“A coletiva de saúde pública mais irresponsável da história”
O jornalista americano Joe Nocera relata a coletiva de Trump e RFK Jr. sobre autismo e Tylenol, contestada por especialistas e acusada de incentivar desinformação
Joe Nocera, no portal The Free Press, analisou a coletiva desta segunda, 22, em que o presidente Donald Trump e Robert F. Kennedy Jr., ministro de Saúde, sugeriram ligação entre Tylenol na gestação e autismo.
O pediatra Paul Offit, do Hospital Infantil da Filadélfia e conselheiro da Autism Science Foundation, chamou o evento de “possivelmente a coletiva de saúde pública mais irresponsável da história”.
A crítica se apoia na ausência de evidência causal robusta sobre acetaminofeno, princípio ativo do Tylenol, e transtornos do neurodesenvolvimento.
Segundo Nocera, a Casa Branca citou estudo recente liderado por Andrea Baccarelli, da Escola de Saúde Pública de Harvard.
A pesquisa encontrou “associação”, não causa. Baccarelli disse em comunicado ao governo que “há possibilidade de relação causal” e que são necessários mais estudos.
O autor contrapõe com um estudo maior, publicado em 2024 no Journal of the American Medical Association (JAMA), que encontrou “nenhuma evidência de risco aumentado de autismo”.
Para Holden Thorp, editor-chefe da revista Science, “aquele artigo fornece forte evidência de que não há causalidade com Tylenol”.
Emily Oster, economista e CEO da ParentData, afirmou que o anúncio ignora “o coro de especialistas e sociedades profissionais”.
Nas palavras dela, “a ideia de que Tylenol causa autismo não é bem sustentada pelos dados”. A avaliação reforça o consenso científico atual sobre incertezas e limitações metodológicas.
Nocera contextualiza o histórico de Kennedy à frente do grupo Children’s Health Defense, crítico de vacinas.
Como secretário, ele demitiu 17 membros do comitê de vacinas do CDC, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, e nomeou céticos. Em abril, fixou setembro como prazo para apontar a “causa” do autismo.
Para Thorp, “quando não encontraram novas evidências sobre vacinas, pescaram esse estudo do Tylenol”.
Uma pesquisadora de autismo, não identificada por atuar junto ao governo, disse que a coletiva “nunca deveria ter acontecido” e foi decidida para manter um cronograma político.
Outro ponto sensível foi a mensagem a gestantes.
Trump disse: “Não tome Tylenol. Não tome. Lute com unhas e dentes para não tomar”.
A fala, segundo Nocera, sugere culpa materna caso a criança desenvolva autismo, reativando estigmas antigos como a teoria das “mães geladeira”, já refutada.
Há também risco clínico.
O acetaminofeno é o analgésico e antitérmico considerado seguro na gestação pela autoridade sanitária dos EUA, a agência de alimentos e medicamentos (FDA).
Baccarelli afirmou: “Como único medicamento aprovado para dor e febre na gestação, o acetaminofeno segue sendo ferramenta importante”.
Febre alta não tratada pode prejudicar o feto, lembrou o autor.
Nocera escreve que a recomendação contrária ao Tylenol, se seguida por médicos, poderia causar dano. Ele acrescenta que muitos profissionais tenderiam a ignorar orientações oficiais baseadas em evidência fraca ou incerta.
A coletiva também divulgou o uso de leucovorina, medicamento usado em câncer de cólon, aprovado nesta segunda pela FDA para autismo, sem estudos rigorosos conclusivos.
Oster avaliou: “Em estudos pequenos, mostrou promessa em aspectos de fala, mas não há evidência ampla e convincente”.
O autor aponta a presença de Jay Bhattacharya, diretor dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), e Martin Makary, comissário da FDA, alinhados ao anúncio.
Trump disse: “Há um boato de que Cuba não tem Tylenol e tem praticamente zero autismo”. A afirmação carece de dados públicos verificáveis.
Laurie Cameron, do The Extended Family, organização de apoio a adultos autistas, criticou a linguagem sobre sofrimento.
Para ela, “foi de partir o coração ouvir isso, porque são seres humanos maravilhosos”. A reação expressa a preocupação de famílias com estigma e políticas desinformadas.
Nocera registra que o NIH planeja investir mais US$ 50 milhões para “pesquisa em autismo”, com foco em causas e terapias.
Thorp sustenta que o melhor indício atual combina mutações genéticas herdadas e fatores ambientais. O uso desse recurso para testar a hipótese do Tylenol seria, para o especialista, um desperdício.
Kennedy afirmou que a estratégia busca restaurar a confiança no governo. Nocera observa que a resposta à pandemia já abalou a confiança em instituições de saúde.
Ele conclui que, se a meta é reconstruir credibilidade, “eles têm um jeito estranho de fazer isso”.
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Comentários (3)
Jorge Irineu Hosang
24.09.2025 21:54Meu Deus, tal qual Bolsonaro, Trump só fala merda relacionado a medicina e o pior é que tem um bando de otários para acreditar neles. É a tara eterna da teoria da conspiração. Eles precisam sempre polemizar contra a ciência.
Marian
24.09.2025 09:40Não duvido. Se uma singela dental pode ocasionar lesões bucais e o flúor e endurecimento da glândula pineal, este último em estudo, o que não dirá um remédio?
Marcia Elizabeth Brunetti
24.09.2025 08:41Realmente Trump tem uma “química” com Lula. Ambos são um desastre na forma de conduzir seus discursos.