Abelhas de 20 mil anos atrás transformaram cavidades de dentes em pequenos berçários depois que corujas espalharam ossos de mamíferos pelo chão de uma caverna
Vestígios de ninhos de abelhas em ossos apareceram em mandíbulas e vértebras depositadas numa caverna caribenha há milhares de anos. Tomografias revelaram células de cria construídas em alvéolos dentários, câmaras pulpares e canais vertebrais usados por gerações sucessivas. O que os cientistas encontraram dentro dos ossos fossilizados? Os pesquisadores identificaram pequenas células de cria preenchendo...
Vestígios de ninhos de abelhas em ossos apareceram em mandíbulas e vértebras depositadas numa caverna caribenha há milhares de anos. Tomografias revelaram células de cria construídas em alvéolos dentários, câmaras pulpares e canais vertebrais usados por gerações sucessivas.
O que os cientistas encontraram dentro dos ossos fossilizados?
Os pesquisadores identificaram pequenas células de cria preenchendo cavidades naturais de ossos de mamíferos. Os ninhos apareceram principalmente em alvéolos de dentes, câmaras pulpares e canais de vértebras encontrados na Cueva de Mono, no sudoeste da República Dominicana.
As estruturas receberam o nome Osnidum almontei. Como nenhum corpo de inseto foi preservado, a espécie permanece desconhecida, mas formato, tamanho e paredes internas lisas indicam uma abelha escavadora solitária, provavelmente ligada à família Halictidae.

Como as corujas espalharam tantos ossos pelo chão da caverna?
Corujas-das-torres gigantes usaram a caverna durante muitas gerações e levaram pequenos mamíferos para o interior. Restos de presas também chegaram em pelotas regurgitadas e foram cobertos por sedimentos, formando concentrações incomuns de roedores caribenhos conhecidos como hutias.
Os depósitos pertencem ao Quaternário tardio e são associados a materiais de cerca de 20 mil anos. Como as abelhas ocuparam cavidades já existentes, a idade dos ossos não determina automaticamente a data exata em que cada célula foi construída.
Quais evidências provaram que as cavidades eram pequenos berçários?
A semelhança com ninhos modernos chamou atenção, mas a confirmação exigiu microtomografia computadorizada. O estudo publicado na Royal Society Open Science reconstruiu o interior dos ossos em três dimensões sem destruir os fósseis.
As imagens mostraram células ovais com fundo arredondado, pescoço estreito e revestimento compacto. Alguns exemplares preservaram grãos de pólen, alimento deixado para as larvas, enquanto a textura lisa se diferenciava do sedimento acumulado naturalmente.
Quatro sinais sustentaram a identificação:
Como as abelhas construíam e reutilizavam esses ninhos?
Cada fêmea provavelmente misturava saliva e sedimento para revestir uma pequena câmara, depositava um ovo e armazenava pólen para a futura larva. A célula era selada e permanecia protegida dentro da cavidade óssea durante o desenvolvimento.
Uma mandíbula apresentou seis células encaixadas sucessivamente no mesmo alvéolo, sinal de reutilização por diferentes gerações. O padrão sugere fidelidade ao local e mostra que a caverna funcionou durante longo período como área coletiva de nidificação de abelhas solitárias.
A sequência reconstruída combina comportamento e preservação:
Por que os insetos escolheram ossos dentro de uma caverna?
A região de Pedernales possui relevo cárstico, com calcário exposto e pouca cobertura de solo adequado para escavação. Sedimentos acumulados no interior da caverna ofereciam uma alternativa mais estável às abelhas que normalmente construiriam ninhos no chão.
As cavidades ósseas também tinham dimensões próximas às células necessárias e poderiam reduzir o trabalho de construção. O abrigo subterrâneo talvez oferecesse proteção contra predadores, umidade variável e perturbações da superfície, embora essas vantagens permaneçam hipóteses.
A escolha pode ter resultado da combinação destes fatores:
- Escassez de solo profundo na paisagem calcária ao redor da caverna.
- Acúmulo de sedimento fino entre milhares de ossos de vertebrados.
- Cavidades naturais compatíveis com o tamanho das células de cria.
- Proteção física contra predadores e mudanças rápidas na superfície.
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O que a descoberta acrescenta ao registro fóssil das abelhas?
O achado representa a primeira evidência conhecida de abelhas instalando células de cria em cavidades preexistentes de ossos de vertebrados. Também é um caso raro de nidificação em caverna preservado por vestígios comportamentais, não pelo corpo do inseto.
Os fósseis ligam corujas, mamíferos, sedimentos, pólen e abelhas numa mesma sequência ecológica. A descoberta demonstra que pequenos preenchimentos dentro de ossos podem guardar informações sobre comportamentos que desapareceriam se fossem removidos durante a limpeza convencional das peças.
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