“É a queda de um ditador. Só que do pior jeito”, diz escritora venezuelana
María Elena Morán descreve sentimentos ambivalentes diante da deposição de Maduro e critica as posições de Lula sobre seu país
A romancista María Elena Morán tomou conhecimento da deposição de Nicolás Maduro e da intervenção militar norte-americana na Venezuela durante estadia no Rio Grande do Sul.
Em entrevista ao O Globo, Morán relatou um sentimento de desoneração pelo fim de um governo que cometeu abusos contra a população local.
Por outro lado, manifestou apreensão quanto à ofensiva estrangeira conduzida pela gestão de Donald Trump: “Eu senti alívio, não vou negar. Era a queda de um ditador cujos abusos nós sentimos na própria carne. Só que estava acontecendo da pior maneira possível”, afirmou.
Sobrou até pro Lula
Morán, que reside no Brasil desde 2012, é formada em jornalismo e cinema, e já integrou o partido fundado por Hugo Chávez. O apoio ao projeto bolivariano aconteceu durante sua juventude, em um período de estabilidade econômica gerada pelo petróleo.
A autora questionou a reação de setores políticos brasileiros que defenderam a soberania venezuelana após o início dos bombardeios. Para ela, existe uma omissão em relação às violações de direitos humanos e irregularidades eleitorais no país.
“Confesso que hoje, quando o Brasil acordou e começou a circular aquilo de ‘Solidariedade com o povo venezuelano’, o pensamento que me veio à cabeça foi: chegando tarde essa solidariedade, hein?”, publicou em rede social.
A romancista aponta a existência de visões simplistas no Brasil sobre a realidade da Venezuela. Ela relata episódios onde terceiros tentam explicar o contexto local a ela, ignorando sua experiência direta na região. Sobrou inclusive para o presidente Lula:
“Lula disse que os bombardeios na Venezuela e a captura de Maduro ultrapassam uma linha inaceitável. E eu me pergunto quantas linhas inaceitáveis foram aceitas antes, por ele e por tantos, me incluindo, para hoje termos esse panorama agônico”, escreveu.
Representação da decadência em obra literária
A degradação estrutural e social venezuelana é o tema de seu romance Voltar a quando. A narrativa acompanha personagens que inicialmente apoiavam o governo, mas enfrentaram a deterioração institucional e a separação familiar.
A escritora utilizou observações de sua última visita a Maracaibo, em 2019, para compor o cenário da obra. Ela descreveu o local como um ambiente silencioso, com estabelecimentos comerciais fechados e ausência de circulação nas vias públicas.
O texto aborda o processo de transformação de estruturas sociais em escombros. Morán associa a persistência dos cidadãos à própria condição de ruína enfrentada pelo território nacional.
Com a mudança no cenário político, percebeu mudanças no comportamento de seus compatriotas em aplicativos de comunicação. A redução no uso de mensagens temporárias indica o fim do receio de produzir provas contra si mesmo.
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