O maior hub de café do Brasil é lembrado por uma criatura de olhos vermelhos que o Wall Street Journal apelidou de extraterrestre fedorento
O café movimenta a economia enquanto a antiga história segue atraindo curiosos
Uma cidade costuma ser lembrada pelo que produz. Varginha, no sul de Minas, lidera as exportações de café do país e mesmo assim é conhecida no mundo inteiro por outra coisa: uma criatura agachada num terreno baldio que três jovens disseram ter visto em 1996. O presidente do conselho de patrimônio da cidade já resumiu o impasse. Até o café perde para o ET.
O que as três jovens disseram ter visto em 1996?
Uma criatura marrom-escura, agachada, com olhos vermelhos sem pupilas. Na tarde de 20 de janeiro de 1996, as irmãs Liliane e Valquíria Silva e a amiga Kátia Andrade Xavier cortavam caminho por um terreno no bairro Jardim Andere quando se depararam com o ser. Correram para casa e disseram à mãe que tinham visto o capeta.
O relato foi ao ar no Fantástico em fevereiro daquele ano, e a cidade nunca mais foi a mesma. Vieram os boatos de luzes no céu, de movimentação de caminhões militares, de uma criatura capturada. Hotéis lotaram, equipes estrangeiras desembarcaram, e o terreno virou ponto de peregrinação de ufólogos.

Por que o Wall Street Journal chamou o ser de fedorento?
Porque o cheiro foi o detalhe que mais marcou o relato. A mãe das meninas voltou ao terreno e descreveu um odor forte que associou a enxofre, e esse pormenor atravessou o Atlântico. O Wall Street Journal publicou em 1996 uma reportagem do correspondente Matt Moffett descrevendo Varginha como novo destino de peregrinação para entusiastas de discos voadores, e apelidou o suposto ser de extraterrestre fedorento.
A cobertura internacional se alimentou menos da criatura e mais da desconfiança. O jornal registrou que as negativas categóricas dos militares só serviram para inflamar a suspeita pública. Quanto mais o Exército negava, mais a cidade acreditava.

O que dizem os documentos oficiais sobre o caso?
Que não houve extraterrestre nenhum. Um Inquérito Policial-Militar instaurado em 1997 concluiu que as investigações se baseavam em pesquisas pseudocientíficas e provas testemunhais de credibilidade duvidosa. A hipótese oficial para a criatura foi um morador local com deficiência mental, conhecido na região como Mudinho, visto sob chuva forte e num momento de tensão. A movimentação militar teria sido rotina: viaturas levadas para manutenção e ocorrências causadas pelo temporal.
O caso, porém, se recusa a morrer. Em janeiro de 2026, o Superior Tribunal Militar liberou o acesso digital ao inquérito de 600 páginas, arquivado desde 1997, e a TV Globo exibiu o documentário O Mistério de Varginha, com depoimentos de militares que admitiram ter fabricado relatos na época. Trinta anos depois, nem a confissão encerrou a discussão.
Como uma cidade transforma um boato em patrimônio
Fazendo o oposto de esconder. Em 18 de maio de 2023, o Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio Cultural de Varginha aprovou o registro do bem imaterial O Caso do E.T. e a Identidade Varginhense, homologado em 5 de junho e inscrito nos Livros dos Lugares e das Representações, segundo o Portal do Turismo de Varginha. O que a ciência não comprovou, o patrimônio público reconheceu, e a distinção é fina: não se registrou a existência do ET, e sim o que a cidade construiu em torno dele.
A paisagem urbana levou o registro a sério.
- Memorial do ET: inaugurado em 2022 em prédio no formato de nave, reúne recortes de jornal, documentos e planetário.
- Caixa d’água da Copasa: erguida em formato de disco voador na Praça Marechal Floriano, virou o cartão-postal mais fotografado.
- Rota do ET: criada em 2024, com totens nos pontos por onde a criatura teria circulado.
- Estátua de 4 metros: instalada em setembro de 2025, assinada pelo artista plástico Renato Criaturas.
- Pontos de ônibus e aeroporto: estruturas com desenho que remete a naves espaciais.
Quem tem curiosidade sobre a cidade do famoso ET, vai curtir este vídeo do canal TV Princesa Varginha-MG, que apresenta três pontos turísticos de Varginha:
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O que Varginha faz enquanto os turistas fotografam o Grey
Embarca café para o mundo. A cidade é o maior hub exportador de café do Brasil, conforme a Prefeitura de Varginha, e a lógica não é a lavoura, e sim a logística. O município concentra tradings globais, armazenagem, rebenefício e despacho aduaneiro, com ligação direta ao Porto de Santos. O café de toda a região passa por ali antes de virar exportação.
A infraestrutura explica a concentração. Varginha abriga o Porto Seco Sul de Minas, a primeira Estação Aduaneira do Interior em funcionamento no país, e em agosto de 2025 foi escolhida como sede do Marco Zero do Circuito Nacional do Café, rota que conecta 51 cidades cafeeiras de Minas e São Paulo até o porto. É uma cidade que virou entreposto do produto que o Brasil mais vende ao mundo, e ainda assim aparece nos mapas por causa de um ser de 1,60 metro.
Como é o clima e como chegar
A 907 metros de altitude, Varginha tem clima tropical de altitude: verão chuvoso, inverno seco e frio de madrugada. Julho é o mês mais seco, com média de apenas 15 mm de chuva.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
A cidade fica a cerca de 300 km de São Paulo e 310 km de Belo Horizonte, com acesso pela BR-381 e pela BR-491. O Aeroporto Major Brigadeiro Trompowsky opera voos regionais e cargas.
A cidade que preferiu rir do próprio mistério
Varginha tinha duas opções depois de 1996: negar o episódio até que o mundo esquecesse, ou aceitar que a piada tinha virado identidade. Escolheu a segunda, e transformou um relato sem prova em memorial, rota turística e registro de patrimônio, sem nunca afirmar que a criatura existiu.
Talvez seja isso que uma cidade aprende quando o mundo inteiro decide contar sua história por ela: o que define um lugar não é aquilo que aconteceu, mas aquilo que as pessoas insistem em lembrar.
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