Pegadas fósseis de 130 milhões de anos aparecem nas calçadas da 3ª cidade de médio porte com melhor qualidade de vida do Brasil
Marcas deixadas há milhões de anos aparecem em lugares comuns do cotidiano
Calçada costuma ser a parte mais ignorada de uma cidade. No centro de Araraquara, no interior de São Paulo, ela guarda marcas de um tempo em que a região era um deserto de dunas, e a mesma cidade que pisa sobre o Cretáceo aparece hoje entre as melhores do país nos indicadores de qualidade de vida.
Por que existem pegadas fósseis nas calçadas do centro?
Porque a pedra usada no calçamento é mais antiga que a cidade. As lajes vêm do Arenito Botucatu, extraído desde o século XIX nas pedreiras da região do Ouro, dentro do próprio município, e trazem vestígios de pegadas de cerca de 130 milhões de anos, do período Cretáceo, segundo a Prefeitura de Araraquara.
Os rastros foram identificados a partir do trabalho do paleontólogo Giuseppe Leonardi e revelam um cenário difícil de imaginar hoje: o clima da região era desértico e quente, com dunas parecidas com as do Saara. O arenito virou guia, sarjeta e passeio público, e a paleontologia acabou incorporada ao chão do centro histórico sem que ninguém planejasse isso.

O que sustenta a posição entre as melhores cidades para viver?
Indicadores sociais medidos município por município. No Índice de Progresso Social (IPS) Brasil, que avalia 57 indicadores sociais e ambientais a partir de bases como DataSUS, Inep e MapBiomas, a cidade aparece como a 3ª melhor do país entre os municípios de 100 mil a 500 mil habitantes e figura entre as 20 primeiras no ranking geral, à frente de Ribeirão Preto e de Brasília.
A região concentra bons resultados de forma incomum. A vizinha Gavião Peixoto, a cerca de 40 km, lidera o ranking nacional absoluto pelo terceiro ano seguido, conforme o Imazon, instituto responsável pelo levantamento. Ter duas cidades desse porte no topo da mesma microrregião é raro no Brasil.

A ferrovia que desenhou a Morada do Sol
Os trilhos chegaram em 1885, quando a Companhia Paulista de Estradas de Ferro alcançou o município, e no ano seguinte foi pela estação que Dom Pedro II desembarcou em sua visita à cidade. Depois veio a Estrada de Ferro Araraquara (EFA), que puxou comércio, indústria e até o time local, nascido entre funcionários da companhia.
O apelido Morada do Sol veio de um concurso no início do século XX e combina com o nome de origem tupi. A economia atual mistura sucroenergia, alimentos e metalurgia, sustentada por uma rede de ensino que inclui a Universidade Estadual Paulista (Unesp), com campus criado em 1959, além da Universidade de Araraquara (Uniara) e unidades de Fatec e Etec.
O que visitar na cidade além do túnel verde?
Classificada como Município de Interesse Turístico (MIT) pelo Governo do Estado de São Paulo desde 2017, a cidade concentra quase tudo a pé no centro. Confira abaixo os principais pontos:
- Bulevar dos Oitis: trecho da Rua Voluntários da Pátria com cerca de 300 oitis centenários formando um túnel verde sobre paralelepípedos de granito preservados.
- Museu Ferroviário Francisco Aureliano de Araújo: instalado na antiga estação, reúne documentos, ferramentas e maquetes da EFA.
- Casa da Cultura Luís Antônio Martinez Corrêa: abriga a Pinacoteca e o Arquivo Histórico Municipal, em conjunto arquitetônico tombado em 1998.
- Biblioteca Pública Municipal Mário de Andrade: aberta em 1943, recebeu 600 exemplares doados pelo próprio escritor, que incentivou sua criação.
- Santuário de Schoenstatt: no Jardim Botânico, atrai romeiros de cidades vizinhas como Ibaté e São Carlos.
- Bueno de Andrada: distrito rural que virou destino gastronômico por causa de suas coxinhas, depois de uma crônica do escritor araraquarense Ignácio de Loyola Brandão.
Quem quer entender como é viver em Araraquara vai curtir este vídeo do canal MAIS 50, que mostra a cidade e fala sobre qualidade de vida no interior de São Paulo.
Como é o clima de Araraquara ao longo do ano?
A cidade está a cerca de 664 metros de altitude e tem verão chuvoso e inverno bastante seco, com meses de julho e agosto abaixo de 40 mm de chuva. Veja abaixo como o ano se comporta na Morada do Sol:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições variam de um ano para outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada antes da viagem.
Como chegar ao centro do interior paulista?
O acesso principal é pela Rodovia Washington Luís (SP-310), com cerca de 270 km desde a capital paulista e viagem média de três horas e meia. De Ribeirão Preto são cerca de 90 km pela SP-255, e o aeroporto da vizinha recebe voos domésticos diários.
A mesma faixa do interior paulista reúne outros municípios com forte desempenho em rankings nacionais, como a cidade paulista que nasceu de uma estação e de famílias vindas dos Estados Unidos.
Conheça a cidade onde o chão tem 130 milhões de anos
Poucos lugares no Brasil oferecem paleontologia na calçada, sombra de árvore centenária no centro e um dos melhores índices sociais entre as cidades médias do país. A combinação explica por que tanta gente tem trocado as capitais por esse pedaço do interior paulista.
Você precisa caminhar sob os oitis da Rua 5, olhar para baixo e perceber que está pisando num deserto que existiu muito antes de qualquer cidade.
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