A casa mais estreita do mundo tem só 92 centímetros no ponto mais apertado, fica espremida entre dois prédios em Varsóvia e tem dois andares
Inaugurada em 2012 para o escritor Etgar Keret, a obra de Jakub Szczęsny tem 14 m², escada de mão e é registrada como instalação artística
Entre um prédio de antes da guerra e um bloco residencial dos anos 1970, no bairro de Wola, em Varsóvia, havia um vão que ninguém usava. Foi ali, na esquina das ruas Chłodna e Żelazna, que o arquiteto polonês Jakub Szczęsny encaixou a Keret House, inaugurada em 20 de outubro de 2012 na presença do escritor israelense Etgar Keret, que deu nome à obra e foi seu primeiro morador.
Não há novidade por trás desta história: a casa completou 14 anos em 20 de outubro de 2026 e continua no mesmo lugar. O motivo de ela ainda aparecer em listas de curiosidades é o registro do Guinness World Records, que a classifica como a casa mais estreita do mundo, com 92 centímetros no ponto mais apertado e 152 centímetros no mais largo, distribuídos em dois andares e 14 metros quadrados de área total, segundo a ficha do recorde de casa mais estreita no site do Guinness.
Uma ideia que nasceu numa mesa de café
A origem é quase banal. De acordo com o perfil da obra publicado pelo portal Culture.pl, mantido pelo Instituto Adam Mickiewicz, Szczęsny teve a ideia cerca de três anos antes da inauguração, sentado no jardim de um café da rua Chłodna, olhando para a fresta entre os dois edifícios. O projeto foi apresentado pela primeira vez no Wola Art Festival de 2009 e saiu do papel pela Fundação de Arte Moderna Polonesa (Fundacja Polskiej Sztuki Nowoczesnej), com dinheiro da prefeitura de Varsóvia e parceria do Centro Nacional de Cultura.

O endereço não foi escolhido só pelo tamanho do buraco. O texto do Culture.pl sobre a Casa de Keret lembra que o ponto fica perto de onde existia, durante a Segunda Guerra, a passarela que ligava o Pequeno e o Grande Gueto de Varsóvia. A mãe de Etgar Keret nasceu na cidade em 1934, sobreviveu ao gueto e nunca voltou à Polônia; a família dela foi morta. O pai do escritor sobreviveu escondido. Na fala registrada pelo portal, Keret diz que sua família não tinha uma casa em Varsóvia havia cerca de 70 anos. A construção, portanto, tem algo de retorno simbólico para o escritor.
Como se vive em 92 centímetros
A estrutura é de aço, segundo o Guinness, e ocupa o vão entre as duas paredes vizinhas. O Guinness descreve o arranjo interno: o quarto fica no andar de cima, há cozinha e banheiro separados, e uma escada de mão substitui a escada comum. A mesa de jantar tem lugar para duas pessoas, a geladeira comporta apenas duas bebidas e as janelas não abrem.
O Culture.pl detalha a divisão por andar:
- no térreo, uma área de estar com pufe, uma escrivaninha, uma minicozinha e um vaso sanitário integrado ao chuveiro;
- no piso de cima, acessado pela escada de mão, uma cama e uma mesa de 90 centímetros.
É o tipo de projeto que parece piada até alguém subir a escada e deitar na cama.
Há um detalhe que confunde leitores e algumas reportagens: os números. A ficha do projeto publicada pelo ArchDaily em 2011, ainda na fase de anúncio, e o perfil do Culture.pl falam em 72 centímetros no ponto mais estreito e 122 no mais largo. O registro do Guinness, que é a referência do título de casa mais estreita, usa 92 e 152 centímetros. A diferença pode vir de medições internas e externas ou de mudanças entre o desenho e a obra pronta, mas nenhuma das fontes explica a divergência, e por isso este texto adota a medida oficial do recorde.
Oficialmente, uma obra de arte
A Keret House não cumpre as regras de construção de Varsóvia. Por isso, segundo o Guinness, ela é classificada oficialmente como instalação artística, e não como edifício residencial, mesmo tendo cama, cozinha e banheiro. O guia In Your Pocket acrescenta que não houve concessão de alvará de obra e que, em tese, a estrutura poderia ser retirada a qualquer momento.
Esse enquadramento casa com a função prevista desde o início. O plano divulgado pelo Culture.pl era que, depois de Keret, a casa funcionasse como um refúgio de trabalho criativo para artistas e pesquisadores, com um programa internacional de residências em que o próprio escritor presidia o júri de seleção. Para o período de 2013 a 2016, a fundação previa visitas de nomes conhecidos, temporadas mais longas para jovens artistas escolhidos em concurso, além de palestras e oficinas sobre a história de Varsóvia.
Sobre o uso atual, as informações são escassas. Guias de viagem como o Spotted by Locals e o In Your Pocket dizem que Keret fica na casa quando vai a Varsóvia e que, na ausência dele, o espaço serve de estúdio para artistas convidados. Os dois mencionam dias de casa aberta organizados pela fundação, com ingresso ou doação, mas o In Your Pocket observa que não tem notícia de visitas abertas há bastante tempo. Não foi possível confirmar uma agenda atual de visitação na página da fundação. Quem planeja ver a casa por dentro deve consultar a Fundação de Arte Moderna Polonesa antes da viagem; por fora, ela pode ser vista da rua.
Uma casa assim seria possível no Brasil?
No Brasil, o paralelo mais direto está na regra do terreno, e não da casa. A Lei federal 6.766, de 1979, que trata do parcelamento do solo urbano, estabelece no artigo 4º que os lotes terão área mínima de 125 metros quadrados e frente mínima de 5 metros, salvo em loteamentos de urbanização específica ou conjuntos habitacionais de interesse social aprovados previamente pelos órgãos públicos, conforme o texto da lei de parcelamento do solo no Planalto. Uma fresta de pouco mais de um metro entre dois prédios, portanto, nem chegaria a ser um lote regular para novos loteamentos.
As regras sobre a construção em si, como recuos, ventilação e tamanho mínimo de cômodos, ficam com os códigos de obras e planos diretores de cada município, que variam bastante de cidade para cidade. Na prática, uma estrutura como a de Varsóvia dependeria de aprovação da prefeitura local, e o caminho polonês, o de registrar a obra como instalação artística, não tem equivalente automático na legislação brasileira.
Quem gosta de projetos que tiram moradia de espaços improváveis pode conhecer a história do casal que transformou um contêiner de navio em casa com terraço. E, antes de qualquer reforma para ganhar centímetros em casa, vale ler o relato do morador que derrubou uma parede da garagem e encontrou uma coluna estrutural: mexer em estrutura exige projeto e profissional habilitado.
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