Uma cidade de 16 mil operários desapareceu sob o lago da capital brasileira em 1959 e mergulhadores ainda encontram carros e ônibus no fundo
O fundo do lago guarda vestígios de uma cidade criada durante uma grande obra
Toda cidade planejada guarda um custo que não aparece na maquete. Em Brasília, esse custo está a metros de profundidade: a Vila Amaury, um povoado de cerca de 16 mil operários, foi engolida pelas águas quando a barragem do Rio Paranoá fechou as comportas. Sessenta e sete anos depois, quem mergulha ali ainda esbarra em restos de casas e veículos.
O que era a Vila Amaury antes de as águas chegarem?
Era uma cidade improvisada que os próprios trabalhadores ergueram porque os alojamentos oficiais não davam conta. Os candangos, nome dado aos migrantes que vieram do Norte e do Nordeste levantar a nova capital, só conseguiam vaga nas acomodações da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) se fossem solteiros. Quem chegava com família precisava se virar.
A vila nasceu no fim de 1957 e durou menos de três anos. Nesse intervalo, ganhou bares, comércio, escola e até um parque de diversões. O nome veio de Amaury Almeida, engenheiro da Novacap que organizava a chegada dos migrantes e conduzia o movimento pró-moradia no canteiro de obras.

Por que o lago precisava existir para Brasília nascer?
Porque a exigência estava no edital antes de qualquer arquiteto desenhar uma linha. Segundo o Arquivo Público do Distrito Federal, o documento publicado no Diário Oficial em 30 de setembro de 1956 determinava que os concorrentes previssem um lago cujo nível ficasse na chamada cota mil, mil metros acima do nível do mar.
A ideia não era de Lucio Costa nem de Oscar Niemeyer. Ela veio de 1894, quando o botânico francês Auguste François Marie Glaziou percorreu o Planalto Central pela Missão Cruls e percebeu que bastava fechar a garganta entre dois chapadões para a água voltar ao lugar de origem. A solução técnica que ele apontou no fim do século XIX foi a mesma adotada mais de sessenta anos depois.
Como as famílias foram retiradas quando as comportas fecharam?
Muitas saíram com a água já dentro de casa. Conforme a Agência Brasília, a barragem foi fechada em 12 de setembro de 1959, aniversário de Juscelino Kubitschek, e o nível subia cerca de dois centímetros por dia. Parte dos moradores não acreditava que o lago encheria e resistiu à remoção até o último momento.
O governo oferecia lote com escritura em Sobradinho, Taguatinga ou Gama para quem aceitasse sair. A saída às pressas explica o que ficou no fundo: documentos, brinquedos, sapatos, garrafas. As pessoas escolheram salvar a si mesmas.
Quem tem curiosidade sobre a história escondida de Brasília, vai curtir este vídeo do canal
DIVE WATER BSB CENTRO DE MERGULHO, que mostra a cidade submersa de Vila Amaury:
O que os mergulhadores encontram no fundo do Paranoá hoje?
Restos de casas, fazendas, estátuas, carros e ônibus. De acordo com a Agência Brasil, parte desses vestígios está a 15 metros abaixo da superfície, mas há áreas do lago com 40 metros de profundidade que exigem vários mergulhos para serem registradas.
O primeiro a documentar sistematicamente esse cenário foi o repórter fotográfico Beto Barata, que fez curso de mergulho para produzir o livro Brasília Submersa, de 2010. Depois vieram projetos de mapeamento georreferenciado, com mergulhadores registrando em vídeo o que aparece em cada ponto. A visibilidade baixa transforma o que seria um passeio recreativo em mergulho técnico.

Quem apostou que o lago nunca encheria?
O argumento dos opositores era geológico: o solo poroso do Planalto Central absorveria a água e deixaria uma cratera vazia. O escritor Gustavo Corção publicou a tese em artigo no Jornal do Brasil em julho de 1959, e o presidente do Clube de Engenharia repetia a mesma previsão.
Oito meses depois do fechamento da barragem, a água atingiu a cota mil. Corção recebeu de JK um telegrama com duas palavras: “Encheu, viu!”. A frase virou parte do folclore da construção, mas resume uma disputa real sobre a viabilidade técnica da capital.
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O que a água esconde debaixo do cartão-postal
Brasília carrega o título de maior área tombada do mundo, com 112,25 km² protegidos desde que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) a reconheceu, em 1987, como o primeiro conjunto urbano do século XX na lista do Patrimônio Mundial. A cidade entrou nesse rol com apenas 27 anos de idade, ao lado das pirâmides e da Muralha da China.
O que a lista não registra é que a moldura líquida tão celebrada nas fotos cobre o endereço de quem ergueu tudo isso. Sob as lanchas e os pores de sol do Paranoá, existe um sítio arqueológico com menos de setenta anos, feito de alicerces, postes e objetos domésticos deixados na pressa. A capital do futuro precisou afundar o presente de milhares de pessoas para caber no próprio projeto.
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