Rochas de um mar alimentado por geleiras: a cidade paranaense onde o primeiro parque estadual do Paraná acaba de virar patrimônio cultural
As rochas ajudam a contar uma história geológica de milhões de anos
É difícil imaginar gelo no planalto paranaense, mas as pedras contam essa história. Em Ponta Grossa, no Paraná, as torres avermelhadas do Parque Estadual de Vila Velha nasceram de areias depositadas quando geleiras cobriam parte do antigo supercontinente, e hoje formam uma das paisagens mais estudadas do país.
Como se formaram os arenitos de Vila Velha?
Por camadas de areia acumuladas em mares rasos durante o Carbonífero Superior, período encerrado há cerca de 300 milhões de anos. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), o Arenito Vila Velha pertence ao Grupo Itararé, conjunto de rochas ligado ao degelo das geleiras que cobriam a borda sul do Gondwana, supercontinente que reunia a América do Sul, a África e outras massas de terra.
A cor vem do ferro. Um cimento ferruginoso, espécie de cola natural rica em óxidos, une os grãos e deixa a rocha avermelhada. Depois, chuva e vento exploraram fraturas e camadas mais frágeis e esculpiram formas de até 30 metros de altura, como a Taça, a Bota e a Garrafa. O SGB classifica o conjunto como geossítio de relevância internacional.

Alguns números ajudam a medir a importância do parque:
Por que Vila Velha virou patrimônio do Paraná em 2026?
Por causa do seu valor ambiental, geológico, paisagístico, turístico e científico. Em abril de 2026, o governador sancionou a lei que reconhece o parque como Patrimônio Histórico e Cultural do Paraná, segundo o Governo do Paraná. A área foi a primeira unidade de conservação criada pelo estado e também a primeira a ter a gestão concedida à iniciativa privada, desde 2019.
A procura acompanha o prestígio. Em 2025, mais de 68 mil pessoas visitaram Vila Velha, cerca de 10% de todo o público das unidades de conservação estaduais monitoradas pelo Instituto Água e Terra (IAT). Em outubro de 2026, o parque completou 73 anos.
O que é o Buraco do Padre?
É uma furna, cavidade de paredes verticais aberta no arenito, onde uma cachoeira de cerca de 30 metros despenca dentro de um anfiteatro de pedra. O local fica nos limites do Parque Nacional dos Campos Gerais, criado em 2006 nos municípios de Ponta Grossa, Castro e Carambeí.
Um estudo publicado na Revista Brasileira de Espeleologia, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), aponta o Buraco do Padre como uma das sete áreas de visitação consolidadas do parque nacional. O trabalho também registra que a área do Buraco do Padre é privada, já que a regularização fundiária do parque não havia sido feita. Hoje a visita é paga e segue por trilha com passarelas até a base da furna.

O que fazer em Ponta Grossa além de Vila Velha?
A cidade é a principal base para conhecer os Campos Gerais, região de campos nativos, furnas e cânions no Segundo Planalto Paranaense. Em poucos quilômetros, o roteiro combina geologia, cachoeiras e trilhas de dificuldade variada.
Furnas, cachoeiras e campos nativos
Entre arenitos, furnas e quedas d’água, alguns lugares concentram a melhor experiência na Princesa dos Campos:
- Arenitos de Vila Velha: trilha entre as esculturas de pedra, com a Taça como cartão-postal do parque.
- Furnas de Vila Velha: grandes cavidades circulares no arenito, visitadas a partir de mirantes dentro do parque.
- Lagoa Dourada: lagoa de águas claras ligada ao mesmo sistema das furnas, também dentro do parque estadual.
- Buraco do Padre: cachoeira dentro de uma furna, com acesso por trilha estruturada no Parque Nacional dos Campos Gerais.
- Cachoeira da Mariquinha: queda cercada por paredões de arenito e mata nativa, procurada para banho e trilha.
Quem quer desbravar o interior do Paraná, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, que conta com mais de 190 mil visualizações, onde Matheus Boa Sorte mostra os encantos e atrativos de Ponta Grossa:
Como é o clima em Ponta Grossa ao longo do ano?
Ponta Grossa tem verões amenos, com máximas médias de 26°C, e invernos frescos, quando as mínimas descem a 10°C em julho. A chuva aparece o ano todo, com os maiores volumes entre setembro e fevereiro.
Ponta Grossa em cada estação
Cada período do ano traz temperaturas e volumes de chuva bem diferentes:
Faixas baseadas nas médias climatológicas de 30 anos do Climatempo. As condições podem variar entre os anos por fenômenos como El Niño e La Niña; para a previsão atual, consulte o Climatempo.
Um planalto que guarda a memória do gelo
Ponta Grossa revela um Paraná que pouca gente imagina, onde o chão conserva vestígios de um tempo de geleiras e mares rasos. Entre arenitos esculpidos, furnas profundas e cachoeiras escondidas na rocha, a cidade transformou a geologia em paisagem e em patrimônio.
Você precisa caminhar entre as torres de Vila Velha, descer até o Buraco do Padre e ver de perto o que milhões de anos de chuva e vento fizeram com a pedra.
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