Crusoé: De terno e sem fuzil
Após anos de regime de Assad, os sírios depositam suas esperanças em um homem que até ontem era procurado pelos Estados Unidos
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu o mundo ao anunciar o fim das sanções econômicas à Síria em 13 de maio.
“Eu estarei ordenando o fim das sanções contra a Síria para dar a eles uma chance de grandeza”, afirmou o republicano, sendo aplaudido de pé pelo ditador saudita Mohammed bin Salman durante visita a Riad.
A decisão foi tomada seis meses após o grupo Hay’at Tahrir al-Sham (HTS) — ainda classificado como terrorista pelo Departamento de Estado americano — derrubar a ditadura de Bashar Assad.
O alívio das punições representa uma esperança aos sírios, que saíram às ruas da capital Damasco para festejar a notícia.
Desde 1979, os EUA impõem sanções econômicas à Síria em resposta aos crimes contra a humanidade ou apoio a grupos terroristas.
“Jovem atraente“
No dia seguinte ao anúncio, Trump reuniu-se com o presidente sírio Ahmed al-Sharaa, a quem classificou “um rapaz jovem atraente, durão e com um passado sólido”, em Doha.
O “passado” ao qual o republicano se referia é o de líder do HTS — uma costela da Al Qaeda — quando Sharaa era chamado de Mohamed al-Jolani.
Trump enxerga no novo presidente sírio um aliado para impedir o ressurgimento do Estado Islâmico (Isis), que foi derrotado pelo regime de Assad durante a guerra civil de 2015.
Como em todas as suas negociações, Trump fez cinco exigências a Sharaa.
A Síria deve: assinar os Acordos de Abraão com Israel, expulsar os terroristas da Síria, deportar combatentes palestinos, ajudar os Estados Unidos a impedir o recrudescimento do Estado Islâmico (Isis) e assumir os centros de detenções onde há terroristas presos.
Os Estados Unidos temem que o país torne-se uma nova Líbia ou Afeganistão.
Financiamento
Sharaa terá o desafio de lidar com a influência da Turquia, cujo governo de Recep Tayipp Erdogan foi o principal financiador da insurgência do HTS contra Assad em dezembro do ano passado.
Desde então, os turcos buscam ampliar sua presença estratégica sobre o novo governo da Síria.
Um dos desejos de Ancara é controlar o espaço aéreo sírio.
Israel, no entanto, surge como obstáculo para Erdogan.
O governo de Benjamin Netanyahu quer evitar que o armamento deixado por Assad seja utilizado pelas forças do novo governo interino sírio ou pelo Estado Islâmico.
Em ofensiva recente, o exército israelense destruiu arsenais militares deixados pela ditadura.
Com isso, enviou um sinal para a Turquia que não deixará ter mais influência sobre o país.
As autoridades israelenses também temem a formação de eixos islâmicos sunitas liderados pelos turcos.
Síria e Israel não mantém relações diplomáticas.
Unidade
A maior missão do governo sírio será a de manter a Síria unida.
Sharaa não foi eleito presidente do país, e chegou ao poder após um golpe armado.
Ciente da falta de legitimidade interna, ele prometeu novas eleições presidenciais.
No entanto, deu um prazo de quatro a cinco anos para a realização, alegando que “qualquer eleição válida exigirá um censo populacional abrangente”.
Além disso, o novo governo já apresentou um rascunho preliminar de uma nova Constituição, como garantia de uma Síria democrática prometida à comunidade internacional.
A Constituição anterior, de 2012, foi criada por Bashar Assad.
Nos primeiros meses, o país registrou confrontos entre o Exército sírio e remanescentes do regime.
Em março, houve ataques entre milícias pró-Assad e as forças do novo governo.
Em resposta, o Exército matou centenas de pessoas da minoria alauíta, da qual o antigo regime fazia parte.
As disputas duraram três dias.
Economia
As décadas da ditadura familiar de Assad empurraram a Síria para um buraco econômico.
Irã e Rússia financiaram o regime sírio por décadas.
Após o fim desse período, o novo governo foi atrás de ajuda internacional para a reconstrução do país.
Além de Trump, Sharaa reuniu-se com o presidente francês, Emmanuel Macron, e com líderes europeus.
Em fevereiro, a presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, anunciou a ampliação para “cerca de 2,5 bilhões de euros” da ajuda destinada à reconstrução da Síria.
“À medida que abordamos as necessidades imediatas dos sírios, devemos começar a nos preparar para o futuro. Há cidades inteiras para reconstruir e economias inteiras para reiniciar“, disse Ursula.
“A Síria era uma das potências econômicas do Oriente Médio. E queremos ser parceiros na recuperação e no crescimento de uma nova Síria“, afirmou Ursula.
Com apoio do ditador saudita Mohammed Bin Salman, a diplomacia foi restabelecida com pares internacionais.
Internamente, Sharaa preencheu postos públicos deixados vagos após a queda de Assad. Essa era uma reivindicação da população.
Os sírios sentem no bolso…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)