Um anel de 518 metros no interior de São Paulo abriga a maior infraestrutura científica já construída no Brasil e coloca o país no clube dos síncrotrons de quarta geração
A instalação ampliou a capacidade brasileira de estudar materiais em escala microscópica
Grandes obras científicas costumam ser associadas à Europa ou aos Estados Unidos, e poucos brasileiros imaginam que uma delas foi erguida em terreno paulista, a menos de 100 km da capital. Em Campinas, um prédio circular do tamanho de um estádio guarda o Sirius, acelerador de partículas capaz de produzir uma luz tão intensa que permite enxergar o arranjo dos átomos dentro de um material. O equipamento transformou a cidade em endereço obrigatório da pesquisa de ponta na América Latina.
O que exatamente esse acelerador faz com a luz?
O Sirius é uma fonte de luz síncrotron, expressão que descreve a radiação emitida por elétrons acelerados quase à velocidade da luz e forçados a mudar de trajetória por campos magnéticos. Conforme o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), o equipamento é a maior e mais complexa infraestrutura científica já construída no país e funciona como uma instalação aberta, disponível para pesquisadores brasileiros e estrangeiros.
Na prática, funciona como um microscópio gigantesco. A luz gerada cobre do infravermelho aos raios X e é conduzida até estações experimentais chamadas linhas de luz, onde amostras de rocha, tecido humano, solo, bateria ou vírus revelam sua estrutura em escala atômica. O anel principal tem 518,4 metros de circunferência e opera com elétrons de 3 GeV, patamar que coloca o Brasil no grupo restrito de países com síncrotron de quarta geração.

Quanto custou e quem construiu a máquina brasileira
O projeto foi bancado com dinheiro público federal e executado por equipes nacionais. Segundo a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), cerca de 85% dos recursos foram investidos dentro do país, com contratos firmados com mais de 300 empresas brasileiras, das quais 45 participaram diretamente do desenvolvimento tecnológico ao lado do LNLS.
A operação segue em expansão. De acordo com a Agência Gov, quatro novas linhas de luz foram inauguradas no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), ampliando a capacidade de pesquisa em saúde, energia, agricultura, clima, nanotecnologia e novos materiais. Em escala de investimento, é uma obra comparável a grandes projetos de infraestrutura do estado, como o primeiro túnel imerso da América Latina, entre Santos e Guarujá.
Quem quer entender a ciência e a tecnologia por trás do acelerador de partículas Sirius, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Manual do Mundo, que conta com mais de 1,6 milhão de visualizações, onde Ibere Thenorio mostra os detalhes da estrutura e o funcionamento do acelerador em Campinas – São Paulo:
Por que a máquina precisou de um prédio que não treme
Precisão dessa ordem esbarra em um problema banal: vibração. Um caminhão passando na estrada ou o vento batendo na estrutura já bastaria para desalinhar o feixe de elétrons, e por isso o piso onde ficam os equipamentos foi construído isolado do restante da edificação, apoiado em uma base própria que não transmite as trepidações do entorno.
O mesmo raciocínio vale para a temperatura, mantida sob controle rígido porque a dilatação de poucos milímetros em componentes metálicos comprometeria a trajetória do feixe. O prédio ocupa dezenas de milhares de metros quadrados no campus do CNPEM, e o consumo de energia da instalação é comparável ao de uma cidade de porte médio, custo inevitável para manter elétrons circulando de forma estável dia e noite.

A luz mais brilhante do país foi acesa no interior paulista
O que impressiona no caso não é apenas o tamanho do anel, e sim o fato de uma máquina desse grau de sofisticação ter sido projetada e majoritariamente fabricada em território nacional, num campus cercado por universidades e empresas de tecnologia.
Cada experimento realizado ali parte de um princípio simples e antigo, o de que enxergar melhor é o primeiro passo para entender, e é isso que uma cidade do interior paulista passou a oferecer à ciência brasileira.
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