Eles continuaram plantando árvores no Saara e falharam; depois soltaram 500 tartarugas, e o deserto ficou verde, visível até mesmo por satélites
Tartarugas fizeram o que árvores não conseguiram no deserto
Em 2021, pesquisadores soltaram 500 tartarugas africanas numa faixa degradada às margens do Saara, onde décadas de tentativas de plantio de árvores haviam fracassado. Cinco anos depois, imagens de satélite registraram o surgimento de manchas verdes em áreas antes dominadas por areia e solo compactado.
Por que o plantio de árvores fracassou repetidamente no Saara?
O problema está no solo, não nas sementes. Na região do Sahel, a faixa de transição entre as savanas úmidas ao sul e o deserto árido ao norte, as temperaturas diurnas podem ultrapassar 60°C e despencar drasticamente à noite. Esse ciclo extremo endurece e seca a superfície do solo até ela virar uma crosta compacta.
Quando a chuva cai, a água não penetra. Escoa pela superfície e evapora antes de chegar às raízes. As sementes ficam presas na crosta seca, sem umidade suficiente para germinar. Qualquer muda plantada enfrenta as mesmas condições e morre antes de criar raízes profundas o bastante para sobreviver à estação seca.
Quem é a tartaruga que conseguiu onde as máquinas falharam?
A Centrochelys sulcata, conhecida como tartaruga africana esporada ou tartaruga do Sahel, é a maior tartaruga terrestre do continente africano e a terceira maior do mundo, atrás apenas das gigantes das Ilhas Galápagos e de Aldabra. Machos adultos podem ultrapassar 100 quilogramas. A espécie evoluiu ao longo de milhões de anos para sobreviver exatamente nas condições do Sahel: calor extremo, noites frias e pouca água.
Uma revisão científica publicada em 2017 na revista Frontiers in Ecology and Evolution já havia identificado a espécie como um exemplo de “grande potencial de engenharia ecossistêmica”, justamente por causa das tocas extensas que cavam em ambientes semiáridos onde tanto a cobertura vegetal quanto a umidade são escassas. O problema é que a mesma pressão humana que degradou o habitat foi eliminando a tartaruga do território.

Como o experimento foi feito e o que os pesquisadores observaram?
Em 2021, pesquisadores soltaram 500 tartarugas sulcata numa área degradada na borda sul do Saara. Não houve plantio, irrigação, tratamento químico do solo nem nenhuma intervenção de engenharia. A única ação foi devolver ao terreno um animal que havia sido retirado dele pela caça, pela expansão da agricultura e pelo pastoreio excessivo.
Nos cinco anos seguintes, equipes monitoraram a área e cruzaram os dados com imagens de satélite. O resultado documentado foi o surgimento de manchas verdes dispersas em zonas onde antes havia apenas areia e solo exposto. As manchas não são uma floresta. São agrupamentos de vegetação ancorados nos pontos onde as tartarugas haviam escavado, crescendo a partir da umidade retida nas tocas e do solo revolvido ao redor delas.
| Abordagem | Resultado documentado | Situação |
|---|---|---|
| Plantio de árvores no Sahel Décadas de tentativas com mudas e sementes | Fracasso consistente — crosta do solo impede absorção de água e germinação | Ineficaz nas condições locais |
| Soltura de 500 tartarugas sulcata (2021) Reintrodução de espécie nativa sem intervenção adicional | Manchas verdes visíveis por satélite em cinco anos, com retorno de insetos, plantas e vertebrados | Resultado positivo documentado |
| Programas de reintrodução no Senegal (desde 1992) ONG S.O.S. Save Our Sulcata — criação e soltura | Taxa de sobrevivência acima de 80% em grupos monitorados por quatro anos; efeito de retenção de água documentado | Resultados consistentes |
| Centrochelys sulcata como espécie Status de conservação atual pela IUCN | Classificada como Em Perigo. Populações em declínio na maioria dos países. Provável extinção local em Camarões, Djibuti e Togo | Ameaçada de extinção |
Por que os cientistas dizem que isso não é uma solução universal?
Os pesquisadores envolvidos no monitoramento são claros sobre os limites do experimento. O sucesso depende de uma combinação de fatores que não se repetem igualmente em toda a extensão do Sahel: volume de chuva suficiente para que as tocas façam diferença, controle do pastoreio excessivo que destrói a vegetação nascente e gestão contínua do terreno ao longo do tempo.
O relatório da IUCN publicado em 2020 sobre a espécie aponta que, nos últimos 50 anos, o Sahel perdeu cerca de 650.000 km² para a desertificação. Nesse contexto, as tartarugas funcionam como uma chave que reativa a maquinaria ecológica onde ela parou. Mas a engrenagem só se mantém em movimento se as pressões que a destruíram forem controladas em paralelo.
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A mesma tartaruga que restaura o deserto está desaparecendo dele
Há uma contradição central nessa história. A espécie que demonstrou capacidade de reverter a desertificação é classificada pela IUCN como Em Perigo e está em declínio acelerado em quase todo o seu território natural. A perda de habitat responde por cerca de 60% da ameaça. As mudanças climáticas, por aproximadamente 25%. Caça para consumo de carne, uso em medicina tradicional e captura para o comércio de animais de estimação compõem o restante.
Em vários países, a Centrochelys sulcata já foi localmente extinta. Isso significa que o mecanismo de recuperação ecossistêmica que o experimento demonstrou só funciona onde o animal ainda existe ou pode ser reintroduzido. Proteger a tartaruga e restaurar o Sahel acabam sendo, na prática, o mesmo problema visto de ângulos diferentes. O Sahel precisa da tartaruga tanto quanto a tartaruga precisa do Sahel.
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