Uma idade da escala geológica leva o nome desta cidade a 60 km do Rio, onde foi encontrado o tatu mais antigo do mundo
O solo da região guarda pistas de uma época muito anterior à presença humana
Poucas cidades do mundo emprestam o nome a um trecho da história da Terra. Em Itaboraí, na região metropolitana do Rio de Janeiro, uma antiga mina de calcário guardava fósseis tão antigos e tão bem preservados que os pesquisadores batizaram com o nome do município uma das subdivisões da escala geológica de tempo.
Como uma mina de cimento virou sítio paleontológico?
A resposta começa em 1928, quando o que parecia caulim na Fazenda São José se revelou calcário de boa qualidade. A extração durou pouco mais de 50 anos e alimentou a indústria de cimento do estado. O material retirado dali foi usado em obras como o estádio do Maracanã e a ponte Rio-Niterói.
Quando o calcário acabou, em 1984, restou uma cava de 70 metros de profundidade, preenchida aos poucos pela chuva e por veios subterrâneos até virar um lago. Segundo a Prefeitura de Itaboraí, a área foi declarada de utilidade pública em 1990 e, cinco anos depois, transformada no Parque Paleontológico de São José, reconhecido pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP).

Por que existe um andar geológico chamado Itaboraiense?
Porque os fósseis encontrados ali não têm equivalente em nenhum outro ponto das Américas, exceto na Patagônia. Conforme a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), o conjunto do Paleoceno recolhido na bacia levou à definição do andar Itaboraiense, reconhecido na coluna internacional de tempo geológico.
O motivo é o momento que esses ossos registram. Depois da extinção dos dinossauros, os mamíferos ocuparam espaços que antes não eram deles, e a bacia preservou justamente os primeiros capítulos dessa expansão na América do Sul. Por isso o lugar é chamado de berço dos mamíferos entre paleontólogos.
O que já saiu do chão de São José
A lista reunida no parque atravessa dezenas de milhões de anos e inclui espécies que só existem no registro fóssil. Estes são os achados mais citados pela administração municipal:
- Tatu mais antigo do mundo: exemplar do Paleoceno, datado em cerca de 55 milhões de anos.
- Ancestral das emas: da mesma camada, ajuda a explicar a origem das aves corredoras sul-americanas.
- Carodnia vierai: xenungulado de grande porte cujos ossos foram encaminhados ao laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
- Astrapotérios: duas mandíbulas de mamíferos herbívoros que habitavam a mesma bacia.
- Preguiça gigante e mastodonte: bem mais recentes, do Pleistoceno, com cerca de 20 mil anos.
- Artefatos pré-históricos: lascas e ferramentas que indicam presença humana antiga na área.
Quem busca turismo histórico no Rio de Janeiro, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Prontos Para O Perrengue 💪, que conta com mais de 700 visualizações, onde o apresentador mostra o Parque Paleontológico de São José de Itaboraí:
Como visitar o parque paleontológico de Itaboraí
A visita é feita apenas com acompanhamento. O parque trabalha com agendamento prévio de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e as escavações seguem em andamento, o que exige cuidado com as formações rochosas que ainda podem conter fósseis.
O passeio combina ciência e paisagem: o lago que ocupou a antiga cava tem tom esverdeado por causa do calcário dissolvido, cercado por paredões onde as camadas de sedimento ficam visíveis a olho nu. É uma aula de geologia ao ar livre a menos de uma hora do centro do Rio.
Como é o clima de Itaboraí ao longo do ano?
O clima é tropical úmido, típico do fundo da Baía de Guanabara, com verão quente e chuvoso e inverno mais seco. Setembro registra média próxima de 84 mm de chuva, volume que sobe bastante nos meses de verão, segundo o Climatempo. Veja o comportamento de cada período:
As condições variam de um ano para outro sob influência de fenômenos como El Niño e La Niña. Para a previsão atualizada, consulte o Climatempo.
A cidade que entrou no calendário da Terra
Itaboraí guarda algo que nenhuma outra cidade brasileira tem: seu nome virou unidade de tempo geológico, usada por pesquisadores de vários países para situar a fauna que ocupou o continente depois dos dinossauros.
Vale agendar uma visita ao parque e descer até a beira do lago, onde cada camada de rocha corresponde a alguns milhões de anos de história.
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