O ferreiro, o caçador e os três irmãos que criaram o montanhismo brasileiro para provar que os alemães estavam errados
Alemães disseram que era impossível: um ferreiro forjou os próprios grampos, subiu em 1912 e as peças originais continuam cravadas na montanha
Toda montanha famosa tem uma primeira vez, e quase sempre ela pertence a quem tinha equipamento e treino. No caso do Dedo de Deus, na Serra dos Órgãos, o cume de 1.692 metros foi vencido por cinco moradores de Teresópolis sem experiência em escalada, depois que estrangeiros veteranos declararam a parede intransponível.
O que os alemães disseram antes da subida de 1912?
Que ninguém conseguiria. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a via Teixeira foi conquistada em 1912 por um grupo de cinco moradores de Teresópolis justamente após um grupo de escaladores alemães declarar que o Dedo de Deus seria impossível de escalar.
A frase tinha peso técnico. Os alemães vinham de uma tradição alpina consolidada e conheciam rocha, corda e altitude. O que não conheciam era aquele granito específico, nem o acesso pela mata fechada da Serra do Mar. Falharam e foram embora convencidos de que a montanha era um caso encerrado.

Como um ferreiro resolveu um problema de engenharia vertical?
Fabricando a solução. Sem catálogo de equipamento para consultar nem loja onde comprar, o grupo produziu o próprio material técnico: grampos, estribos e hastes saíram da forja, feitos por quem passava o dia batendo ferro por ofício. A profissão virou vantagem competitiva em um esporte que ainda não existia no país.
É um detalhe que inverte a lógica esperada. Os alemães tinham método e careciam de adaptação; os teresopolitanos tinham adaptação e nenhum método. Venceu quem improvisou com conhecimento de oficina, não quem chegou com manual.

Por que a via Teixeira é considerada o marco inicial da escalada no Brasil?
Porque foi a primeira vez que brasileiros enfrentaram uma parede com dificuldades técnicas reais e chegaram ao topo. O ICMBio classifica a via como de 3º grau e registra que a ascensão foi celebrada como feito heroico, com considerável impacto no país. O Complexo Dedo de Deus aparece nos registros oficiais como berço do montanhismo brasileiro.
O complexo guarda ainda outra primeira vez: a via Bendy, no Dedo de Nossa Senhora, foi a primeira via em artificial aberta no Brasil, técnica em que o escalador se apoia no próprio equipamento para progredir onde a rocha não oferece agarras.
Os grampos de 1912 ainda estão lá?
Alguns sim. O ICMBio informa que parte dos grampos originais da conquista permanece na montanha, mais de um século depois de terem sido cravados. São peças forjadas à mão que resistiram à chuva, vento e à umidade constante de uma serra que fica entre 80% e 90% de umidade relativa boa parte do ano.
Hoje, o mesmo setor recebe escaladores iniciantes e veteranos, com vias que vão do grau acessível ao sétimo. O acesso às trilhas é gratuito, mas o Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PARNASO) exige o preenchimento e envio do Termo de Conhecimento de Riscos e Normas antes da escalada, com baixa obrigatória na saída.
Quem quer aproveitar o clima da serra e a natureza de Teresópolis, vai curtir este vídeo do canal De fora em Juiz de Fora, que apresenta os atrativos da cidade:
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O que mais existe no parque que nasceu dessa montanha?
O terceiro parque nacional mais antigo do Brasil. Conforme o PARNASO, a unidade foi criada em 30 de novembro de 1939, atrás apenas de Itatiaia e Iguaçu, e protege um trecho da Serra do Mar distribuído entre Teresópolis, Petrópolis, Magé e Guapimirim.
É também o parque com a maior rede de trilhas do país, mais de 200 km em todos os níveis. A escala vai de uma trilha suspensa acessível a cadeirantes até a Travessia Petrópolis-Teresópolis, 30 km de subidas e descidas pela parte alta das montanhas.

A montanha que respondeu a uma provocação
A cidade que cresceu ao pé dessa serra hoje aparece em 360º lugar entre os 5.570 municípios avaliados pelo Índice de Progresso Social (IPS Brasil) de 2026, com 66,87 pontos, o quarto melhor desempenho do estado. Um número discreto para uma cidade que inventou um esporte.
O que sobrou de 1912 não é placa nem monumento, e sim ferro batido preso ao granito, colocado ali por gente que não aceitou a palavra final de quem sabia mais. Uma montanha declarada impossível continua carregando, na própria rocha, a prova de que a declaração estava errada.
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