No meio do Sertão, essa cidade baiana que exporta frutas para 50 países e fatura quase US$ 1 bilhão
A irrigação transformou uma região seca em potência na produção de frutas
Boa parte do Brasil imagina o Sertão como terra seca e improdutiva. Às margens do Rio São Francisco, porém, uma cidade pernambucana desmentiu essa ideia e virou o maior polo exportador de frutas do país. Ao lado de Juazeiro, na Bahia, Petrolina lidera uma produção irrigada que, em 2024, vendeu frutas para mais de 50 países e movimentou perto de US$ 1 bilhão em negócios internacionais.
O que é o polo de fruticultura de Petrolina?
O chamado polo Petrolina-Juazeiro reúne produtores de fruta irrigada às margens do São Francisco, espalhados por vários municípios de Pernambuco e da Bahia. A região concentra mais de 200 empresas ligadas à exportação, segundo a Valexport, associação dos produtores e exportadores do Vale do São Francisco.
Os carros-chefes são a manga e a uva de mesa. Só de uva, o Vale chegou a responder por cerca de 98% das exportações brasileiras da fruta em 2024, conforme dados do ComexStat, sistema oficial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A força do agronegócio local também é registrada pela Prefeitura de Petrolina.

Como o Sertão semiárido virou celeiro de frutas?
A resposta está no encontro de água, sol e tecnologia. O São Francisco garante irrigação o ano inteiro, e o clima seco, de pouca chuva e sol constante, reduz muitas doenças de lavoura, permitindo duas ou mais colheitas por ano, algo raro no Brasil. Enquanto o Rio Grande do Sul colhe uva uma vez por safra, o Vale colhe duas, dobrando a oferta na mesma área.
A engenharia por trás disso é enorme. Foram implantados mais de 156 km de canais que levam a água do rio até as fazendas, obra da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). A pesquisa também tem endereço fixo: a Embrapa Semiárido mantém sede em Petrolina e desenvolve variedades de uva e manga adaptadas ao calor desde a década de 1970.
Quem tem curiosidade sobre o cultivo de frutas e quer conhecer os bastidores da agricultura no sertão, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, que conta com mais de 36 mil visualizações, onde Matheus Boa Sorte mostra a produção orgânica e o polo fruticultor de Petrolina – PE:
Para onde vão as frutas do Vale do São Francisco?
Os principais compradores estão na Europa e nos Estados Unidos, mas o mapa vem se ampliando. Nos últimos anos, entraram novos destinos na Ásia e no Oriente Médio, e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco confirmou em 2024 a abertura do mercado asiático para a uva pernambucana. Veja abaixo as principais frutas e seus destinos:
| Fruta | Destaque | Principais destinos |
|---|---|---|
| Manga | Líder nacional em exportação | Estados Unidos e Europa |
| Uva de mesa | Cerca de 98% do que o Brasil exporta | Europa e Ásia |
| Melão e melancia | Alta produtividade em cultivo consorciado | Holanda e Reino Unido |
| Goiaba, banana e acerola | Forte presença no mercado interno | Brasil e Mercosul |
Quantos empregos a fruticultura sustenta na região?
A cadeia emprega muito porque mecaniza pouco. Colheita, embalagem, transporte, laboratórios e escritórios de exportação formam uma sequência longa de trabalho que sustenta cidades inteiras do Vale, uma característica que diferencia a fruticultura de outras culturas agrícolas de larga escala.
O poder público reforça esse ecossistema. A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) mantém um Centro de Excelência em Exportação de Frutas em Petrolina e capacitou 275 empresas nos últimos anos. Nos quatro primeiros meses de 2024, a região exportou mais de 61 mil toneladas de frutas, alta superior a 45% frente ao ano anterior.
Quais são os planos para o futuro do polo?
A expansão continua no horizonte. A abertura recente do mercado asiático para a uva pernambucana promete acelerar as vendas, somando novos destinos aos compradores já consolidados na Europa e nos Estados Unidos.
A infraestrutura também avança. A Ferrovia Transnordestina, em obras, promete aproximar o Sertão dos portos exportadores e baratear o transporte da fruta até o litoral. Junto com as novas variedades desenvolvidas pela Embrapa Semiárido, a expectativa é que o Vale amplie ainda mais sua presença no comércio internacional nos próximos anos.

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O deserto que aprendeu a florescer
A história de Petrolina condensa uma virada improvável: um trecho do semiárido que, com irrigação e ciência, passou a abastecer supermercados de dezenas de países. A manga e a uva que saem do Vale carregam décadas de canais, pesquisa e trabalho manual.
No mesmo chão que o imaginário associa à seca, hoje amadurecem duas safras por ano, prova de que a paisagem do Sertão guarda mais possibilidades do que a aparência sugere.
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