Foi a primeira capital do Ceará, perdeu o posto em 1726 e ainda guarda um mercado de carnaúba tombado pelo governo federal
O mercado preservado ajuda a contar uma parte antiga da história local
A 32 km do burburinho de Fortaleza, uma praça de traçado jesuítico organiza o casario baixo de Aquiraz. Foi ali que a capitania do Siará Grande teve sua primeira sede administrativa, antes de a capital migrar para a vizinha. O que sobrou é um centro histórico discreto e 40 km de litoral que hoje sustentam a cidade.
Capital do Siará Grande, com um mercado tombado por acaso
Em 13 de fevereiro de 1699, uma ordem régia elevou o povoado a vila, a primeira da capitania. A sede administrativa foi transferida para Aquiraz em 1713 e permaneceu ali até 1726, quando passou definitivamente a Fortaleza, conforme registra o Governo do Estado do Ceará.
O prédio mais notável do centro não é uma igreja. É o Mercado da Carne, erguido no século XIX com tijolo adobe e madeiramento de carnaúba, telhado de quatro águas apoiado em uma única coluna central de alvenaria. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) abriu o processo em 1981 e inscreveu o conjunto no Livro de Belas Artes em fevereiro de 1984.
Ao redor da praça Cônego Araripe estão a Igreja Matriz de São José de Ribamar, do século XVIII, e a Casa do Capitão-Mor, feita de pau a pique reforçado com amarras de couro de boi, herança do ciclo das charqueadas. A casa consta da relação de bens tombados pelo Estado.

A praia que virou reserva para não virar resort
Nos anos 1990, a comunidade de pescadores do Batoque travou uma disputa judicial contra um projeto hoteleiro que ocuparia a faixa de dunas. O Ministério Público Federal abriu o processo de criação de uma unidade de conservação em 2000.
O desfecho veio em 5 de junho de 2003, Dia Mundial do Meio Ambiente. Um decreto presidencial criou a Reserva Extrativista do Batoque, com 601,44 hectares de bioma marinho costeiro, hoje administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Foi a primeira reserva extrativista do Ceará.
O território guarda outra população que resistiu no lugar. O povo Jenipapo-Kanindé vive às margens da Lagoa Encantada, entre dunas e faixa de praia, em área demarcada de 1.734 hectares.

O que fazer entre jangadas, rendas e dunas?
A cidade tem seis praias principais e um contraste raro: resorts de grande porte a poucos quilômetros de vilas de pescadores. Vale percorrer as duas pontas.
- Prainha: os artistas locais pintam as velas das jangadas com cenas do cotidiano da pesca, tradição que virou marca da praia.
- Iguape: abriga o Centro das Rendeiras, onde mulheres da comunidade trabalham a renda de bilro em almofadas de bilros de madeira.
- Batoque: reserva extrativista com pouca infraestrutura, dunas móveis e turismo de base comunitária conduzido pelos moradores.
- Porto das Dunas: concentra a rede hoteleira e o parque aquático mais conhecido do litoral cearense.
- Mercado das Artes: o antigo Mercado da Carne, hoje espaço de artesanato, com a estrutura de carnaúba à vista.
- Museu Sacro São José de Ribamar: instalado na antiga Casa de Câmara e Cadeia, guarda uma cruz processional de prata cinzelada do século XVIII, herança dos jesuítas.
Uma nota de honestidade sobre o topônimo: a prefeitura traduz Aquiraz do tupi como água logo adiante, enquanto o Governo do Estado registra gentio da terra. As duas versões circulam em documentos oficiais e não há consenso.
Quem quer planejar uma viagem perfeita repleta de praias, cultura e diversão, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rodrigo Ruas, que conta com mais de 66 mil visualizações, onde Rodrigo Ruas mostra roteiros históricos, engenhos de rapadura e ecoturismo em Aquiraz:
Quando ir e o que esperar do clima?
O calor é constante e a diferença entre as estações se mede pela chuva. O primeiro semestre concentra as águas, e o segundo traz vento e céu limpo.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo, que registra média de 240 mm de chuva em abril e 70 mm em junho. Condições podem variar.
Como chegar à primeira vila da capitania?
O Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza, fica a 25 km do centro de Aquiraz. O acesso rodoviário se dá pela CE-040, pela CE-025 e pela BR-116.
Ônibus metropolitanos ligam a capital ao centro histórico durante o dia. Para chegar ao Batoque, o caminho passa por Pindoretama e termina em estrada vicinal sem pavimentação.
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Conheça a capital que o Ceará deixou para trás
Poucas cidades brasileiras trocaram o poder por uma praça silenciosa e um mercado de carnaúba. Aquiraz perdeu a capitania, ganhou o mar e ainda abriga pescadores, rendeiras e um povo indígena que se recusaram a sair do lugar.
Você precisa atravessar os 32 km que separam Fortaleza de Aquiraz e entender que o Ceará começou ali.
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