Sem carro, sem asfalto e 95% intocada: a ilha paranaense que só admite 5 mil visitantes por dia
A ilha paranaense onde 95% do território é proibido de construir, carros não entram e as praias selvagens parecem intocadas pela civilização
Na entrada da Baía de Paranaguá, a 4 km do continente, existe uma ilha onde não há ruas, não circula nenhum veículo motorizado e a quase totalidade do território é área de preservação permanente. A Ilha do Mel concentra, em 2.700 hectares de Mata Atlântica e restinga, uma fortaleza do século XVIII, um farol de ferro escocês, uma gruta envolta em lendas e praias que figuram entre as mais selvagens do Paraná.
O que torna a Ilha do Mel tão diferente de qualquer outra praia?
A resposta está nos números. Dos 2.700 hectares totais da ilha, apenas cerca de 200 têm permissão de uso humano. Os outros 95% formam duas unidades de conservação administradas pelo Instituto Água e Terra (IAT) do governo do Paraná: o Parque Estadual da Ilha do Mel e a Estação Ecológica da Ilha do Mel. Veículos automotores e de tração animal são proibidos desde sempre. Não há ruas asfaltadas, só trilhas. Não há iluminação pública nas trilhas, então a lanterna é item obrigatório à noite.
O acesso diário é limitado a 5 mil visitantes, controle feito manualmente nos trapiches de entrada. Uma nova legislação aprovada pela Assembleia Legislativa do Paraná em 2025 prepara a ampliação futura desse limite e a criação de uma taxa ambiental de ingresso, modelo semelhante ao adotado em Fernando de Noronha e Jericoacoara, conforme o Governo do Estado do Paraná.

Uma fortaleza de 1769 e um farol escocês guardam a baía
A história da ilha começa bem antes do turismo. Por ordem do Rei Dom José I de Portugal, entre 1767 e 1769 foi erguida a Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, concluída em 23 de abril de 1769. Com paredes de um metro e meio de espessura, é o único monumento militar do período colonial ainda existente no Paraná, tombado pelo IPHAN desde 1938 e restaurado em 2024, conforme o Patrimônio Cultural do Paraná. Do alto do Morro da Baleia, canhões dos séculos XVIII e XIX ainda apontam para a entrada da baía.
Cem anos depois, em 1872, o Imperador Dom Pedro II mandou construir o Farol das Conchas no alto do Morro das Conchas. Toda a estrutura de ferro foi importada da Escócia, país que então liderava a tecnologia de faróis no mundo. São 150 degraus até o topo, de onde se avista quase toda a ilha e o encontro da baía com o oceano. O farol segue em operação até hoje, mais de 150 anos depois.

O que fazer durante dois dias na Ilha do Mel?
A ilha tem dois núcleos principais: Nova Brasília, ao norte, com acesso aos atrativos históricos, e Encantadas, ao sul, com mais agitação e vida noturna. A trilha que liga os dois pontos percorre toda a ilha, leva cerca de 1h30 e passa por trechos de mata fechada e praias desertas. Os principais roteiros são:
- Farol das Conchas: trilha de fácil acesso saindo de Nova Brasília, com 150 degraus de escadaria até o topo do morro. Vista panorâmica da baía e do oceano. Funciona como farol ativo desde 1872.
- Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres: trilha de cerca de 4 km a partir de Nova Brasília. Canhões preservados, mirante com vista para as ilhas das Peças e Superagüi e um labirinto de pedras no alto do morro.
- Gruta das Encantadas: formação rochosa na parte sul da ilha, com passarela de acesso. Envolta em lendas caiçaras de sereias que atraíam marinheiros. Entrada pela vila de Encantadas.
- Baía dos Golfinhos: passeio de barco saindo de Encantadas até a área frequentada por botos-cinza. Os golfinhos usam a baía para procriação e alimentação.
- Praia de Fora: praia voltada para o oceano aberto, com ondas fortes e boa para surfe. Acessível a partir de Encantadas.
- Praia do Farol: longa faixa de areia branca em frente ao farol, com águas mais calmas do lado da baía e ondas do lado do oceano. Cartão-postal da ilha.
- Trilha completa Encantadas–Nova Brasília: 1h30 de caminhada pela extensão da ilha, passando por praias desertas e mata nativa. Fazer de manhã cedo para evitar calor e aproveitar a luz.
Quem busca renovar as energias no litoral do Paraná, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Toca Cultural, que conta com mais de 58 mil visualizações, onde os apresentadores mostram um roteiro completo de 4 dias explorando as trilhas, a Gruta das Encantadas e o Farol das Conchas na Ilha do Mel:
Qual é o reconhecimento que a Ilha do Mel acumula?
A preservação da ilha atrai visitantes de várias partes do mundo. Em novembro de 2025, o cruzeiro de luxo Scenic Eclipse, que habitualmente navega nas águas da Antártida, fez parada na Praia de Encantadas com cerca de 250 passageiros internacionais, entre norte-americanos, canadenses, alemães, australianos e holandeses, marcando a abertura da temporada de cruzeiros 2025/2026, conforme a Prefeitura de Paranaguá. A Secretaria de Turismo do Paraná mantém a ilha como um dos principais destinos do estado, destacada na página oficial do turismo paranaense.
Quando o clima favorece cada tipo de experiência?
A Ilha do Mel tem clima subtropical úmido, sem estação seca definida. As chuvas são frequentes o ano todo, mas os períodos mais secos oferecem condições bem diferentes do verão chuvoso. Confira o que cada época oferece:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Leve sempre lanterna e repelente, independentemente da época. No inverno, leve agasalho para as noites.
Como chegar à ilha onde não existem estradas?
O acesso é exclusivamente por barco, sem exceção. A travessia mais rápida parte de Pontal do Sul, em Pontal do Paraná, com duração de 20 a 30 minutos, com desembarque nos trapiches de Nova Brasília ou Encantadas. A outra opção é embarcar em Paranaguá, com travessia de cerca de 1 hora. De Curitiba até os pontos de embarque são aproximadamente 95 km até Paranaguá e 112 km até Pontal do Sul pela BR-277, com tempo de carro de cerca de 1h30. Dentro da ilha, o único meio de transporte é a pé ou de bicicleta alugada no local.
A ilha que resiste ao tempo pelo que recusa ter
A Ilha do Mel é um dos poucos lugares no Brasil que preserva o que perdeu valor em quase todo o litoral: o silêncio, a escuridão à noite e a areia sem pegadas de madrugada. Não há asfalto, não há carro, não há resort. O que há é uma fortaleza de 1769, um farol que ainda guia navios e trilhas que chegam onde a Mata Atlântica toca o mar.
Quem precisar de sinal de celular ou ar-condicionado vai se sentir desconfortável. Quem quiser entender o que o litoral paranaense era antes de tudo isso, vai se sentir em casa.
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