Cientistas identificam escorpião gigante de mais de um metro, o maior já registrado pela ciência
Escorpião gigante de mais de um metro é descoberto
Fósseis guardados há mais de 150 anos no Museu de História Natural de Londres foram reexaminados e confirmaram a existência do maior escorpião já registrado pela ciência. A espécie, chamada Praearcturus gigas, viveu há cerca de 415 milhões de anos e alcançava mais de 1 metro de comprimento.
O que é o Praearcturus gigas e onde foi encontrado?
O Praearcturus gigas é uma espécie de escorpião primitivo que habitou as planícies aluviais do que hoje é a Inglaterra e o País de Gales durante o Período Devoniano Inicial, há aproximadamente 415 milhões de anos. Os fósseis foram encontrados na Formação St Maughans, na região de Herefordshire e ao longo do País de Gales, uma área rica em sedimentos do chamado Arenito Vermelho Antigo.
O estudo que confirmou a identidade do animal foi publicado em junho de 2026 na revista científica Palaeontology (DOI: 10.1111/pala.70064), com autoria principal do doutor Richard J. Howard, curador de artrópodes fósseis do Museu de História Natural de Londres, em colaboração com pesquisadores da Universidade de Manchester e da Universidade Tecnológica de Dublin.
Por que levou mais de 150 anos para confirmar o que esse animal era?
O Praearcturus gigas foi descrito pela primeira vez em 1871 pelo paleontólogo Henry Woodward, que o classificou como um grande crustáceo semelhante a um tatuzinho-de-jardim gigante. Essa interpretação ficou registrada até no nome da espécie: o termo “Arcturus” faz referência a um grupo de crustáceos ainda existente.
Nas décadas de 1980, pesquisadores passaram a suspeitar que os fósseis poderiam pertencer a um escorpião primitivo. Mas a confirmação era impossível: os fragmentos preservados não incluíam a cauda característica dos escorpiões, e sem ela, a classificação permanecia incerta. Segundo o doutor Russell Garwood, paleontólogo da Universidade de Manchester e coautor do estudo, o animal intrigou os especialistas por mais de um século justamente porque os fósseis disponíveis nunca foram suficientes para uma resposta definitiva.

O que resolveu a controvérsia de classificação?
A virada veio em 2015, quando um escorpião fóssil chamado Eramoscorpius foi descrito a partir de um exemplar canadense muito bem preservado. Esse fóssil mostrava claramente o esterno triangular alongado com um sulco central, uma estrutura anatômica característica dos escorpiões primitivos.
Os pesquisadores verificaram que o Praearcturus gigas possuía exatamente a mesma estrutura. Usando tomografia computadorizada e novas técnicas de imageamento digital, a equipe do Museu de História Natural de Londres e da Universidade de Manchester comparou os fragmentos britânicos com o exemplar canadense e eliminou todas as dúvidas sobre a classificação. A confirmação como escorpião foi possível sem a presença da cauda nos fósseis, algo que antes parecia indispensável.
| Comparativo | Praearcturus gigas | Referência atual |
|---|---|---|
| Comprimento totalEstimativa a partir dos fósseis | Mais de 1 metro | Escorpião atual: até 23 cm |
| Comprimento das pinçasQuelíceras preservadas nos fósseis | Mais de 16 centímetros | Muito acima dos atuais |
| Período geológicoÉpoca em que viveu | Devoniano Inicial, 415 milhões de anos atrás | 50 mi de anos antes do Carbonífero |
| Primeira descrição científicaPublicação original | 1871, por Henry Woodward (como crustáceo) | Confirmado como escorpião em 2026 |
Por que o animal cresceu tanto numa época tão remota?
Há 415 milhões de anos, a vida terrestre ainda estava nos seus primeiros passos. Não existiam árvores, os ecossistemas em terra eram compostos por plantas pequenas e fungos, e os ancestrais dos répteis, mamíferos e aves ainda não tinham saído da água. O Praearcturus gigas operava num ambiente com pouquíssima competição e praticamente sem predadores de grande porte.
Segundo o doutor Howard, essa ausência de competidores pode ter sido o fator principal que permitiu ao animal atingir tamanhos tão extraordinários. “Sugere que essa espécie pode ter crescido tanto porque não havia outros grandes predadores, o que lhe permitia dominar o ambiente”, declarou ele na nota de imprensa do museu. Os pesquisadores acreditam ainda que o animal provavelmente dividia o tempo entre o ambiente terrestre e a água, já que os ecossistemas em terra da época não eram complexos o suficiente para sustentar um predador desse porte em tempo integral.
O que essa descoberta muda no entendimento da evolução dos escorpiões?
Antes deste estudo, quando se pensava em artrópodes gigantes pré-históricos, as referências mais conhecidas eram o Arthropleura, o milípede gigante do Carbonífero, e as libélulas enormes como as griffinflies, também desse período. Todas essas criaturas viveram ao menos 50 milhões de anos depois do Praearcturus gigas.
A confirmação de que um escorpião atingiu esse porte no Devoniano Inicial muda a linha do tempo da evolução do gigantismo entre os artrópodes terrestres. Segundo o doutor Howard, “confirmar que esse animal é um escorpião muda fundamentalmente nossa compreensão de como e quando essas criaturas evoluíram para tamanhos tão extraordinários”. O estudo também reforça a importância das coleções de museus: espécimes coletados no século XIX, preservados por gerações de pesquisadores, ainda são capazes de gerar descobertas de primeira linha com as ferramentas certas.
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O que os fósseis revelam sobre o comportamento e a anatomia do animal?
Além do tamanho, os fósseis do Praearcturus gigas encontrados no País de Gales mostram estruturas chamadas epímeros, apêndices semelhantes a nadadeiras encontrados em crustáceos como lagostas e caranguejos. Essa característica sugere que o animal tinha capacidade de se mover na água, reforçando a hipótese de que vivia entre os dois ambientes.
Os pesquisadores estimam que a espécie pode ter sobrevivido por mais de 40 milhões de anos além do período dos fósseis encontrados, antes de desaparecer. O estudo completo está disponível na revista Palaeontology e a nota de imprensa oficial foi publicada pelo Museu de História Natural de Londres, instituição que guarda os fósseis originais em sua coleção.
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