Maior produtora mundial de pimenta-rosa: a cidade capixaba de 1544 onde desova a maior tartaruga do planeta
A produção agrícola divide espaço com praias importantes para a vida marinha
Existem cidades que se explicam por um único produto e outras que precisam de dois mapas para serem entendidas. No norte do Espírito Santo, São Mateus guarda de um lado o casario de um porto que exportava farinha e madeira desde o século XVI, e do outro uma faixa de areia onde a tartaruga-de-couro, o maior réptil marinho do mundo, ainda encontra lugar para desovar. No meio, uma lavoura de especiarias que virou referência internacional e ganhou selo de origem próprio.
Por que a pimenta-rosa produzida no norte capixaba tem selo de origem próprio?
Porque o grão colhido ali passou a valer pela procedência, e não apenas pelo peso. Segundo a Prefeitura de São Mateus, o município é reconhecido como maior produtor e exportador mundial de pimenta-rosa desde 2012, e o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu ao território a Indicação Geográfica (IG) do produto, uma chancela que delimita a área de cultivo e atesta a origem, como acontece com vinhos europeus.
A pimenta-rosa nem é pimenta: é o fruto da aroeira, árvore nativa da Mata Atlântica que cresce nas restingas do litoral capixaba e virou tempero de cozinha fina na Europa. O pedido de reconhecimento foi conduzido pela associação de produtores com apoio técnico do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), que estuda a cultura na região desde 2008.

Quanto essa lavoura de especiarias pesa na balança nacional?
O peso aparece quando se olha a pimenta-do-reino. Conforme o Incaper, São Mateus concentra 35% de toda a produção capixaba da especiaria, à frente de Jaguaré, Vila Valério e Nova Venécia, num Estado que responde por cerca de 60% da safra brasileira, de acordo com a Secretaria da Agricultura do Espírito Santo (Seag).
Quem sustenta esse volume não são grandes fazendas: a agricultura familiar responde por 76% dos estabelecimentos que cultivam pimenta no Estado, segundo o mesmo levantamento do Incaper. É um arranjo parecido com o de outra cidade do interior que exporta para dezenas de países, onde a força vem da soma de pequenas propriedades e não de um único gigante.

O que a maior tartaruga do mundo procura nessas praias?
Areia quente e escura, e pouca gente por perto. A tartaruga-de-couro pode passar de 1,80 m de casco e chega a meia tonelada, e o litoral norte capixaba é, conforme o Projeto Tamar, a única área de desova regular conhecida da espécie no Brasil, com algo em torno de 120 ninhos por temporada em todo o país.
Cento e vinte ninhos por temporada em todo um país é um número pequeno o bastante para caber em uma planilha, e essa é justamente a medida do risco que cerca a espécie. O monitoramento fica a cargo do Centro Tamar do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que mantém uma base avançada na Ilha de Guriri. A temporada de desova vai de setembro a março, período em que a iluminação da orla e o trânsito na areia entram na conta de quem administra o balneário.

O porto que virou casario tombado
O Sítio Histórico do Porto de São Mateus foi o primeiro conjunto tombado pelo Conselho Estadual de Cultura do Espírito Santo, por resolução de 1976, e reúne dezenas de casarões erguidos quando o rio Cricaré escoava farinha de mandioca, madeira e cereais para outras províncias. A cidade nasceu em 1544 e recebeu o nome atual em 1566, e está entre os municípios mais antigos do país.
Nos últimos anos, o conjunto passou por requalificação urbana com investimento superior a R$ 10,9 milhões, informa a Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult). Durante as obras, acompanhadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), apareceram artefatos datados do século XIX sob o calçamento, o que somou valor arqueológico ao endereço.
Onde ir entre o centro antigo e os quilômetros de litoral?
A cidade funciona como dois destinos colados: um de pedra e outro de areia. Confira abaixo os pontos que costumam organizar um roteiro de dois dias:
- Sítio Histórico do Porto: casario colonial à beira do Cricaré, com informações no guia turístico municipal.
- Ruínas da Igreja Velha: templo em estilo colonial português que nunca foi concluído, com obra paralisada por decisão da Câmara em agosto de 1853, conforme a Prefeitura.
- Museu da História de São Mateus: acervo sobre a formação do município, apresentado no guia municipal.
- Praia de Guriri: principal balneário, a cerca de 12 km do centro, com águas mornas e faixa larga de areia.
- Praia de Barra Nova: vila de pescadores na foz do rio Mariricu, com manguezais e lagunas, listada entre as praias oficiais do município.
- Mercado Municipal: parada para farinhas, beijus, doces e os condimentos que deram fama à região.
Quem quer conhecer São Mateus além das praias vai curtir este vídeo do canal Tribuna Online, com mais de 1 mil visualizações, onde Camila Rangel mostra história, turismo e a produção com pimenta-rosa.
Como o clima de São Mateus se comporta ao longo do ano?
O município tem clima tropical de baixa altitude, com verão quente e úmido e inverno ameno, sem estação verdadeiramente fria. Veja abaixo o comportamento médio ao longo do ano:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições podem variar de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada antes de viajar.
Vale conhecer o norte capixaba pelas duas portas
São Mateus fica a cerca de 215 km de Vitória, acesso principal pela BR-101, e entrega em um mesmo fim de semana o que costuma estar separado em roteiros diferentes: um conjunto colonial tombado há quase meio século e uma orla que ainda serve de berçário para uma espécie rara.
Você precisa reservar um dia para o casario do porto e outro para Guriri, porque poucos lugares no Brasil conseguem contar a própria história pelo tempero que exportam e pelas tartarugas que recebem.
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