A invenção da bomba que reinventou o mundo
Oitenta anos atrás, a primeira detonação de uma bomba nuclear mudaria as relações internacionais para sempre
Há oito décadas, em 16 de julho de 1945, a humanidade testemunhava um evento sem precedentes, que redefiniria o curso da história: o Teste Trinity.
Realizado no deserto do Novo México, foi a primeira detonação de uma bomba nuclear, abrindo caminho para os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki menos de um mês depois, o começo do fim da Segunda Guerra Mundial, e o inglório poder humano de destruir a própria espécie (e, com ela, o planeta junto).
A explosão, que gerou uma força equivalente a aproximadamente 20 mil toneladas de TNT, marcou o clímax do ultrassecreto Projeto Manhattan.
O teste, ocorrido exatamente às 5h29 da manhã, não foi apenas um marco científico, talvez o mais importante da nossa era, mas um evento em que a incerteza sobre o sucesso da detonação se misturou à compreensão de que o mundo jamais seria o mesmo.
O físico ganhador do Nobel, Isidor Isaac Rabi, descreveu o clarão: “De repente, houve um enorme lampejo de luz, a luz mais brilhante que eu já vi ou que qualquer pessoa já viu, creio. Ela explodia; dava botes; cavava um buraco dentro da gente. Era uma visão que podia ser vista com algo mais do que com os olhos. Dava a impressão de durar para sempre”.
A gênese de um poder devastador
A criação da primeira bomba atômica, batizada de “Trinity”, teve suas origens no início da década de 1940. Diante da suspeita de que a Alemanha estaria desenvolvendo uma arma nuclear, o então presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, autorizou um programa nuclear em larga escala, que viria a ser conhecido como “Projeto Manhattan”. A colossal empreitada empregou 130 mil pessoas e custou bilhões de dólares, com o objetivo (declarado) de servir como arma decisiva contra o nazismo.
O general Leslie Groves, responsável pela construção do Pentágono, foi quem supervisionou a infraestrutura do projeto. Para liderar a equipe científica, Groves escolheu o físico teórico norte-americano J. Robert Oppenheimer, que também atuava como diretor do laboratório onde a bomba seria testada, supervisionando centenas de trabalhadores e impulsionando-os. O próprio Oppenheimer nomeou o teste como Trinity, designação que, segundo ele, foi inspirada em poemas do poeta inglês John Donne. Há quem sugira, como os biógrafos Kai Bird e Martin Sherwin, que a inspiração também poderia vir da trindade divina hindu, composta por Brahma, Vishnu e Shiva.
O artefato testado, informalmente conhecido como “Gadget” pela equipe, parecia um balão de um metro e meio de largura. Seu núcleo era uma esfera de plutônio de seis quilos, do tamanho de uma bola de beisebol, um elemento altamente radioativo e instável, criado a partir do urânio. Essa esfera era circundada por 2.200 quilos de explosivos convencionais, desenhados para aumentar rapidamente a densidade do núcleo radioativo, desencadeando uma reação em cadeia.
Apesar de o objetivo inicial ser a luta contra o nazismo, o trabalho seguiu em ritmo acelerado mesmo após a vitória Aliada na Europa, pois o Japão, ainda em conflito, não havia se rendido, e os EUA vislumbravam as bombas como um meio de forçar a rendição. A equipe de Oppenheimer desenvolveu dois modelos, um deles mais complexo e mais “elegante” do ponto de vista físico, que foi o usado no teste.
A detonação e suas consequências
O local da detonação foi uma área remota e árida no Novo México, conhecida como Jornada del Muerto, que já servia como campo de testes militares. As condições climáticas preocupavam, mas o meteorologista Jack Hubbard garantiu que estabilizariam a tempo, o que de fato aconteceu. A montagem final do Gadget envolveu cobrir o núcleo de plutônio com níquel e ouro, e posteriormente a adição do “concentrador” de urânio e os explosivos.
Quando a bomba explodiu, os efeitos foram imediatos e devastadores. Além do intenso clarão e da onda de calor, um estrondo ecoou por quilômetros. Uma bola de fogo gigantesca, seguida por uma imensa nuvem em forma de cogumelo, elevou-se a cerca de 12 mil metros de altura, estendendo-se por aproximadamente 1.000 metros de diâmetro. No epicentro, uma cratera de cerca de 800 metros de diâmetro e três metros de profundidade foi formada. O calor foi tão intenso que derreteu a areia da cratera, transformando-a em um sólido cristalino de cor verde-jade, e a torre onde a bomba estava posicionada foi destruída.
Os cientistas presentes, apesar das instruções para se deitarem com o rosto virado, optaram por testemunhar o evento. Edward Teller, um dos físicos, relembrou: “Ninguém obedeceu. Estávamos determinados a olhar nos olhos da fera”. A detonação causou cegueira temporária em alguns observadores e provocou uma série de sensações, incluindo o barulho, o calor e a onda de choque, seguidos pela mudança de cores da luz. Após o sucesso do teste, Kenneth Bainbridge, coordenador do teste, dirigiu-se a Oppenheimer com a notória frase: “Agora somos todos uns filhos da puta”.
O infausto evento, que acaba de completar oitenta anos, foi o primeiro de mais de 2.000 testes nucleares realizados globalmente até 1996, quando o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT) foi assinado por 186 nações. Contudo, de acordo com a ONU, mesmo após a assinatura, Índia, Paquistão e Coreia do Norte realizaram mais de dez testes nucleares nos últimos anos.
Como se vê, aquele dia 16 de julho nunca mais acabou.
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