Fundada por imigrantes de mais de 20 nacionalidades, a cidade gaúcha que recebeu por lei federal o título de Capital Nacional das Etnias
A diversidade aparece na comida, nas festas e nos costumes locais
Colônias de imigração no sul do Brasil costumam ter um sobrenome só: alemã, italiana, polonesa. Ijuí, no noroeste do Rio Grande do Sul, virou exceção nacional ao receber gente de mais de vinte origens diferentes no mesmo pedaço de planalto, a ponto de o Congresso Nacional transformar essa mistura em título oficial por lei.
Como uma colônia de 1890 juntou tantos povos no mesmo lugar?
Pela forma como o loteamento foi feito. Fundada em 19 de outubro de 1890 como Colônia de Ijuhy, primeiro núcleo das chamadas Colônias Novas nas terras altas do planalto gaúcho, a área recebeu levas sucessivas de famílias sem separação por origem, o que misturou os vizinhos desde a primeira geração.
O nome vem do tupi-guarani e significa rio das águas divinas. Nos primeiros anos, registros de encontros religiosos e festivos dão conta de 19 línguas ouvidas ao mesmo tempo na colônia. Passaram por ali alemães, italianos, poloneses, austríacos, letos, holandeses, suecos, espanhóis, japoneses, russos, árabes, libaneses, lituanos e ucranianos, além de portugueses, afro-brasileiros e indígenas já presentes na região.

O que garantiu o título oficial de Capital Nacional das Etnias?
Uma lei federal, e não um apelido de folder turístico. A Lei 14.280, de 28 de dezembro de 2021, tem apenas dois artigos e confere o título de Capital Nacional das Etnias à cidade, algo que nenhum outro município brasileiro carrega.
A tramitação foi rápida. Conforme o Senado Federal, a proposta nasceu do Projeto de Lei 1.855/2021, de autoria do deputado Pompeo de Mattos, foi relatada pelo senador Lasier Martins e aprovada em 15 de dezembro de 2021 sem nenhuma emenda. No parecer, o relator apontou a exuberância multicultural do município como razão da homenagem.

Onde as etnias se encontram uma vez por ano?
No Parque de Exposições Wanderley Burmann, durante a Festa Nacional das Culturas Diversificadas (FENADI). A festa nasceu em outubro de 1987, dentro de um movimento local de retomada econômica que decidiu apostar na diversidade cultural como identidade da cidade, e acontece junto com a Expo-Ijuí, uma das maiores feiras de negócios do interior gaúcho.
O parque abriga casas típicas construídas por cada comunidade, com arquitetura, gastronomia e grupos de dança próprios, mais a casa da tradição gaúcha. Segundo a Prefeitura de Ijuí, a realização é dividida entre o município, a Associação Comercial e Industrial, a União das Etnias de Ijuí (UETI) e a Unijuí. É o tipo de acolhimento que também aparece em destinos eleitos os mais acolhedores do país, aqui traduzido em mesa posta.
O que visitar fora da temporada de festa?
A cidade guarda memória indígena, arquitetura de colonização e uma hidrelétrica que nunca parou. Confira abaixo os pontos que valem a parada:
- Museu Antropológico Diretor Pestana: criado em 1961 e mantido pela FIDENE, preserva acervo sobre a colonização e sobre a ocupação indígena pré-missioneira da região.
- Usina Velha: a hidrelétrica mais antiga da região segue funcionando com equipamentos originais de 1923, a cerca de 5 km do centro.
- Parque da Fonte Ijuí: 71 hectares de área verde à beira do rio, a 12 km do centro, no ponto que rendeu à cidade o apelido de terra das fontes.
- Praça da República: espaço público central onde acontecem os desfiles étnicos e boa parte da agenda cultural do município.
- Parque da Pedreira: antigo lago degradado revitalizado e aberto em dezembro de 2021, com deck de madeira, churrasqueiras e parquinho.
Quem se fascina pela mistura de culturas vai curtir esse vídeo do canal Galileu Motorhome & Travel, com mais de 31 mil visualizações, onde Luiz e Claudinha conhecem Ijuí:
Por que uma cidade do interior virou referência universitária?
Porque a comunidade não esperou o Estado agir. Segundo a Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), a mobilização começou nos anos 1950, quando a Ordem dos Frades Capuchinhos e lideranças locais se juntaram para levar ensino superior a uma região que dependia inteiramente da capital.
Desse movimento nasceu, em 1956, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ijuí, embrião de uma universidade comunitária que hoje mantém campi em quatro cidades e mais de sessenta cursos de graduação. O reconhecimento como universidade veio em 1985, e a instituição é a mesma que sustenta o museu, a escola de educação básica e a rádio educativa da cidade, o que explica o apelido de cidade universitária colado ao município há décadas.
Como é o clima no noroeste gaúcho?
O clima é subtropical, com chuva bem distribuída ao longo do ano e amplitude térmica grande entre as estações. O verão passa dos 30°C com facilidade e o inverno registra madrugadas de um dígito. Veja abaixo o que esperar de cada período:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Conheça a cidade onde vinte povos viraram uma identidade só
Ijuí transformou o que em outros lugares vira disputa em programa de fim de semana. As casas étnicas do parque, os pratos que mudam de país a cada esquina e um título federal que nenhum outro município tem contam a história de uma colônia que nunca escolheu um sobrenome único.
Você precisa passar por Ijuí em outubro e jantar em três continentes diferentes sem sair do mesmo parque.
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