‘Economist’ trata julgamento de Bolsonaro como lição aos EUA
"Pelo menos temporariamente, o papel do adulto democrático do hemisfério ocidental se deslocou para o sul", diz a revista britânica
A edição desta semana da revista britânica The Economist trata o julgamento de Jair Bolsonaro, que entra em sua reta final na terça-feira, 2 de setembro, como uma “lição em maturidade democrática” para os Estados Unidos.
A revista, que dedica também uma longa reportagem ao assunto, intitulada “A história não contada da estranha e selvagem tentativa de golpe de Bolsonaro”, traça a comparação entre os casos de Bolsonaro, ilustrado como o Xamã do QAnon (foto) numa das capas da edição, e Donald Trump, que não apenas se livrou da Justiça americana como voltou à Casa Branca:
“Imagine um país onde um presidente polarizador perdeu sua tentativa de reeleição e se recusou a aceitar o resultado. Ele declarou a votação fraudada e usou as redes sociais para incitar seus apoiadores a se rebelarem. Eles o fizeram aos milhares, atacando prédios do governo. Então, a insurreição fracassou, o ex-presidente enfrentou uma investigação criminal e os promotores o levaram a julgamento por planejar um golpe.
Isso soa como uma fantasia da esquerda americana. Na outra grande democracia do hemisfério, é realidade. Em 2 de setembro, o julgamento de Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil e o ‘Trump dos trópicos’, começará no Supremo Tribunal Federal. As evidências parecem um flashback do passado turbulento do Brasil. Um ex-general de quatro estrelas conspirou para anular o resultado da eleição; assassinos planejaram matar o verdadeiro vencedor. Como nossa investigação sobre a trama explica, o golpe fracassou por incompetência, e não por intenção.”
STF
Segundo The Economist, Brasil e Estados Unidos “parecem estar trocando de lugar”:
“Os EUA estão se tornando mais corruptos, protecionistas e autoritários — com Donald Trump esta semana mexendo com o Federal Reserve e ameaçando cidades controladas pelos democratas. Em contraste, mesmo com o governo Trump punindo o Brasil por processar Bolsonaro, o próprio país está determinado a salvaguardar e fortalecer sua democracia.”
A revista destaca, contudo, que “uma tarefa fundamental é controlar o Supremo Tribunal Federal, apesar de seu papel como guardião da democracia brasileira”.
“Como árbitro de uma Constituição com 65.000 palavras, o tribunal supervisiona uma gama estonteante de regras, direitos e obrigações, desde política tributária até cultura e esportes. Grupos que vão de sindicatos a partidos políticos podem apresentar casos diretamente. Às vezes, os próprios juízes iniciam processos, incluindo um inquérito sobre ameaças online, alguns deles contra o próprio tribunal — tornando-o vítima, promotor e juiz. Para lidar com uma carga de trabalho de 114.000 decisões somente em 2024, a maioria das decisões vem de juízes individuais. Há amplo reconhecimento de que juízes não eleitos, com tanto poder, podem corroer a política, bem como salvá-la de golpes. Os próprios juízes enxergam um caso para mudança”, descreve a revista.
“Adulto democrático”
Segundo The Economist, “consertar o tribunal será difícil, mas seu poder é apenas parte da bagagem constitucional que o Brasil carrega”.
“O país também sofre de incontinência fiscal crônica, em particular isenções fiscais descontroladas e aumentos automáticos de gastos. Alguns desses fatores foram consagrados na Constituição de 1988 para coibir líderes autoritários em potencial. Outros são culpa do Congresso brasileiro, que assumiu o controle do orçamento federal e usa sua influência para financiar projetos pessoais. O efeito é a exclusão de investimentos e o enfraquecimento do crescimento”, diz o texto.
Na comparação com os Estados Unidos, contudo, a revista britânica considera que o Brasil está em posição melhor no momento:
“As tensões serão, portanto, inevitáveis. Mas, ao contrário de seus pares nos Estados Unidos, muitos dos políticos tradicionais do Brasil, de todos os partidos, querem seguir as regras e progredir por meio de reformas. Essas são as marcas da maturidade política. Pelo menos temporariamente, o papel do adulto democrático do hemisfério ocidental se deslocou para o sul.”
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Comentários (3)
Marcia Elizabeth Brunetti
28.08.2025 09:06A esculhambação aqui no Brasil é bem maior do que o alinhado artigo do Economist. Tem ladroagem de todos os lados. Sobra para a população que também não tem muita gente que está apta a votar em propostas e não na carinha do seu político de estimação .
VITOR CARLOS MARCATI
28.08.2025 08:34Imagine um país onde um ex presidente condenado em 3 instâncias tem todo o processo anulado em uma canetada por um único juíz da “suprema corte” e volta a ser presidente novamente, já imaginaram???!!! Só em um país súper democrático para acontecer um negócio desses
Annie 40
28.08.2025 08:25Falam isso porque nao vivem aqui