Estudo da Oxford aponta 11 cidades brasileiras que estão entre as mais ameaçadas do mundo por calor extremo
O alerta de Oxford sobre as cidades brasileiras mais vulneráveis ao calor
Uma pesquisa da Universidade de Oxford publicada na revista científica Sustainable Cities and Society avaliou a vulnerabilidade de 205 cidades com mais de 1 milhão de habitantes em todo o mundo a ondas de calor. O resultado colocou 11 cidades brasileiras entre as mais ameaçadas do planeta, com Manaus na 27ª posição global.
O que o estudo da Universidade de Oxford analisou?
O estudo, disponível no portal ScienceDirect, não mediu apenas temperatura. Os pesquisadores combinaram a exposição ao calor com fatores que ampliam o risco real para a população: nível de pobreza, qualidade da infraestrutura urbana, acesso à energia elétrica, arborização, presença de crianças pequenas e idosos e capacidade das famílias de adquirir ventiladores e aparelhos de ar-condicionado.
Essa metodologia muda o perfil das cidades mais perigosas. Uma cidade com temperaturas altas mas com renda elevada, energia barata e boa cobertura vegetal aparece menos vulnerável do que uma cidade com temperaturas menores, mas população pobre e sem estrutura de resfriamento. É por isso que o ranking não é simplesmente uma lista das cidades mais quentes do mundo.
Por que Manaus lidera a lista das cidades brasileiras?
Manaus é a única megacidade do mundo encravada no interior da maior floresta tropical do planeta, e esse isolamento geográfico não a protege do calor: ela sofre com ele de forma amplificada. A remoção de vegetação nativa para a expansão urbana criou uma ilha de calor intensa, com diferença de até 3°C entre o centro da cidade e a floresta ao redor.
O problema é agravado pelas condições socioeconômicas. Grande parte da população mora em áreas com pouca sombra, sem condições de pagar pelo uso constante de ar-condicionado e com acesso limitado a serviços de saúde. Segundo o ClimaInfo, que acompanhou o estudo, a intensificação dos episódios de calor em Manaus nas últimas duas décadas é um sinal claro de que a situação tende a piorar com as mudanças climáticas.

Qual é o contexto global do ranking e quais cidades lideram?
No topo do ranking mundial está Basra, no Iraque, seguida de outras cidades do Oriente Médio, da Índia, do Paquistão, da Nigéria e de Gana. O estudo indica que mais de 95% das cidades mais expostas ficam no sul e sudeste da Ásia e na África Subsaariana, regiões que combinam calor intenso com baixo poder aquisitivo e infraestrutura precária.
Na América Latina e no Caribe, a cidade mais vulnerável é Barranquilla, na Colômbia, que ocupa a 11ª posição no ranking mundial. Manaus está em 3º lugar na região, à frente de Porto Príncipe, no Haiti, que aparece na 19ª posição global. O fato de três das dez cidades mais ameaçadas da América Latina serem brasileiras reforça a escala do problema no país.
| Cidade brasileira | Posição global | Risco |
|---|---|---|
| Manaus (AM)3ª na América Latina | 27ª entre 205 cidades | Muito alto |
| Goiânia (GO)Expansão urbana acelerada | 46ª entre 205 cidades | Muito alto |
| Belo Horizonte (MG)Densidade e topografia | 66ª entre 205 cidades | Alto |
| Fortaleza (CE)Calor costeiro + desigualdade | 67ª entre 205 cidades | Alto |
| São Paulo (SP)Escala da desigualdade | 77ª entre 205 cidades | Alto |
| Rio de Janeiro (RJ)Periferias densas e quentes | 83ª entre 205 cidades | Alto |
O calor extremo já está matando brasileiros?
Sim, e os números são alarmantes. Um estudo da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), publicado em junho de 2026, apontou que ondas de calor foram responsáveis por 120 mil mortes no Brasil entre 2000 e 2019, segundo reportagem do ClimaInfo. A maioria das vítimas era de idosos, pessoas com doenças cardiovasculares e moradores de regiões periféricas sem arborização.
A projeção do CEMADEN, o centro de monitoramento de desastres do governo federal, indica que um possível Super El Niño na segunda metade de 2026 pode intensificar ainda mais as ondas de calor nas regiões central e nordeste do país. O cenário combina os efeitos já documentados pelo estudo de Oxford com um contexto climático que tende a amplificar os riscos nas cidades mais vulneráveis.

O que o estudo recomenda para cidades como as brasileiras?
Os pesquisadores de Oxford são diretos: as soluções desenvolvidas para cidades ricas do hemisfério norte não se aplicam diretamente à realidade latino-americana. Tecnologias caras de “cidades inteligentes” são inviáveis para a maior parte da população mais vulnerável ao calor.
Para o contexto do Sul Global, o estudo aponta quatro prioridades. A primeira é a criação de sistemas de alertas precoces acessíveis, especialmente para populações sem internet. A segunda é o reforço das redes elétricas para suportar o aumento da demanda por resfriamento em dias de calor extremo. A terceira é a expansão da arborização nas periferias, onde o efeito das ilhas de calor é mais intenso. A quarta é investir em arquitetura bioclimática, com construções pensadas para reduzir o calor naturalmente através de ventilação, sombreamento e materiais adequados ao clima local.
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Por que a desigualdade é o fator que mais amplifica o risco de calor?
O estudo da Universidade de Oxford demonstra que a vulnerabilidade ao calor extremo não é distribuída de forma igual dentro de uma mesma cidade. Em muitas capitais latino-americanas, bairros com maior renda concentram mais áreas verdes, ruas arborizadas e edificações com ventilação adequada. As periferias seguem marcadas por asfalto, concreto e pouca sombra.
O custo da energia reforça essa divisão. Mesmo quando famílias conseguem comprar um ventilador ou um ar-condicionado, muitas não têm condições de pagar pelo uso diário durante semanas de calor intenso. O resultado é que as pessoas mais expostas ao risco são exatamente as que têm menos recursos para se proteger. O estudo completo está disponível na Sustainable Cities and Society, com acesso pelo portal ScienceDirect.
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