Manchester Fluminense: a cidade do Rio de Janeiro que conquista novos moradores e já respondeu por metade da arrecadação do estado
O passado industrial deixou marcas profundas na economia e na paisagem
Poucos apelidos brasileiros carregam tanto peso econômico quanto Manchester Fluminense. São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, ganhou o título nas décadas de 1940 e 1950, quando abrigou o mais importante parque industrial do estado e respondeu por mais da metade dos impostos arrecadados no antigo estado do Rio de Janeiro. Hoje é a segunda cidade mais populosa do estado, com quase 1 milhão de habitantes, e mantém traços dessa história em ruínas de fábricas, casarões coloniais e uma sesmaria fundada em 1579.
Como uma sesmaria de 1579 originou a cidade?
Em 6 de abril de 1579, o nobre Gonçalo Gonçalves recebeu do governador da Capitania do Rio de Janeiro uma sesmaria às margens do Rio Imboaçu, com a obrigação de construir uma capela e um povoado em três anos. Segundo a Prefeitura de São Gonçalo, ele ergueu uma capela dedicada ao seu santo de devoção, São Gonçalo do Amarante, e batizou o povoado com o nome do padroeiro.
O território era originalmente habitado pelos índios tamoios, expulsos após confrontos com portugueses e franceses no fim do século XVI. A colonização europeia foi liderada por padres jesuítas, que estabeleceram uma fazenda na área conhecida como Colubandê, próxima ao traçado atual da RJ-104. A antiga fazenda existe até hoje e virou atrativo turístico. Nos séculos seguintes, o município prosperou com engenhos de açúcar, aguardente e lavouras de mandioca, feijão, milho e arroz.

Por que a cidade foi apelidada de Manchester Fluminense?
A emancipação política aconteceu em 22 de setembro de 1890, quando o distrito de São Gonçalo se separou de Niterói pelo decreto estadual nº 124. O grande salto econômico veio décadas depois. A partir da década de 1930, a cidade recebeu um parque industrial que virou o mais importante do estado do Rio de Janeiro, e o apelido de Manchester Fluminense se firmou em referência à cidade britânica símbolo da Revolução Industrial.
Segundo o registro histórico da Prefeitura de São Gonçalo, nas décadas de 1940 e 1950 o município foi responsável por mais da metade da arrecadação total dos impostos do antigo estado do Rio de Janeiro. Fábricas de metalurgia, cerâmica, fósforo, enlatados e fogos de artifício se instalaram principalmente nos distritos de Neves e Sete Pontes, aproveitando a proximidade com as então capitais federal (Rio de Janeiro) e estadual (Niterói).

O que sobrou desse passado industrial?
O ciclo industrial se enfraqueceu nas décadas de 1970 e 1980, quando muitas fábricas fecharam ou migraram para outras regiões. A economia se reconfigurou em torno do comércio e dos serviços, e a cidade continua a fornecer mão de obra para os municípios vizinhos. A memória industrial resiste em prédios preservados e em bairros que ainda mantêm o nome das antigas plantas fabris.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), São Gonçalo tem cerca de 960 mil habitantes e ocupa a segunda posição estadual em população, atrás apenas da capital. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) chega a 0,739, classificado como alto. O Jardim Catarina, um dos bairros da cidade, é apontado como o maior loteamento da América Latina.
O município também está a apenas 25 km da capital fluminense, o que o mantém integrado ao dinamismo da região metropolitana. Assim como outras cidades históricas do litoral sudeste brasileiro reconhecidas pelas raízes coloniais, São Gonçalo guarda em pé construções que testemunharam mais de quatro séculos.
O que ver em São Gonçalo?
A cidade preserva atrativos históricos e culturais espalhados pelos cinco distritos. Boa parte fica no centro histórico e nas antigas áreas industriais transformadas em espaços culturais.
- Igreja Matriz de São Gonçalo: origem da cidade, com construção iniciada em 1579 pelo próprio Gonçalo Gonçalves.
- Casa das Artes Villa Real: inaugurada em 1999, abriga exposições, shows intimistas e lançamentos de livros no centro da cidade.
- Fazenda Colubandê: antiga fazenda jesuíta próxima à RJ-104, uma das construções coloniais mais antigas da região metropolitana.
- Solar dos Vasconcellos: casarão histórico que testemunha o período dos engenhos e das grandes fazendas.
- Feiras livres tradicionais: mercados populares em Alcântara, Neves e Trindade, ponto de encontro comercial da cidade.
- Praia das Pedrinhas: antiga área ribeirinha próxima ao Rio São Lourenço, com vista para a Baía de Guanabara.
Quem quer conhecer a antiga Manchester Fluminense, vai curtir esse vídeo do canal Rota 408 – Cidades do Brasil, com mais de 22 mil visualizações, que percorre bairros e avenidas de São Gonçalo:
Como chegar a São Gonçalo?
A cidade está a 25 km do centro do Rio de Janeiro, com acesso pelas rodovias BR-101, RJ-104 e RJ-106. A Ponte Rio-Niterói é a principal ligação com a capital, junto com barcas que saem da Praça XV em direção a Niterói e conectam com o transporte municipal. Ônibus intermunicipais operam entre a rodoviária Novo Rio e várias regiões do município. Para conferir a previsão do tempo, o Climatempo mantém boletins diários para São Gonçalo.
A cidade que já foi motor do estado
São Gonçalo é a memória viva de um período em que o Rio de Janeiro se industrializou e se reinventou. O apelido Manchester Fluminense continua a aparecer em placas, em nomes de estabelecimentos e na herança arquitetônica que resistiu à passagem dos ciclos econômicos.
Poucas cidades brasileiras conseguiram concentrar tanto poder produtivo em tão pouco tempo, e ainda menos guardam, no mesmo mapa, uma sesmaria de 1579 e as ruínas de fábricas que fizeram o século XX passar depressa.
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