma pessoa a afetam o tempo todo. É uma noção estranha pensar que ser católico ou budista “mustn’t interfere in your life as a citizen” (“não deve influenciar sua vida como cidadão”).

De acordo com a abordagem pragmática de James, os sentimentos de transcendência, as visões místicas e as conversões religiosas precisam ser levados a sério. Tais experiências não podem ser descartadas como sentimentalismo ou epifenômenos mentais.

Em sua obra Varieties of Religious Experience (Variações da Experiência Religiosa), William James estudou o misticismo com o objetivo de entender o que estava acontecendo, mesmo com fenômenos que não havia vivenciado, com empatia e compreensão. Critchley observa que ele apenas “tries to understand what’s going on” (“tenta entender o que está acontecendo”).

Obrigaçãozinha básica de qualquer filósofo, convenhamos.

Critchley critica o elitismo secular nos departamentos de filosofia, onde se desconfia de indivíduos que professam alguma crença religiosa. Ele argumenta que a divisão moderna entre razão e religião reduziu os limites da experiência sobre a qual a filosofia pode se debruçar.

O pensador enfatiza que não existe, ou não faz sentido existir, uma “religious life” (“vida religiosa”) e uma “public life” (“vida pública”); existe apenas a vida, com suas fronteiras indefinidas. A mentalidade secular limitou os tópicos aceitos em círculos intelectuais. O filósofo conclui que esse limite precisa ser quebrado, pois a filosofia ficou mais pobre com essa distinção.

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