“Como reerguer uma casa quando metade da aldeia foi morta ou sequestrada?”
O escritor israelense Matti Friedman usa a destruição de Nir Oz para refletir sobre identidade, comunidade e o futuro de Israel depois do 7 de outubro
O jornalista e escritor israelense Matti Friedman publicou nesta quinta, 1º, no site The Free Press, o artigo “O que o kibutz pode ensinar a Israel em seu 77º aniversário”.
O texto parte da tragédia do kibutz Nir Oz, devastado nos ataques de 7 de outubro de 2023, para levantar uma pergunta essencial sobre o país: o que deve ser reconstruído — e o que precisa ser reinventado?
“Parte do processo de planejamento é tentar entender — o que é um kibutz no século 21?”, diz Shanee Shiloh, arquiteta e nascida em Nir Oz, que voltou à terra natal para ajudar a planejar sua reconstrução.
A dúvida, segundo Friedman, é anterior ao traçado das casas e dos prédios: é sobre identidade.
O kibutz foi durante décadas o símbolo de Israel. “Se você soubesse uma única coisa sobre o país, era o kibutz.” Comunismo agrário, propriedade coletiva, criação dos filhos em grupo, trabalho manual, idealismo, abnegação.
Mesmo sendo uma minoria, os kibutzniks definiram o tom da cultura israelense. “Rejeitavam a religião e a autopiedade”, escreve Friedman. “E combinavam dureza militar com sonhos de paz.”
Fundado em 1955, Nir Oz nasceu “a poucos metros da fronteira com Gaza, então controlada pelo Egito”, como uma vanguarda que arava o deserto enquanto defendia o Estado recém-criado. Mas a ideologia se dissolveu nas décadas seguintes.
“Nos anos 1990, muitos kibutzim faliram”, e Israel passou a ser um país urbano, próspero e mais livre. A comunhão virou condomínio. “Alguns começaram a parecer algo perigosamente próximo a condomínios fechados.”
A barbárie do Hamas devolveu os kibutzim ao centro da história. Em Nir Oz, 47 moradores foram assassinados em 7 de outubro. Entre eles, Rami Katzir, pai de Elad, que foi sequestrado e assassinado meses depois em Gaza.
“Dos cerca de 400 moradores, um quarto foi sequestrado ou morto.” Os que sobreviveram se espalharam. Casas queimadas continuam de pé. E os traços da invasão ainda marcam as paredes — “os militares deixaram inscrições de busca, os terroristas deixaram pichações em árabe”.
Shiloh e os arquitetos decidiram que, antes da demolição, era preciso pensar o que seria erguido no lugar. E mais: o que aquele lugar queria ser. “Será que a comunidade precisa de grandes salões coletivos?”, pergunta Friedman. “Ou devemos descentralizar tudo em pequenos centros, para que as pessoas caminhem, se encontrem e convivam?”
Não se trata de nostalgia por um modelo extinto. “O kibutz não terá cara de base militar.” Mas também não será um memorial. “O kibutz vai renascer — mas não estará reconstruído antes de os reféns voltarem”, escreve Friedman. Catorze moradores de Nir Oz ainda estão em poder do Hamas, sete deles mortos.
O plano é reduzir a escala dos edifícios, manter o senso de comunidade, buscar o essencial. “Aqui, há a opção de uma vida diferente, mais tranquila, em que você para de trabalhar às 16 horas e passa tempo com a família.” A proposta, diz Shiloh, “não é comunismo, é comunidade”.
A frase que melhor define essa reconstrução vem de Gadi Mozes, agricultor de 80 anos que passou 482 dias em cativeiro e, ao voltar, disse: “Estou animado para reconstruir Nir Oz”.
Friedman reconhece que o entusiasmo das gerações fundadoras não é o mesmo entre os jovens.
Hoje, quem se dispõe a ocupar territórios arriscados são os religiosos da Cisjordânia — “inimigos ideológicos dos kibutzniks de esquerda”.
Ainda assim, ele aposta numa força que independe de ideologia. “O que traz as pessoas de volta não é o socialismo nem a defesa das fronteiras, é a sensação de pertencimento: a ideia de que, no ‘nós’ do kibutz, somos maiores do que sozinhos.”
Quem é Matti Friedman
Matti Friedman é escritor e jornalista israelense nascido no Canadá. Foi correspondente da Associated Press em Jerusalém e colabora com veículos como The New York Times, The Atlantic e The Wall Street Journal.
Vencedor dos prêmios Natan e Sami Rohr, escreveu livros como Spies of No Country e Pumpkinflowers, sobre identidade judaica e o Oriente Médio contemporâneo. É uma das principais vozes do jornalismo israelense atual.
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