A picada mais dolorosa do mundo: caminhar sobre carvão em brasa com um prego de 8 cm cravado no calcanhar
Conheça o veneno, o ritual indígena Sateré-Mawé e a ciência por trás dessa ferroada
Imagine sentir uma ferroada descrita como “caminhar sobre brasas com um prego de cinco centímetros cravado no calcanhar” e que essa dor dure um dia inteiro. Não é ficção científica. É o que provoca a formiga-bala (Paraponera clavata), o inseto que ocupa sozinho o topo da escala global de dor causada por ferroadas de insetos. O que torna esse animal ainda mais fascinante é que, para um povo indígena da Amazônia brasileira, encarar essa tortura não é acidente, é ritual.
Como os cientistas mediram a dor de centenas de picadas?
A resposta está no trabalho do entomologista norte-americano Justin Schmidt, do Instituto Biológico do Arizona. Nos anos 1980, ele publicou o Índice de Dor por Picadas de Schmidt, uma escala de 0 a 4 que classifica a intensidade e a duração das ferroadas de insetos da ordem Hymenoptera, grupo que reúne mais de 125 mil espécies, incluindo abelhas, vespas e formigas — segundo a National Geographic Brasil.
O método era tão incomum quanto definitivo: Schmidt se deixou picar voluntariamente por cerca de 150 espécies diferentes, registrando com precisão a duração e a intensidade de cada ferroada. O resultado foi uma obra científica com descrições quase poéticas, comparando picadas a charutos apagados na língua ou a ácido derramado num corte da pele. Em 2015, o pesquisador recebeu o Prêmio Ig Nobel pelo conjunto da obra — uma distinção que celebra pesquisas que primeiro fazem rir, depois fazem pensar.
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O que torna a formiga-bala tão singular entre os insetos?
A formiga-bala alcança o nível máximo da escala — o 4 — e está em uma categoria à parte entre todos os insetos catalogados. Encontrada nas florestas tropicais da América do Sul, mede até 2,5 centímetros de comprimento, oito vezes maior que uma saúva operária comum. Seu veneno contém a poneratoxina, uma neurotoxina peptídica que, além de provocar dor devastadora, causa edema, taquicardia e outros efeitos sistêmicos, conforme registrado pela National Geographic Brasil.
No Brasil, o inseto é chamado de tocandira, tucandeira ou formiga das 24 horas — esse último nome diz tudo. A sensação de ardência intensa e latejante pode persistir por um dia completo após uma única ferroada. Para entender como ela se compara aos outros insetos mais temidos, veja a tabela abaixo:
| Inseto | Nível Schmidt | Duração da dor | Descrição do pesquisador |
|---|---|---|---|
| Abelha comum | 2 | 5 a 10 min | Cabeça de fósforo queimando na pele |
| Vespa-do-papel | 3 | até 30 min | Como derramar ácido num corte da pele |
| Vespa-tarântula falcão | 4 | até 5 min | Secador de cabelo jogado na banheira |
| Formiga-bala (tocandira) | 4+ | até 24 horas | Brasa com prego cravado no calcanhar |
Por que um povo indígena escolhe essa dor como rito de passagem?
Para os Sateré-Mawé, povo originário do médio Rio Amazonas, a picada da tocandira não é punição -é iniciação. O ritual, chamado de Waumat, é praticado há séculos e marca a transição dos meninos para a vida adulta.
A cerimônia começa com a coleta de centenas de insetos na floresta. As formigas são colocadas em luvas tecidas de palha — chamadas saaripé — e os jovens, a partir dos 12 anos, enfiam as mãos nelas por cerca de 10 a 20 minutos, enquanto dançam e entoam cânticos tradicionais. Para completar o ritual e ser reconhecido como guerreiro e homem apto a constituir família, o iniciado precisa passar pelo rito ao menos 20 vezes ao longo da vida. Os efeitos mais comuns após cada sessão incluem:
- Dor intensa e latejante por até 24 horas, frequentemente acompanhada de náuseas
- Inchaço pronunciado nas mãos e nos braços
- Tremores musculares e, em alguns casos, paralisia temporária dos membros
- Alteração do estado de consciência, interpretada pelos Sateré-Mawé como transformação espiritual

O que a ciência descobriu ao estudar esses indígenas?
A resistência dos Sateré-Mawé à dor intrigou pesquisadores brasileiros. Um estudo da professora Eliseth Ribeiro Leão, da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, investigou como esses indígenas lidam com a dor no cotidiano da Amazônia, conforme reportado pelo Jornal da USP. O resultado foi revelador: 64,4% dos indígenas entrevistados apontaram o “remédio do índio” — benzimento, pajelança, banhos, rezas e cantos — como principal fator de alívio da dor, contra apenas 22,2% que mencionaram medicamentos convencionais. A pesquisa também constatou que extratos de plantas, como a resina de breu-branco misturada com urucum, são amplamente usados como emplastro após o ritual. A dor, nesse contexto, deixa de ser apenas uma sensação física e se torna um elemento de coesão cultural e identidade coletiva.
Vale encarar essa experiência pelo menos uma vez na vida?
Hoje, algumas comunidades Sateré-Mawé próximas a Manaus abriram o Waumat para visitantes de fora da aldeia — inclusive não indígenas e mulheres, que passaram a participar nos últimos anos. Não é turismo de adrenalina vazia: é uma das janelas mais diretas para compreender como culturas amazônicas transformam a dor em pertencimento, força e espiritualidade.
Se a ideia de 24 horas de ardência parece radical demais, começar pela história já é um passo. A formiga-bala existe há milhões de anos nas florestas tropicais — e o povo que aprendeu a conviver com ela tem muito a ensinar sobre resistência.
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