Catargate: “Alguém que trabalha para outro país durante a guerra é algo terrível, inaceitável”

25.06.2026

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Catargate: “Alguém que trabalha para outro país durante a guerra é algo terrível, inaceitável”

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Alexandre Borges
4 minutos de leitura 04.04.2025 06:08 comentários
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Catargate: “Alguém que trabalha para outro país durante a guerra é algo terrível, inaceitável”

Matti Friedman expõe como o escândalo do Catar revela um país em colapso institucional

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Alexandre Borges
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Catargate: “Alguém que trabalha para outro país durante a guerra é algo terrível, inaceitável”
Reprodução/ X

O jornalista canadense-israelense Matti Friedman publicou nesta terça, 1º, no The Free Press, o artigo O escândalo do Catar abala Israel, um país esgotado pela guerra, uma análise do que descreve como “um governo dividido contra si mesmo”.

No centro do texto está o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, envolvido num escândalo que, segundo Friedman, revela mais do que corrupção: mostra um colapso de legitimidade.

O “Catargate” estourou com a prisão de dois assessores diretos de Netanyahu, acusados de atuar secretamente para o governo do Catar — país que financia e abriga a liderança do Hamas.

“Eli Feldstein, espantosamente, parece ter trabalhado para o primeiro-ministro enquanto recebia salário do Catar via um intermediário.” Outro assessor, Yonatan Urich, braço de comunicação de Netanyahu, também está preso. Um terceiro aliado fugiu para a Sérvia.

A suspeita é que, enquanto o governo israelense negociava a libertação de reféns sequestrados pelo Hamas, esses homens promoviam a imagem do Catar como mediador legítimo.

“Melhorar a credibilidade do Catar aos olhos dos israelenses teria o efeito de fazer o mesmo onde realmente importa: em Washington”, escreve Friedman.

O premiê, no entanto, respondeu às prisões com vídeos nas redes sociais, chamando os detidos de “reféns” de uma conspiração e acusando a polícia, a Justiça e o serviço secreto de formar um “Estado profundo”– expressão que importou diretamente da retórica trumpista.

Friedman destaca que Netanyahu tentou demitir o chefe do Shin Bet, Ronen Bar, responsável pelas investigações, mas foi impedido pela Suprema Corte. Menos de 24 horas depois de anunciar um substituto, recuou. “Isso nunca aconteceu”, observa.

A imagem que fica, diz o autor, é a de um chefe de governo instável, que já não separa o que é bom para si do que é bom para o país. “Estamos diante de um estilo de governo que talvez os Estados Unidos possam suportar por algum tempo. Israel não tem a mesma margem de erro.”

Segundo Friedman, o vínculo entre Netanyahu e o Catar foi estabelecido com aval direto do premiê. A decisão de permitir que o Catar enviasse milhões de dólares em espécie para Gaza, a partir de 2018, buscava comprar calma na fronteira sul.

“A ideia era que a estabilidade econômica ajudaria a moderar o Hamas.” Esse cálculo, lembra o autor, desmoronou com os ataques de 7 de outubro de 2023. Mas enquanto o erro estratégico pode ser perdoável, o uso de dinheiro do Catar dentro do próprio gabinete, não.

As advertências mais duras vieram de antigos aliados. Roni Alsheikh, ex-chefe da polícia indicado por Netanyahu, afirmou que “o vínculo com o Catar foi construído sobre a mesa de Netanyahu”.

Yoram Cohen, ex-diretor do Shin Bet, declarou: “Alguém que trabalha para outro país durante a guerra – neste caso um país hostil e apoiador do Hamas – é algo terrível, horrível, inaceitável.”

Friedman nota a contradição que corrói a confiança pública. “Devemos confiar que, quando os agentes do Shin Bet detectam uma célula iraniana ou matam um terrorista do Hamas, estão defendendo o país. Mas quando descobrem infiltração do Catar, estariam agindo como parte de uma vingança da esquerda contra o primeiro-ministro?”

O colapso da credibilidade institucional coincide com o esgotamento da sociedade. “Israelenses ainda são acordados à noite por mísseis dos houthis, os reservistas do exército mostram sinais de exaustão após um ano e meio de guerra, e 59 reféns seguem nas mãos do Hamas.” Ao mesmo tempo, 70% da população afirma não confiar no governo – e mesmo entre os eleitores da coalizão, mais de um terço compartilha desse sentimento.

Friedman descreve a realidade distorcida vendida por Netanyahu: “Devemos continuar pagando impostos ao que nosso primeiro-ministro chama de ‘Estado profundo’. Devemos nos alistar no Exército, embora ele apoie a isenção para os ultraortodoxos de sua base. Devemos acreditar que Netanyahu, no poder desde que o primeiro Avatar estreou nos cinemas, é na verdade uma oposição perseguida por uma hegemonia progressista. E que tudo de errado é culpa dos outros.”

Quem é Matti Friedman

Matti Friedman é jornalista e escritor canadense radicado em Israel. Foi correspondente da Associated Press no Oriente Médio e escreve para The New York Times, The Atlantic e The Free Press.

É autor de livros premiados como Espiões de Nenhum País e Flores de Abóbora, sobre segurança, identidade e conflitos no Oriente Médio. Recebeu o Natan Book Award e o Canadian Jewish Literary Award.

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