Detetive encontra quadro roubado na casa da neta de um nazista
Pintura de um negociador judeu esteve por décadas em poder de descendentes de um dos principais colaboradores nazistas no país
Uma pintura do artista holandês Toon Kelder (1892–1973), retirada à força da coleção do marchand judeu Jacques Goudstikker durante a Segunda Guerra Mundial, foi localizada em uma residência particular nos Países Baixos.
O quadro estava pendurado no corredor da casa da neta de Hendrik Seyffardt — um dos oficiais holandeses de mais alta patente a colaborar com a ocupação nazista —, onde permaneceu por décadas sem que as autoridades tivessem conhecimento. A descoberta foi anunciada nesta segunda-feira, 11.
Da coleção saqueada ao corredor de uma casa
Antes da guerra, Goudstikker mantinha um acervo com mais de 1.200 obras e era o principal comerciante de pinturas de mestres antigos na Holanda.
Com a ocupação alemã, fugiu para o Reino Unido em 1940, e toda a sua coleção foi apoderada por Hermann Göring, o segundo homem no comando do regime de Berlim. A pilhagem é considerada, em volume, o maior caso individual de espoliação de um acervo privado durante o conflito.
O investigador Arthur Brand, que rastreou a obra por meio de uma etiqueta e de um número de catálogo de leilão datado de 1940, afirmou à agência AFP: “Já encontrei antes obras de arte roubadas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, inclusive peças no Louvre, na coleção real holandesa e em muitos museus. Mas encontrar um quadro da famosa coleção Goudstikker em posse de descendentes de um notório general holandês da Waffen-SS realmente supera tudo”.
Parente denuncia; família discute devolução
O caso chegou ao conhecimento público por iniciativa de outro descendente de Seyffardt, que preferiu não se identificar. Ao jornal holandês De Telegraaf, ele declarou: “Fiquei atônito e sem palavras. É por isso que estou tornando isso público agora. Sinto profunda vergonha pelo passado da família e estou furioso com os anos de silêncio. O quadro deve retornar aos legítimos herdeiros judeus”.
A neta de Seyffardt afirmou ao mesmo veículo desconhecer a procedência ilícita da obra: “Eu recebi o quadro da minha mãe”. Ela afirma compreender que os herdeiros de Goudstikker queiram a pintura de volta.
As possibilidades de ação legal, porém, são restritas: os prazos processuais expiraram, e os órgãos competentes não dispõem de poder para obrigar particulares a devolver bens nessas condições.
Em 2025, autoridades argentinas recuperaram uma pintura italiana do século 18 também proveniente do acervo de Goudstikker, igualmente encontrada em poder de descendentes de um ex-oficial nazista que, após o conflito, manteve atividades comerciais no Brasil.
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