A cidade onde o sol brilha até de madrugada, a noite desaparece por semanas e prédios inteiros estão sendo mudados de lugar
O fenômeno mostra como luz contínua, escuridão prolongada e mineração subterrânea podem transformar a rotina e o futuro de uma cidade inteira
Imagine acordar às 2h da madrugada, olhar pela janela e ver o sol iluminando a rua como se fossem 14h. Sem truque, sem ilusão. Isso é realidade em Kiruna, uma cidade no extremo norte da Suécia, encravada na Lapônia e tão próxima do Polo Norte que o conceito de noite simplesmente desaparece durante o verão. Mas a falta de escuridão é só o começo do que torna esse lugar absolutamente único no mundo.
Por que o sol não se põe em Kiruna durante o verão
O fenômeno é resultado da inclinação do eixo da Terra. No verão do hemisfério norte, o Polo Norte se inclina em direção ao sol, fazendo com que regiões acima do Círculo Polar Ártico fiquem iluminadas por 24 horas seguidas durante semanas. Em Kiruna, isso pode durar cerca de dois meses consecutivos, entre maio e julho.
Estima-se que cerca de 5 milhões de pessoas no mundo vivam em áreas sujeitas a esse ciclo extremo, em países como Suécia, Finlândia, Noruega, Rússia, Canadá e Groenlândia. O fenômeno é conhecido como “sol da meia-noite” ou “noites brancas” e atrai turistas do mundo todo, mas para quem mora lá, é simplesmente o ritmo da vida.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Luisito Comunica mostrando a rotina na cidade onde a noite não existe:
Como os moradores lidam com semanas sem escuridão
Cristina, uma catalã que se mudou para Kiruna em 2020, descreve bem o impacto: na primeira semana com sol pleno durante todo o dia, o corpo simplesmente não entende quando é hora de dormir. Cortinas blackout se tornam itens essenciais nas casas, e mesmo assim a luz frequentemente encontra frestas. A adaptação pode levar anos.
Apesar disso, a cidade não muda seu funcionamento por causa da claridade. Lojas, bares e restaurantes seguem fechando normalmente à noite, já que Kiruna é pequena e não há demanda para funcionar de madrugada. O resultado é uma imagem surreal: ruas iluminadas como meio-dia, completamente vazias e silenciosas.
Quais são os efeitos da luz e da escuridão extremas na saúde mental
Viver entre dois extremos, meses de luz total e meses de escuridão quase completa, cobra um preço. Pesquisas sobre populações do Ártico apontam efeitos reais no bem-estar psicológico, e Kiruna não é exceção. Entre os impactos mais relatados por moradores e documentados pela ciência estão:

A cidade que está sendo literalmente mudada de lugar
Se o sol eterno já seria suficiente para tornar Kiruna extraordinária, a cidade guarda outro fenômeno igualmente raro: ela está sendo fisicamente deslocada. A razão é a enorme mina de ferro subterrânea sob a cidade, uma das maiores do mundo, cuja extração enfraqueceu o solo de áreas inteiras, tornando insegura a permanência de construções.
Casas, prédios históricos e espaços públicos estão sendo transportados peça por peça para uma nova área urbana. A Torre do Relógio, inaugurada em 1963, foi uma das primeiras estruturas a ser deslocada, em um processo iniciado em 2017 e ainda em andamento em 2025. O caso mais emblemático é o da histórica Igreja de Kiruna, com mais de 110 anos, cuja mudança exigiu a construção de uma estrada especial e estudos avançados de engenharia.
O que faz as pessoas escolherem viver em um lugar tão extremo
Com todos os desafios, Kiruna continua atraindo e retendo moradores. Cristina, que foi originalmente para ver auroras boreais e ficou, resume bem: basta dirigir poucos quilômetros para encontrar florestas intactas, lagos, renas e uma natureza que poucas pessoas no mundo têm acesso. A cultura Sami, povo indígena com tradição milenar na criação de renas e no uso da terra, adiciona uma camada cultural única à região.
Kiruna é um lembrete de que os lugares mais difíceis do mundo costumam ser também os mais fascinantes. Se você ainda acredita que precisa de noite para sentir que o dia acabou, talvez precise visitar a Lapônia sueca e rever alguns conceitos.
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