Registros apontam que dois irmãos da cidade chegaram primeiro ao topo de uma pedra de quase 2 mil metros em 1940, hoje símbolo de uma pequena cidade da Mantiqueira
A formação rochosa se tornou um dos principais símbolos turísticos da região
Vista da estrada que sobe a serra, a pedra parece um baú gigante pousado sobre a mata, com paredões de rocha nua que mudam de tom conforme a luz do dia. Em São Bento do Sapucaí, esse bloco de rocha foi encarado primeiro por gente da própria cidade, muito antes de existirem degraus de ferro presos à rocha.
Quem foram os primeiros a chegar ao topo da Pedra do Baú?
Os pioneiros foram dois moradores. Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo (Semil), registros indicam que os irmãos sambentistas Antônio e João Cortez foram os primeiros a escalar a Pedra do Baú até o topo, em 1940. Depois disso, a subida ganhou escadas de grampos fixadas na rocha, que facilitaram o acesso sem dispensar equipamentos de segurança.
A aventura não parou no cume. Na década de 1950, os irmãos ergueram lá em cima um dos primeiros abrigos de montanha do Brasil, com ajuda do empresário Luiz Dummont Villares e de moradores, e ainda hoje há vestígios dele no alto. A pedra, com ponto culminante de cerca de 1.900 metros, é tão marcante que pode ser vista de várias localidades do Vale do Paraíba e chegou a servir de referência para orientação. Tropeiros da região também a chamavam de Canastra, nome de um tipo de baú grande.

Três números resumem o conjunto que os irmãos ajudaram a tornar famoso:
Os mesmos sobrenomes estão no carnaval da cidade
O sobrenome Cortez não ficou marcado só na montanha. De acordo com a história oficial da Prefeitura de São Bento do Sapucaí, a introdução do Zé Pereira e da Maria Pereira, bonecos gigantes que há mais de um século desfilam no carnaval, deve-se à família Cortêz, principalmente a João e Antônio. Até hoje, os bonecos sambam pelas ruas e divertem crianças e visitantes na época da folia.
A cidade fica nos contrafortes da Serra da Mantiqueira, no Alto Sapucaí, e tem na agricultura e na pecuária a base de sua economia. O ambiente de montanha também inspirou música: foi em São Bento do Sapucaí que Lamartine Babo compôs No Rancho Fundo, durante uma temporada na cidade.

O que visitar em São Bento do Sapucaí?
A pedra domina a paisagem, mas há formas bem diferentes de aproveitá-la. Algumas trilhas são curtas e autoguiadas; outras exigem preparo físico, experiência e acompanhamento profissional.
Fora do complexo rochoso, o município reúne cachoeiras e mirantes em áreas rurais. Antes de sair, vale conferir quais caminhos estão abertos e se é preciso agendamento.
Da trilha curta à escada de ferro
Do mirante tranquilo ao trecho mais exigente, estes são os principais pontos para conhecer a montanha:
- Bauzinho: trilha autoguiada de até 500 metros e cerca de 30 minutos, com vista da cidade e de parte da Pedra do Baú; funciona das 9h às 15h. Ver trilha.
- Ana Chata: caminho mais longo, descrito pelo governo paulista com cerca de 3,8 km e duas horas, com escadas e guarda-corpos nos trechos mais íngremes.
- Pedra do Baú: a trilha da face norte tem cerca de 5 km e quatro horas, com a subida final pela escada de ferro; é indicada para trilheiros experientes, com instrutor e equipamento.
- Cachoeiras rurais: o município cita quedas como a do Toldi, a dos Amores e a dos Serranos entre os locais mais procurados.
- Centro da cidade: ruas de comércio e o cenário do carnaval de rua, onde desfilam os bonecos gigantes.
Para observar as paisagens e a vida cotidiana de São Bento do Sapucaí depois de conhecer essa história, o vídeo do canal Vamos Fugir Blog oferece imagens do destino:
Como funciona a visita à Pedra do Baú hoje?
O conjunto forma o Monumento Natural Estadual da Pedra do Baú, administrado em parceria entre a Fundação Florestal e a prefeitura. A chegada é por estrada asfaltada entre Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí, seguida de cerca de 6 km de estrada de terra até o estacionamento, de onde as trilhas partem a pé.
A rotina lá em cima é bem diferente da de 1940. No lugar de dois irmãos abrindo caminho, há placas, centro de visitantes, horários definidos e regras para cada trajeto. A subida até o topo continua sendo uma conquista, mas agora pede planejamento, e quem prefere apenas contemplar encontra no Bauzinho uma vista ampla sem precisar encarar a escada de ferro.
Como é o clima de São Bento do Sapucaí ao longo do ano?
São Bento do Sapucaí tem verões chuvosos e invernos secos e frios, típicos da serra. Janeiro é o mês mais chuvoso, enquanto de junho a agosto a chuva cai para menos de 50 mm por mês e as mínimas médias ficam em torno de 10°C.
São Bento do Sapucaí em cada estação
Cada período do ano traz temperaturas e volumes de chuva bem diferentes:
Faixas baseadas nas médias climatológicas de 30 anos do Climatempo. As condições podem variar entre os anos por fenômenos como El Niño e La Niña; para a previsão atual, consulte a previsão do Climatempo.
A pedra que tem sobrenome
Em São Bento do Sapucaí, a montanha mais famosa da região carrega uma história de vizinhos, e não de expedições vindas de longe. A mesma família que aparece nos registros da primeira subida também está ligada aos bonecos gigantes que dançam nas ruas, como se a cidade cuidasse de seus próprios marcos.
Do Bauzinho, no fim da tarde, quem olha para o paredão vê a rocha escurecer contra o céu e consegue imaginar dois irmãos de São Bento procurando, lá em 1940, um caminho até o topo.
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