China tentou criar um “rio no céu” para resolver a falta de água

03.10.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
China tentou criar um “rio no céu” para resolver a falta de água
avatar
Redação O Antagonista
8 minutos de leitura 27.06.2026 15:43 comentários
Mundo

China tentou criar um “rio no céu” para resolver a falta de água

O projeto chinês para criar rio no céu

avatar
Redação O Antagonista
8 minutos de leitura 27.06.2026 15:43 comentários 0
China tentou criar um “rio no céu” para resolver a falta de água
China tentou criar um “rio no céu” para resolver a falta de água, mas o projeto virou piada entre cientistas

Em 2018, a China anunciou um dos projetos climáticos mais ambiciosos da história: criar um corredor permanente de chuva artificial no céu, batizado de Tianhe, ou “Rio Celestial”. A ideia era redirecionar as chuvas das monções sobre o Planalto Tibetano para abastecer os rios do norte do país, que sofrem com a falta de água. O problema é que, desde o início, cientistas chineses chamaram o projeto de inviável, e ele provavelmente foi cancelado em silêncio.

O que é o projeto Tianhe e qual problema ele tentava resolver?

A China enfrenta uma divisão grave: o sul do país tem água em excesso, e o norte é seco e populoso. Para tentar equilibrar isso, o governo criou o Projeto de Transferência de Água Sul-Norte, um sistema gigantesco de canais e tubulações. O Tianhe seria uma extensão aérea desse sistema: em vez de mover a água pelo chão, a ideia era movê-la pelo céu.

O plano previa semear nuvens numa área de cerca de 1,6 milhão de km² no Planalto Tibetano, o equivalente ao tamanho do Alaska, para forçar as chuvas a cair sobre o Rio Amarelo, que abastece o norte, em vez de seguirem naturalmente para o sul. O projeto pretendia transferir até 7% do consumo anual de água do país por essa rota aérea.

China tentou criar um “rio no céu” para resolver a falta de água, mas o projeto virou piada entre cientistas
China tentou criar um “rio no céu” para resolver a falta de água, mas o projeto virou piada entre cientistas

O que é semeadura de nuvens e como ela funciona?

A semeadura de nuvens é uma técnica usada em mais de 50 países, inclusive nos Estados Unidos. Ela não cria chuva do nada: o que ela faz é ajudar nuvens que já existem a liberar a água que carregam com mais eficiência.

O processo consiste em injetar partículas nas nuvens, como sal ou iodeto de prata, um composto químico que tem estrutura parecida com a do gelo. Essas partículas servem como ponto de condensação: as gotículas de água se agarram a elas, crescem e acabam caindo como chuva ou neve. As partículas podem ser lançadas por aviões, drones, foguetes disparados do chão ou câmaras de combustão que soltam o material diretamente para a atmosfera.

Veja como a técnica é aplicada em diferentes situações:

1
Combate à seca Aumenta a chuva em regiões áridas, especialmente em montanhas onde a neve abastece rios no inverno e na primavera.
2
Redução de granizo Força as nuvens a liberar a água antes que os cristais de gelo fiquem grandes demais, protegendo plantações.
3
Limpeza do ar A China usou a técnica antes dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 para garantir céu limpo durante as cerimônias.
4
Reforço de reservatórios Aumenta a precipitação sobre bacias hidrográficas para garantir mais água em rios e açudes.

Por que o projeto Tianhe foi criticado pela comunidade científica?

Desde o anúncio, pesquisadores chineses foram diretos: o projeto não tinha base científica. Um professor da Universidade de Defesa Nacional chamou o Tianhe de projeto “absurdo e fantasioso, sem viabilidade tecnológica”. O ponto central da crítica é que não é possível capturar toda a umidade de uma nuvem ou redirecionar o caminho das massas de ar dessa forma.

Mesmo a semeadura de nuvens convencional tem limites claros. Jeff French, pesquisador de ciências atmosféricas da Universidade de Wyoming, explica que em condições ideais a técnica pode aumentar a precipitação em 7% a 10% sobre uma cadeia de montanhas. Mas esse ganho cai para 1% nas regiões mais distantes. Redirecionar chuvas entre bacias inteiras está muito além do que a ciência permite.

O que aconteceu com o projeto depois do anúncio?

O Tianhe recebeu financiamento do governo de Qinghai, da Universidade de Qinghai e de verbas federais. Em 2016, o Ministério da Ciência e Tecnologia chegou a classificá-lo como “projeto de inovação tecnológica de significado internacional”. Mesmo assim, as críticas internas nunca pararam.

Em 2022, a equipe ainda trabalhava numa versão muito menor do projeto original. Depois disso, os canais oficiais pararam de mencionar o Tianhe. O novo plano quinquenal da China para 2026-2030 fala em avanços na modificação climática, mas não cita o projeto pelo nome. Para especialistas ouvidos pela Live Science, isso é sinal de que o programa foi cancelado discretamente.

Confira abaixo a linha do tempo do projeto:

Ano Evento Status
2016 Ministério da Ciência classifica o Tianhe como projeto de “significado internacional” Aprovado
2018 Anúncio oficial do projeto; críticas imediatas de cientistas chineses Contestado
2022 Equipe trabalha em versão muito reduzida; projeto some dos canais oficiais Reduzido
2026 Plano quinquenal 2026-2030 não menciona o Tianhe pelo nome Provavelmente cancelado

Os países vizinhos têm razão de se preocupar com o projeto?

A Índia, o Bangladesh e outros países do sul da Ásia dependem das monções e de rios que nascem no Planalto Tibetano. Por isso, a ideia de a China redirecionar chuvas naquela região gerou preocupação geopolítica real. Há suspeitas de que a semeadura de nuvens pudesse reduzir a chuva que naturalmente chegaria a esses países.

Mas os especialistas pedem cautela com esse raciocínio. Rob Rauber, cientista atmosférico da Universidade de Illinois, explica que a quantidade de água em nuvens de tempestade é muito maior do que qualquer programa de semeadura consegue extrair. “Você não está roubando Pedro para pagar Paulo”, disse ele. O impacto sobre os vizinhos seria mínimo, segundo os dados disponíveis.

Leia também: Proibido por 90 anos, esse material de construção retorna com isolamento 15 vezes maior que o concreto e séculos de carbono guardado

O que o caso Tianhe revela sobre os planos climáticos da China?

O fracasso do Tianhe não significa que a China vai parar. O país emprega cerca de 50.000 pessoas em programas de modificação climática, usa milhares de lançadores de foguetes e dezenas de aviões, e investe bilhões de dólares nessa área. Entre 2020 e 2025, o governo afirma ter aumentado a precipitação em 168 bilhões de toneladas por meio dessas técnicas.

Para especialistas, o caso do Tianhe mostra que a China está disposta a apostar em projetos gigantescos de geoengenharia mesmo quando a ciência não ampara a ideia. Emily Yeh, professora de geografia da Universidade do Colorado, resume bem: “Há um impulso de controlar e enxergar o meio ambiente como uma máquina que pode ser manipulada.” O Tianhe pode ter falhado, mas a mentalidade que o criou segue muito viva.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Associações de imprensa protestam contra intervenção judicial no debate da Globo

Associações de imprensa protestam contra intervenção judicial no debate da Globo
2

Ala do TSE e do STF acaba com o debate da TV Globo e com eleições livres

Ala do TSE e do STF acaba com o debate da TV Globo e com eleições livres
3

Crusoé: Ruas cresce 3,8 pontos no RJ, indica Paraná Pesquisas

Crusoé: Ruas cresce 3,8 pontos no RJ, indica Paraná Pesquisas
4

A nova disputa entre Dino e Luiz Fux no Supremo Tribunal Federal

A nova disputa entre Dino e Luiz Fux no Supremo Tribunal Federal
5

E a Justiça criou o caos…

E a Justiça criou o caos…
6

Austrália segue EUA e fecha embaixada no Brasil

Austrália segue EUA e fecha embaixada no Brasil
7

Dino e Gilmar esculhambaram a eleição

Dino e Gilmar esculhambaram a eleição
8

Crusoé: Gilmar tentou ajudar Lula?

Crusoé: Gilmar tentou ajudar Lula?
9

Ministra do TSE que proibiu púlpito vazio já defendeu voto em Lula

Ministra do TSE que proibiu púlpito vazio já defendeu voto em Lula
10

Crusoé: O que os nossos juízes ainda vão aprontar nesta eleição?

Crusoé: O que os nossos juízes ainda vão aprontar nesta eleição?
1

Ministra do TSE que proibiu púlpito vazio já defendeu voto em Lula

Ministra do TSE que proibiu púlpito vazio já defendeu voto em Lula
2

Dino e Gilmar esculhambaram a eleição

Dino e Gilmar esculhambaram a eleição
3

Lula pede ao TSE investigação sobre suspensão de serviços consulares dos EUA

Lula pede ao TSE investigação sobre suspensão de serviços consulares dos EUA
4

Lula tenta corrigir fala sobre limite de cartões de crédito

Lula tenta corrigir fala sobre limite de cartões de crédito
5

MP Eleitoral pede multa a Lula, Flávio e outros candidatos a presidente

MP Eleitoral pede multa a Lula, Flávio e outros candidatos a presidente
6

Ministra eleitora de Lula no TSE resguardou o presidente, mas penalizou o eleitor

Ministra eleitora de Lula no TSE resguardou o presidente, mas penalizou o eleitor
7

Meio-Dia em Brasília: TV Globo é alvo de censura do TSE e do STF; eleições livres acabaram?

Meio-Dia em Brasília: TV Globo é alvo de censura do TSE e do STF; eleições livres acabaram?
8

Crusoé: Quando o juiz decide o que a lei deveria ser

Crusoé: Quando o juiz decide o que a lei deveria ser
9

Datafolha mostra Lula à frente em MG e PE e Flávio no RJ e DF

Datafolha mostra Lula à frente em MG e PE e Flávio no RJ e DF
10

Associações de imprensa protestam contra intervenção judicial no debate da Globo

Associações de imprensa protestam contra intervenção judicial no debate da Globo
1

“Tá com hiperfoco, domingo te respondo, Canja”, diz Nikolas

“Tá com hiperfoco, domingo te respondo, Canja”, diz Nikolas
2

Vini Jr. obtém direito de resposta contra Ruas

Vini Jr. obtém direito de resposta contra Ruas
3

Bolsonaro tem tornozeleira eletrônica substituída durante prisão domiciliar

Bolsonaro tem tornozeleira eletrônica substituída durante prisão domiciliar
4

A 2 dias da eleição, governo Lula aposta na tese de interferência dos EUA

A 2 dias da eleição, governo Lula aposta na tese de interferência dos EUA
5

Apostas em Flávio caem para 57% na Polymarket

Apostas em Flávio caem para 57% na Polymarket
6

Rio lidera inquéritos por crime eleitoral no país

Rio lidera inquéritos por crime eleitoral no país
7

O acordo que o PT assinou com a Globo e depois pediu para anular

O acordo que o PT assinou com a Globo e depois pediu para anular
8

Debate da Globo cancelado: como TSE e STF implodiram o último confronto

Debate da Globo cancelado: como TSE e STF implodiram o último confronto
9

Toffoli manda somar tempo de TV a governador do Ceará

Toffoli manda somar tempo de TV a governador do Ceará
10

Lula celebra decisão de Alcolumbre de pautar fim da escala 6×1 

Lula celebra decisão de Alcolumbre de pautar fim da escala 6×1 

Tags relacionadas

água China
< Notícia Anterior

Albert Einstein: “O importante é não parar de questionar. A curiosidade tem a sua própria razão de existir.”

27.06.2026 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Com um edifício revestido de folhas de ouro de 24 quilates por Rem Koolhaas em 2015, o complexo de arte virou o ícone contemporâneo de Milão

27.06.2026 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Redação O Antagonista

Suas redes

Instagram

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.