Argentina quer revisão de acordo com Trump
Governo argentino diz à Casa Branca que não tem votos no Congresso para ratificar o acordo comercial com os EUA, diz Bloomberg
O governo do presidente argentino Javier Milei informou à administração de Donald Trump que não tem votos suficientes no Congresso para ratificar o acordo comercial bilateral assinado em 5 de fevereiro, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg.
O impasse ocorre às vésperas de um possível encontro entre os dois presidentes em Nova York, à margem da Assembleia Geral da ONU.
Segundo a matéria da Bloomberg, assessores de Milei querem renegociar partes do acordo depois da decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre as tarifas globais impostas por Trump, tomada semanas após a assinatura.
Autoridades americanas rejeitam a ideia. Segundo as fontes, Washington teme que uma revisão das condições para a Argentina crie um precedente para outros países e cobra do governo Milei um cronograma claro para a aprovação do tratado antes do fim do ano parlamentar, em novembro.
O acordo prevê que os Estados Unidos eliminem tarifas para 1.675 produtos argentinos. A Argentina, por sua vez, eliminará tarifas sobre 221 posições tarifárias americanas e reduzirá outras.
O pacto também prevê a ampliação para 100 mil toneladas da cota de acesso preferencial da carne bovina argentina ao mercado americano. Em 2026, serão 80 mil toneladas adicionais às 20 mil já existentes.
O governo argentino estima que a medida poderá acrescentar cerca de 800 milhões de dólares às exportações de carne.
A dificuldade para ratificar o acordo tem uma explicação objetiva na composição do Congresso. A La Libertad Avanza possui 95 das 257 cadeiras da Câmara, abaixo dos 129 votos necessários para formar maioria. Isso obriga o governo a negociar com outras bancadas.
O quadro também é desfavorável no Senado, onde os governistas não controlam a maioria.
Enquanto o acordo comercial aguarda aprovação, algumas de suas medidas já começaram a avançar. Em 27 de agosto, a Câmara dos Deputados aprovou, por 147 votos a 93, a adesão da Argentina ao Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes, mas fez alterações que obrigaram o projeto a retornar ao Senado.
O tema envolve uma das áreas de propriedade intelectual contempladas pelo acordo com os Estados Unidos e enfrenta resistência de setores farmacêuticos argentinos.
O comércio bilateral, por sua vez, continua crescendo independentemente da ratificação. Entre janeiro e agosto, as exportações argentinas para os Estados Unidos somaram 6,691 bilhões de dólares, alta de 34,5% sobre o mesmo período de 2025.
As importações caíram 4%, para 4,530 bilhões, produzindo um superávit argentino de 2,162 bilhões de dólares. Os Estados Unidos foram o segundo maior destino das exportações argentinas no período, atrás apenas do Brasil.
O acordo permanece, portanto, formalmente sem entrar em vigor. O próprio registro oficial da Chancelaria argentina informa que o instrumento assinado em fevereiro ainda não foi ratificado. Para Washington, a próxima etapa é a aprovação do texto já negociado.
Para Buenos Aires, a mudança nas regras americanas abriu espaço para pedir novas condições. O encontro entre Milei e Trump pode definir se o impasse será tratado como uma questão técnica ou se continuará como um problema político entre os dois governos.
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