Deepfake eleitoral em Buenos Aires reacende discussão sobre redes sociais
Vídeo gerado por IA, que circulou pouco antes da votação, mostrava um suposto apoio de Macri ao candidato aliado de Milei
Um incidente envolvendo um vídeo deepfake na campanha para cargos na cidade de Buenos Aires reabriu o debate sobre regulamentação eleitoral na Argentina.
Na véspera da votação, circulou nas redes sociais um material manipulado por inteligência artificial generativa que simulava o ex-presidente Mauricio Macri.
O vídeo apresentava sincronização labial e tonalidade de voz realistas, dificultando sua identificação como falso. Nele, Macri declarava apoio ao candidato Manuel Adorni, do partido do atual presidente Javier Milei, e anunciava a desistência da candidata Silvia Lospennato, do PRO.
O material viralizou rapidamente, sendo amplificado por contas supostamente ligadas a setores do governo nacional. A estratégia por trás da disseminação visava desorientar eleitores do PRO e direcionar votos para Adorni em um cenário de forte polarização.
Como resultado da eleição, o partido La Libertad Avanza conquistou 30% dos votos, garantindo uma vitória inédita na capital argentina e relegando o PRO, que governava a cidade desde 2007, a um surpreendente terceiro lugar.
Ex-presidente nega autenticidade e promete ir à Justiça
O ex-presidente Macri reagiu prontamente na rede social X, negando a autenticidade do vídeo e classificando o ato como um “grave ato de profundo desrespeito” às regras eleitorais e à democracia, prometendo ações legais.
O partido PRO entrou com uma denúncia na Corte Eleitoral, que determinou a remoção imediata do conteúdo pela ameaça ao direito a um voto informado. Contudo, não foram aplicadas multas ou sanções explícitas aos responsáveis pela postagem ou compartilhamento do vídeo.
Contrastes e debates sobre regulamentação
A repercussão do deepfake eleitoral em Buenos Aires intensificou o debate sobre a necessidade de regulamentar as redes sociais e o papel da tecnologia nos processos democráticos. Segundo Francieli Campos, advogada e professora, a situação vivida na Argentina contrasta significativamente com o que ocorreria em uma eleição no Brasil. A normativa do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) brasileiro proíbe expressamente o uso de conteúdo digitalmente manipulado que crie ou altere imagem ou voz de pessoas em propaganda eleitoral.
No Brasil, tal prática poderia acarretar a cassação do registro ou do mandato do candidato beneficiado, por abuso do poder político e uso indevido dos meios de comunicação, além de configurar um possível crime eleitoral.
Questionado sobre o vídeo, o presidente Javier Milei defendeu a divulgação como um exercício de liberdade de expressão, negou envolvimento do Estado na operação e sugeriu que o tuíte original poderia ser interpretado como uma brincadeira. Milei considera “loucura” perseguir usuários em redes sociais.
Essa diferença de abordagem legal e social entre Argentina e Brasil, conforme apontado pela especialista, demonstra a complexidade e a falta de consensos definitivos em relação ao impacto da tecnologia e das redes sociais na sociedade e na política.
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