Num vilarejo escondido no interior do Brasil, o capim vira ouro e a água não deixa ninguém afundar
O deserto dourado brasileiro com fervedouros de água cristalina e dunas que parecem cinema
A comunidade Mumbuca, com pouco mais de 54 famílias quilombolas, transforma capim dourado em joias no coração do Jalapão, no leste do Tocantins. Ao redor, nascentes de água cristalina brotam da areia e impedem qualquer corpo de afundar.
Por que o Jalapão é chamado de deserto das águas
A região ocupa cerca de 34 mil km² de cerrado preservado, distribuídos entre municípios como Mateiros, São Félix do Tocantins, Ponte Alta do Tocantins e Novo Acordo. Apesar da paisagem árida e da vegetação rasteira, o subsolo guarda o Aquífero Urucuia, um dos maiores reservatórios de água subterrânea do país. Essa combinação de areia e fartura hídrica criou o apelido de deserto das águas.
O Parque Estadual do Jalapão (PEJ), criado em 2001 pela Lei Estadual nº 1.203, protege mais de 158 mil hectares concentrados em Mateiros. Junto com a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins e o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba, forma uma das maiores áreas contínuas de cerrado conservado do Brasil, segundo o Governo do Tocantins. A densidade populacional da região não passa de 0,8 habitante por km².

Fervedouros: as nascentes onde é impossível afundar
Os fervedouros são a grande estrela do Jalapão. Cada um funciona como uma piscina natural alimentada por nascentes subterrâneas que empurram a água para a superfície com pressão intensa. Esse fenômeno, chamado de ressurgência, impede que qualquer pessoa afunde, independentemente do peso ou da profundidade do poço. Segundo o professor Luís Flexa, do Instituto Federal do Tocantins (IFTO), a água vem do lençol freático e, ao encontrar obstáculos na topografia, é forçada a subir com força constante.
A sensação lembra um colchão líquido: a areia se move sob os pés e pequenas bolhas sobem à superfície a cada movimento. Há cerca de 30 fervedouros catalogados na região, todos em propriedades particulares com acesso controlado e limite de visitantes por vez. Protetor solar e repelente são proibidos para preservar a água cristalina. Entre os mais procurados estão o Fervedouro Bela Vista, cenário da novela O Outro Lado do Paraíso (2017), e o Fervedouro do Ceiça, conhecido pela pressão forte.

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O que visitar além das nascentes no cerrado tocantinense
O Jalapão reserva atrações que vão das dunas às cachoeiras, passando por comunidades quilombolas. Estes são os pontos que merecem entrar no roteiro:
- Dunas do Jalapão: bancos de areia de quartzo com até 30 m de altura, formados pela erosão da Serra do Espírito Santo. O pôr do sol no topo é o cartão-postal mais fotografado da região.
- Cachoeira da Formiga: nascente de água verde-esmeralda no município de Mateiros, com queda pequena e poço cristalino cercado por mata ciliar.
- Cachoeira da Velha: a maior do parque, com 100 m de largura e 15 m de queda no Rio Novo. Banho proibido pela força da água, mas o rafting leva até os pés do véu.
- Comunidade Mumbuca: povoado quilombola onde nasceu o artesanato de capim dourado. Mateiros foi declarada Capital Nacional do Capim-Dourado pela Lei 15.050/2024.
- Pedra Furada: formação rochosa de arenito esculpida pelo vento, ideal para fotos ao pôr do sol, a 35 km de Ponte Alta do Tocantins.
A Prefeitura de Mateiros concentra informações atualizadas sobre atrações e serviços turísticos no município.
Quem sonha em explorar o Jalapão, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 650 mil visualizações, onde é apresentado um guia completo de 5 dias pelo Tocantins, mostrando fervedouros, a Cachoeira do Formiga e as famosas Dunas:
Quando o clima favorece os passeios no Jalapão
O clima é tropical (classificação Aw de Köppen), com duas estações bem definidas. A melhor época para visitar vai de maio a setembro, quando as estradas de terra ficam mais firmes e o céu permanece aberto:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar ao coração do Tocantins
O ponto de partida é Palmas, capital do estado, que recebe voos de Brasília, São Paulo e Goiânia. De lá, são cerca de 180 km de asfalto pela TO-050 e TO-255 até Ponte Alta do Tocantins, onde o asfalto termina e começam os 165 km de estrada de terra até Mateiros. Veículo 4×4 é indispensável. A maioria dos visitantes contrata expedições com agências que incluem transporte, hospedagem e guia, em roteiros de 4 a 6 dias saindo de Palmas. O Naturatins administra o Parque Estadual e orienta sobre regras de visitação.
O cerrado que flutua e encanta quem se atreve a ir
O Jalapão reúne o improvável: dunas no meio do cerrado, rios que brotam da areia e comunidades que transformam capim em ouro. Cada fervedouro entrega uma experiência diferente, cada estrada de terra cobra o preço da aventura e devolve em paisagem.
Você precisa reservar pelo menos cinco dias, encarar a estrada com bom humor e deixar o Jalapão mostrar por que ninguém volta de lá do mesmo jeito.
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