Chanceler alemão liga violência contra mulheres a imigrantes
Friedrich Merz faz declaração polêmica no Parlamento e enfrenta críticas de pesquisadores e da oposição
O chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, gerou polêmica ao afirmar, durante sessão do Bundestag, que “uma parte significativa dessa violência tem origem em comunidades imigrantes na Alemanha”. A declaração foi motivada por um caso de violência digital envolvendo uma apresentadora de televisão alemã.
A atriz e apresentadora acusou o ex-marido de roubar sua identidade na internet e de criar, ao longo de anos, montagens digitais de caráter sexual com sua imagem — as chamadas deepfakes. O acusado nega as alegações. Brechas na legislação alemã sobre violência digital levaram a mulher a registrar o caso na Espanha, país onde o casal residia.
O que disse o chanceler
No plenário, Merz disse que a sociedade alemã enfrenta“…uma explosão de violência em nossa sociedade, tanto no mundo físico quanto no digital. E precisamos trabalhar juntos para enfrentar isso. Mas também precisamos tratar das causas. Precisamos discutir isso, e precisamos discutir de onde essa violência está vindo…”
A declaração foi interpretada por parlamentares da oposição como uma tentativa de associar imigração à criminalidade — narrativa comum em partidos de extrema-direita. O partido Alternative für Deutschland (AfD), principal força de oposição, tem utilizado o tema da segurança pública e da imigração como bandeira eleitoral.
Dados e contestações
Os números mais atuais divulgados pelas autoridades alemãs indicam que a violência doméstica contra mulheres atingiu patamares históricos. As estatísticas oficiais apontam que estrangeiros aparecem com frequência acima da média entre os suspeitos de crimes contra mulheres — mas as cifras não detalham nacionalidades nem distinguem situações migratórias.
A pesquisadora de feminicídio Kristina Wolff contesta a interpretação do chanceler com base nos próprios dados do governo. Segundo ela, “desde 2015, com algumas variações, o número de autores de crimes com passaporte alemão fica entre 65% e 70%”.
Wolff avalia que “reduzir o problema à imigração, migração ou status de refugiado simplesmente não faz jus à questão” e classifica como “muito preocupante” o recurso a esse tipo de enquadramento.
Ativistas também alertam que as estatísticas capturam apenas os casos registrados pelas vítimas junto à polícia, o que pode representar uma fração dos episódios reais. A subnotificação, segundo especialistas, é estrutural e afeta todos os grupos populacionais.
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