Crusoé: Bolívia terá eleições com governo desaprovado por 95%
Crusoé entrevistou analista político sobre a crise do MAS, possíveis tentativas de fraude e o futuro do país
Os bolivianos irão às urnas no próximo domingo, 17, para o primeiro turno das eleições presidenciais.
As pesquisas apontam para uma possível derrota do Movimento ao Socialismo (MAS), partido do presidente Luis Arce, que por quase duas décadas dominou o cenário político do país.
Com o aprofundamento da crise econômica, o governo Arce enfrenta uma taxa de desaprovação de 95%.
Crusoé conversou com o cientista político boliviano Rolando Schrupp sobre o colapso da esquerda no país, os riscos de fraude e violência durante o pleito e o futuro da Bolívia.
Por que a esquerda está eleitoralmente tão mal? O que aconteceu com as figuras do MAS, com os seguidores de Evo Morales?
Porque o socialismo funciona até acabar o dinheiro dos outros. O esgotamento político da era chamada “neoliberal” e a crise do Estado-Nação no final do século passado abriram a possibilidade de captar uma população com ressentimentos por velhos problemas estruturais não resolvidos. A oferta do Socialismo do Século XXI na Bolívia, por meio de seu representante local, o MAS, propôs um “Processo de Mudança” e o “Vivir Bien”.Essas promessas foram temporariamente atendidas por meio de um sistema clientelista de governo e uma “redistribuição” da riqueza gerada pela liberação da economia e pelos investimentos da década de 1990.
O projeto do MAS, com fortes componentes no discurso étnico (racial), conseguiu chegar ao poder em um momento de fatores positivos convergentes: a eliminação da dívida externa (Milênio), a alta dos preços das commodities (gás), a maturação dos investimentos em exploração e explotação e um novo marco legal aprovado pelo cruceño Hormando Vaca Diez, que “nacionalizou” os recursos de gás.
O masismo se encontrou no auge da onda e impôs uma economia com fortes componentes de capitalismo estatal, planejamento centralizado e politização das decisões. Foi mais em um contexto de crescimento por demanda agregada do que em uma economia baseada na acumulação flexível de capital, poupança, investimento e produção.
A última década foi marcada pelo compromisso de manter essas ideias, e o masismo optou pela emissão monetária irresponsável, pela acumulação de dívida interna de má qualidade e pela contração de dívida externa irresponsável.
Assim, o que aconteceu eleitoralmente para que a esquerda esteja tão mal é o que sempre acontece quando um regime socialista é aplicado: a realidade é mais forte que as boas intenções, e hoje é hora de pagar a conta pelas más decisões de cunho populista e demagógico do masismo em sua tentativa de se perpetuar no poder.
As pessoas que antes votaram no MAS hoje estão sofrendo o início de um período de crise econômica e buscam outras opções, sem ainda terem refletido sobre os problemas de fundo que nos trouxeram a essa situação.
O fenômeno de Javier Milei na Argentina serviu para que o branding político ecoasse as ideias de liberdade, mas essas ainda não foram assumidas como uma proposta eleitoral séria.
A esquerda não será capaz de apelar? Tentará algum tipo de fraude ou entregará o poder à direita?
A esquerda tentou inúmeras artimanhas para…
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