Única cidade brasileira fundada por um ministro europeu: a Áustria Brasileira impressiona com qualidade de vida e ainda fala dialeto tirolês
A única cidade brasileira fundada por um ministro europeu com dialeto tirolês
O aroma de apfelstrudel sai das confeitarias, gerânios colorem as varandas e o dialeto tirolês ainda aparece nas conversas dos mais velhos. Treze Tílias, no Meio-Oeste de Santa Catarina, é o único município brasileiro fundado por um ministro de Estado europeu, e preserva a cultura dos Alpes com uma fidelidade que faz o visitante checar o endereço duas vezes.
O ministro, o poema e os 85 tiroleses que cruzaram o Atlântico
Em 8 de setembro de 1933, Andreas Thaler, então ministro da Agricultura da Áustria, embarcou no navio Principessa Maria com 85 pessoas. A Europa vivia os efeitos da crise do pós-Primeira Guerra e ele buscava terras onde famílias tirolesas pudessem recomeçar. Durante a travessia de 35 dias, os imigrantes formaram uma banda de música a bordo do navio.
Em 13 de outubro de 1933, o grupo desembarcou no interior catarinense a 796 metros de altitude, com clima frio e relevo ondulado semelhante ao dos vales do Tirol. Essa data virou o aniversário da cidade, conforme registra a Prefeitura de Treze Tílias.
O nome veio de um achado fortuito: durante a escala no Rio de Janeiro, Thaler encontrou em uma livraria o poema épico de Friedrich Wilhelm Weber que exaltava a tília, árvore abundante nos Alpes. Batizou a nova colônia de Dreizehnlinden, que significa literalmente “treze tílias” em alemão. A espécie também se adaptou ao solo catarinense e hoje dá nome e sombra à praça central. Até 1938, mais de 780 imigrantes se juntaram aos pioneiros, trazendo fé católica, idioma e a arte de entalhar madeira, segundo o site oficial Treze Tílias.

Vale a pena morar em Treze Tílias?
Sim, e com uma qualidade de vida que poucos municípios do interior catarinense conseguem oferecer. O índice de desenvolvimento humano da cidade é de 0,795, um dos mais altos de Santa Catarina, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A taxa de alfabetização beira os 100% e o PIB per capita chega a R$ 101,9 mil, valor superior à média de Santa Catarina de R$ 58,4 mil.
A segurança é outro diferencial. Os índices de criminalidade são baixíssimos e os moradores mantêm o hábito de deixar portas abertas durante o dia, tradição herdada do estilo de vida alpino. A economia se apoia na Laticínios Tirol, fundada na cidade em 1974 e uma das maiores do estado, e no turismo, que responde por cerca de 30% das empresas ativas, segundo a Prefeitura.
O município também abriga o Consulado Honorário da Áustria para Santa Catarina, instalado oficialmente em 13 de outubro de 1988. A representação facilita a obtenção de dupla cidadania para descendentes, e jovens viajam para estudar e trabalhar no Tirol europeu, voltando com experiência e investindo na própria cidade. A cidade é ainda coirmã de Wildschönau, município do estado do Tirol, na Áustria.

Reconhecimento nacional e conexão com a Europa
A tradição artística rendeu à cidade o título oficial de Capital Catarinense dos Escultores e Esculturas em Madeira, reconhecido pelo Governo do Estado de Santa Catarina. A arte de entalhar veio nos porões do navio: Andrä Thaler, filho do fundador, dividia a lavoura com a escultura e formou uma linhagem de artistas que projetou Treze Tílias no cenário nacional.
A obra de maior repercussão saiu das mãos de Gotfredo Thaler: o Cristo da Igreja Dom Bosco, em Brasília, entalhado em cedro e considerado uma das maiores peças de arte sacra em madeira do país, conforme o site oficial Treze Tílias Escultura. Hoje, cerca de 20 artistas mantêm ateliês abertos à visitação no centro da cidade.
A conexão com a Áustria permanece viva também na diplomacia. O consulado honorário é o único de um país europeu instalado em uma cidade do interior do Brasil, e facilita desde a emissão de passaportes até intercâmbios culturais entre os dois países.
O que fazer e onde comer em Treze Tílias?
As atrações se concentram em poucos minutos do centro e combinam arquitetura alpina, natureza preservada e cultura tirolesa. Confira os principais pontos, segundo o portal SC Turismo:
- Museu Municipal Andreas Thaler (Castelinho): residência do fundador, erguida entre 1934 e 1936 pelo arquiteto Bruno Kracher com inspiração tirolesa. Guarda a mobília original trazida da Europa, incluindo a escrivaninha do ministro e o exemplar do poema que batizou a cidade.
- Igreja Matriz de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro: construída em 1935, tem interior inteiramente entalhado em madeira pelos artesãos locais. Uma das mais belas igrejas do Meio-Oeste catarinense.
- Ateliês de escultura em madeira: espalhados pelo centro, recebem visitantes e expõem obras que vão da arte sacra a móveis e brasões. O Ateliê Gotfredo Thaler é parada obrigatória.
- Parque Lindendorf: abriga a Minicidade, réplica em escala reduzida das construções locais com iluminação e arborização fiéis ao original. Opção de lazer familiar no centro da cidade.
- Parque Vale das Tílias: complexo aquático com 22 mil m² e piscinas cercadas de mata preservada.
- Cervejaria Bierbaum: fundada em 2004, produz conforme a Lei da Pureza Alemã de 1516, com rótulos premiados. Oferece tour pela fábrica e degustação no bar anexo.
- Tirolerfest: realizada todo ano próximo ao dia 13 de outubro, a festa celebra a fundação da cidade com nove dias de desfiles, bandas, corais, danças Schuhplattler e gastronomia típica. Atrai visitantes do Brasil e do exterior.
A gastronomia segue receitas alpinas transmitidas por gerações. Os pratos que não podem faltar, segundo o portal SC Turismo:
- Eisbein: joelho de porco assado lentamente com chucrute e batatas. O prato mais pedido nos restaurantes típicos, especialmente no inverno.
- Wiener Schnitzel: escalope de carne empanada, acompanhado de batatas e limão. Clássico dos Alpes que chegou junto com os colonos.
- Knödel: bolinho de pão de origem tirolesa, servido com sopas ou como acompanhamento de carnes.
- Goulash: carne ensopada com páprica e ervas, sabor marcante que remete diretamente à culinária austríaca.
- Apfelstrudel: torta de maçã enrolada, servida quente com nata ou sorvete. Sobremesa obrigatória nas confeitarias do centro.
Quem deseja conhecer a Europa sem sair do Brasil, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Praia ou Serra, que conta com mais de 364 mil visualizações, onde o canal mostra a arquitetura e cultura de Treze Tílias, em Santa Catarina:
Quando é a melhor época para visitar Treze Tílias?
O clima subtropical de altitude garante estações bem definidas, com invernos frios que chegam a mínimas próximas de 0°C e verões amenos para os padrões catarinenses. Cada período tem seu encanto:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar. Geadas podem ocorrer entre junho e agosto.
Como chegar a Treze Tílias
A cidade fica a cerca de 425 km de Florianópolis e a aproximadamente 35 km de Joaçaba pela SC-355, polo regional mais próximo. O aeroporto comercial mais próximo com voos regulares é o de Chapecó, a cerca de 175 km. Joaçaba também opera voos regionais em menor escala. O acesso é feito exclusivamente por rodovias estaduais que cruzam o interior catarinense, com paisagem de serra que já antecipa o charme do destino.
Um vilarejo que não esqueceu de onde veio
Treze Tílias não imita a Áustria. Ela a preserva, geração após geração, com dialeto, escultura, arquitetura de telhados inclinados e festas que começaram dentro de um navio em pleno Atlântico. Em menos de dez mil habitantes, a cidade guarda um pedaço de Europa que nenhuma passagem aérea precisa comprar.
Você precisa subir a serra catarinense e entender por que 85 pessoas que desceram de um navio em 1933 conseguiram manter a Áustria viva no interior do Brasil.
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