Há 150 anos, em 1875, famílias italianas chegaram com malas simples e fundaram a cidade brasileira onde até hoje se ouve um dialeto italiano nas ruas
A cidade brasileira que ainda fala um dialeto italiano nas ruas, 150 anos depois da chegada das primeiras famílias
Em 24 de dezembro de 1875, um grupo de famílias vindas do norte da Itália desembarcou na então Colônia Dona Isabel. Esse vilarejo deu origem a Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, onde até hoje se ouve nas ruas o talian, dialeto trazido pelos imigrantes e oficializado em lei pelo município.
Como uma colônia de 1875 virou a capital brasileira do vinho
A história começa com mato fechado e barracões improvisados. Registros oficiais da prefeitura mostram que, em março de 1876, a colônia já tinha 348 lotes demarcados e uma população de 790 pessoas, das quais 729 eram italianas, vindas sobretudo do Vêneto, da Lombardia e do Tirol.
O nome atual veio do desmembramento de Montenegro, em 1890, em homenagem ao general Bento Gonçalves da Silva, líder da Revolução Farroupilha. Daquela fundação no fim do século 19 até hoje, a cidade nunca abandonou o que os imigrantes trouxeram na mala: a videira, a polenta, o galeto e a língua. Cerca de 120 mil moradores convivem com mais de 90 vinícolas, segundo dados da prefeitura local.

O que é o talian e por que ele virou patrimônio do Brasil?
O talian não é o italiano moderno que se fala em Roma ou Milão hoje. É uma língua nascida no Brasil, base vêneta, formada quando imigrantes de várias regiões da Itália se misturaram no navio e nas colônias da Serra. Em 2014, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu oficialmente o talian como Referência Cultural Brasileira, conforme registra o reconhecimento patrimonial federal.
Em Bento Gonçalves, a Lei Municipal nº 6.109, de 2016, tornou o talian cooficial do município, ao lado do português. Estima-se que cerca de 500 mil pessoas ainda falem a língua no Brasil, espalhadas por mais de 130 municípios, segundo levantamentos das comunidades locais. Em algumas escolas da cidade, crianças têm aulas semanais do dialeto, e cantorias em talian abrem os almoços de família nas cantinas históricas.

Vale a pena viver em Bento Gonçalves?
Sim. A cidade combina renda industrial com turismo qualificado e aparece em rankings de qualidade de vida acima da média gaúcha. Segundo o perfil oficial divulgado pela prefeitura, Bento Gonçalves é o maior polo moveleiro do Brasil, responsável por cerca de 25% do faturamento do setor no Rio Grande do Sul em 2019.
O município também recebe mais de um milhão de turistas por ano, conforme dados do Ministério do Turismo, e mantém parcerias internacionais com cidades-irmãs do Trentino, no norte da Itália. Em 2019, foi a primeira cidade do interior brasileiro a sediar uma Cúpula do Mercosul, no Vale dos Vinhedos.
Reconhecimento internacional e selos europeus
Em 2018, Bento Gonçalves passou a integrar a associação italiana Città del Vino, que reúne cerca de 480 comunidades produtoras responsáveis por 80% dos vinhedos italianos com certificação de origem. Um ano antes, em 2007, o Vale dos Vinhedos já havia sido incluído pela Comunidade Europeia na lista de terceiros países com Indicação Geográfica de vinhos.
O selo mais cobiçado, porém, veio do próprio Brasil. Conforme registra a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Vale dos Vinhedos foi a primeira região do país a receber Indicação de Procedência (2002) e a primeira a obter Denominação de Origem para vinhos (2012). A área certificada tem 72,45 km² entre Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul.
O que fazer em Bento Gonçalves
A cidade oferece cinco rotas turísticas oficiais, segundo o site Bento Tur, da Secretaria Municipal de Turismo. Entre os principais atrativos, destacam-se:
- Vale dos Vinhedos: principal roteiro enoturístico do Brasil desde 2008, com vinícolas como Miolo, Casa Valduga e Pizzato abertas à visitação.
- Caminhos de Pedra: rota de 12 km com casarões originais do fim do século 19, a 15 minutos do centro, segundo a Associação Caminhos de Pedra.
- Maria Fumaça: trem a vapor que liga Bento Gonçalves a Garibaldi e Carlos Barbosa em 23 km, com música italiana e degustação a bordo.
- Epopeia Italiana: parque temático com nove cenários em tamanho real que reconstituem a saga dos imigrantes.
- Pipa Pórtico: barril gigante na entrada da cidade, com posto de informações para turistas.
- Cantinas Históricas: rota pelas vinícolas familiares mais antigas, em propriedades centenárias.
Na hora de comer, a tradição italiana domina os cardápios. Os pratos mais procurados são:
- Galeto al primo canto: frango jovem assado em espeto giratório, prato-símbolo da Serra.
- Sequência italiana: rodízio que combina sopa de capeletti, polenta, massas, risotos e carnes.
- Tortéi: massa recheada com abóbora, geralmente servida com molho ao sugo ou pesto.
- Polenta brustolada: polenta firme gratinada com queijo da Serra.
- Sagu ao vinho: sobremesa colonial cozida em vinho tinto, servida com creme.
Quer um roteiro de 4 dias pelo Vale dos Vinhedos e Bento Gonçalves, com preços e dicas de economia? Vai curtir esse vídeo:
Quando o clima de Bento Gonçalves favorece cada passeio?
O inverno é a alta temporada na cidade, com fondues, lareiras e degustações. No verão, a vindima toma conta entre janeiro e março, quando os turistas pisam uvas nas vinícolas. Veja o que esperar em cada estação:
Período marcado pelas chuvas. Participe da animada vindima e experimente a autêntica pisa de uva nas vinícolas do Vale dos Vinhedos.
As temperaturas começam a cair levemente. Aproveite para fotografar os parreirais avermelhados e realizar degustações tranquilas nas vinícolas.
O clima gélido atrai multidões. Aqueça-se degustando fondues e deliciosos vinhos ao redor das lareiras na Serra Gaúcha.
Retorne aos roteiros ao ar livre. Realize caminhadas ecológicas pelas trilhas da região e aventure-se nos cênicos voos de balão.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude.
Como chegar à capital do vinho
Bento Gonçalves fica a 124 km de Porto Alegre, com acesso principal pela BR-470. De carro, a viagem leva cerca de duas horas e meia. O aeroporto mais próximo é o Hugo Cantergiani, em Caxias do Sul, a 40 km do centro, com voos regionais. O Salgado Filho, na capital gaúcha, recebe voos nacionais e internacionais. Linhas diárias de ônibus ligam a rodoviária da cidade a Porto Alegre em cerca de três horas.
Por que conhecer Bento Gonçalves
Poucos lugares no Brasil guardam um pedaço da Itália tão vivo. Cento e cinquenta anos depois das primeiras 20 famílias chegarem com malas simples, a cidade conserva o sotaque, a videira e a hospitalidade que vieram no mesmo navio.
Você precisa subir a Serra Gaúcha e conhecer Bento Gonçalves, brindar com um espumante local e ouvir o talian numa cantina familiar.
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