Deepfakes pornográficos motivam protestos na Alemanha
Caso envolvendo atriz alemã e ex-marido acelera debate sobre lacunas na legislação do país para crimes de abuso digital
Milhares de pessoas foram às ruas na Alemanha para manifestar apoio à atriz e apresentadora Collien Fernandes, 44 anos, que acusa o ex-marido, o ator Christian Ulmen, 50, de ter divulgado vídeos pornográficos falsos produzidos com inteligência artificial.
Os protestos ocorreram em Berlim, Frankfurt e Hamburgo, convocados pelo coletivo feminista Vulver, e colocaram em evidência o debate sobre a proteção jurídica de mulheres vítimas de violência digital na Alemanha.
O caso ganhou visibilidade após a publicação, em meados de março de 2025, de uma investigação da revista alemã Spiegel sobre as acusações.
Segundo Fernandes, Ulmen teria criado perfis falsos em redes sociais usando sua identidade para distribuir imagens pornográficas geradas por IA — prática conhecida como deepfake.
“Durante mais de dez anos fui abusada virtualmente pelo meu próprio marido”, declarou a atriz em comunicado à agência de notícias AFP.
O caso
A dimensão do abuso relatado por Fernandes é agravada pelo fato de que ela chegou a produzir um documentário tentando identificar o responsável pelas imagens, sem desconfiar do marido. “Nunca teria suspeitado do meu marido”, afirmou. O casal era um dos mais conhecidos do meio artístico alemão — Fernandes e Ulmen atuaram juntos em produções de televisão ao longo de anos.
No dia 27, o Ministério Público alemão confirmou que abriu investigação contra Ulmen com base em “suspeita inicial” decorrente dos elementos apresentados no artigo da Spiegel. Não é a primeira vez que o caso chega às autoridades: uma denúncia anterior, apresentada em 2024, foi arquivada em junho do mesmo ano por ausência de indícios suficientes para identificar o autor dos vídeos.
A atriz atribuiu o arquivamento inicial às limitações da lei alemã. Segundo ela, o país representa um “paraíso para os agressores” diante da ausência de marcos regulatórios específicos para crimes dessa natureza.
“Infelizmente, as vítimas não estão atualmente protegidas de maneira adequada do abuso digital”, disse Fernandes, acrescentando que seu caso “ilustra muito bem até que ponto extremo a violência digital pode escalar”.
Legislação e pressão política
O episódio acelerou discussões já em andamento no Parlamento alemão. O governo preparava, antes mesmo da repercussão do caso, um projeto de lei voltado à regulamentação da divulgação de deepfakes. A mobilização popular e o eco na imprensa, porém, ampliaram a pressão por respostas mais rápidas do Legislativo.
O coletivo Vulver, responsável pela convocação de parte dos atos, denunciou o que chamou de “lacunas gritante” na proteção jurídica das mulheres na internet.
A comparação com o caso da francesa Gisèle Pelicot, que se tornou símbolo internacional da luta contra violência sexual após denunciar publicamente crimes cometidos por dezenas de homens recrutados pelo ex-marido, foi feita por parte da imprensa alemã para situar o alcance do movimento.
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