A China desafia os Estados Unidos lançando um novo sistema de pagamento digital, desafiando a hegemonia do dólar no comércio global
Pagamentos digitais chineses miram a supremacia do dólar
A China prepara o lançamento comercial do mBridge, uma plataforma de pagamentos internacionais baseada em blockchain que permite liquidações diretas entre bancos centrais em moedas digitais próprias, sem passar pelo dólar como intermediário. O sistema já processou o equivalente a US$ 69 bilhões em transações e promete custar metade do que o SWIFT cobra hoje.
O que é o mBridge e como ele funciona na prática?
O mBridge é uma plataforma de infraestrutura financeira construída sobre tecnologia de registro distribuído (DLT), o mesmo princípio técnico do blockchain. Em vez de usar o dólar como moeda de passagem nas transações internacionais, como ocorre na maior parte das liquidações via SWIFT, o mBridge permite que os bancos centrais participantes liquidem pagamentos diretamente nas suas próprias moedas digitais, em tempo real.
O resultado prático é a eliminação de etapas intermediárias que hoje tornam os pagamentos internacionais lentos e caros. Enquanto uma transferência via SWIFT pode levar dias e envolver múltiplos correspondentes bancários, o mBridge reduz o tempo de liquidação para segundos e estima cobrar metade das taxas dos sistemas convencionais. O público-alvo inicial são pequenas e médias empresas que hoje consideram o SWIFT caro e difícil de usar.
Qual é a relação entre o mBridge, o yuan digital e o CIPS?
A China opera três camadas distintas para a internacionalização do yuan. O CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), lançado em 2015, é o sistema de mensageria e liquidação de pagamentos convencionais em yuan, equivalente funcional do SWIFT para transações em renminbi. Em 2024, contava com mais de 1.300 instituições financeiras conectadas em mais de 100 países.
O e-CNY, ou yuan digital, é a moeda digital do banco central chinês, testada desde 2020 em dezenas de províncias. Em janeiro de 2026, o volume total de transações em e-CNY superou US$ 2 trilhões. O mBridge é a camada que conecta essas moedas digitais de múltiplos países em uma infraestrutura compartilhada, permitindo que o yuan digital seja usado diretamente em liquidações internacionais sem passar pela rede bancária tradicional. Os três sistemas são complementares, não concorrentes.

De onde veio o mBridge e qual é seu histórico?
O projeto começou como uma iniciativa bilateral entre a Autoridade Monetária de Hong Kong e o Banco da Tailândia, sob o nome Inthanon-LionRock. Em 2021, o BIS e os bancos centrais da China, dos Emirados Árabes Unidos e da Tailândia se juntaram, rebatizando o projeto como mBridge. A Arábia Saudita entrou em 2024, o mesmo ano em que o BIS transferiu a gestão do projeto aos países membros.
O marco mais simbólico foi em 2024, quando o Xeique Mansour Bin Zayed Al Nahyan, presidente do conselho do banco central dos Emirados Árabes Unidos, enviou 50 milhões de dirhams digitais (cerca de US$ 13,6 milhões) diretamente à China pela plataforma. Foi a primeira grande transferência transfronteiriça registrada no mBridge, e consolidou a Arábia Saudita e os EAU como parceiros estratégicos centrais, dado o papel dessas economias no comércio de petróleo e nas reservas globais de dólares.
| Sistema | Função | Status |
|---|---|---|
| SWIFT Sistema dominante de mensageria financeira global | Mensageria para liquidações internacionais; 11.000+ instituições em 200 países | Dominante — 95% do comércio global |
| CIPS Cross-Border Interbank Payment System — China, desde 2015 | Liquidações convencionais em yuan para 1.300+ instituições em 100+ países | Operacional e em expansão |
| e-CNY Yuan digital — moeda digital do banco central chinês | Pagamentos digitais domésticos e internacionais em yuan digital; US$ 2 trilhões em transações | Em expansão internacional |
| mBridge Plataforma blockchain multi-CBDC liderada pela China | Liquidações diretas entre bancos centrais em moedas digitais; US$ 69 bi processados | Lançamento comercial iminente |
O mBridge realmente ameaça o dólar como moeda global?
A análise do Atlantic Council, publicada em janeiro de 2026, é precisa sobre os limites do projeto: o mBridge é improvável de desafiar a dominância do dólar diretamente, mas pode erosioná-la de forma incremental em corredores, setores e casos de uso específicos. A distinção importa. O SWIFT processa cerca de US$ 5 trilhões por dia e conecta mais de 11.000 instituições em 200 países. O mBridge ainda opera em seis territórios e acumulou US$ 69 bilhões em transações no total, não por dia.
O que o mBridge representa, segundo analistas, não é a substituição do dólar, mas a construção de trilhos paralelos de liquidação que reduzem a dependência dos sistemas baseados em dólar em rotas específicas. O yuan ainda representa menos de 4,5% das reservas internacionais globais, contra quase 58% do dólar. Para que o mBridge seja um desafio estrutural ao sistema atual, precisaria de adesão muito além dos parceiros atuais, incluindo economias alinhadas aos Estados Unidos que hoje resistem a adotar a plataforma por pressão de Washington.
Quais são os riscos e as críticas que o projeto enfrenta?
A principal preocupação levantada pelo governo americano e pelo próprio BIS antes de sair do projeto é o potencial uso do mBridge para contornar sanções internacionais. O sistema elimina a necessidade de bancos correspondentes americanos nas transações, o que tecnicamente retira um ponto de controle que os Estados Unidos usam para fazer cumprir restrições financeiras contra países sancionados.
O Banco Popular da China e o BIS afirmam que o mBridge está em conformidade com as regras antilavagem de dinheiro do GAFI (Grupo de Ação Financeira Internacional). Mas a saída do BIS do projeto em 2024, reportada pelo Financial Times como motivada por pressão de Washington, sinalizou que a questão política ainda não está resolvida. O lançamento comercial iminente colocará essa tensão à prova no mundo real, não mais apenas em laboratórios de política financeira.
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