Eleita um dos destinos mais acolhedores do Brasil pelo Booking, essa vila é uma das mais altas do país e foi fundada por um europeu que buscava o clima da Letônia
Quando o termômetro marcou -4,5°C: a vila do Sul de Minas que um imigrante europeu construiu para lembrar a sua terra natal
Em 1936, um letão chamado Verner Grinberg subiu a Serra da Mantiqueira em lombo de burro, abrindo picada no meio do mato, em busca de um lugar que cheirasse a Letônia. Encontrou um trecho frio e silencioso, a 1.550 metros de altitude, no extremo sul de Minas Gerais. Dois anos depois, comprou as primeiras terras e plantou ali a semente de Monte Verde.
O homem que veio da Letônia procurar uma montanha
Verner Grinberg desembarcou no Brasil em 1913, ainda criança, junto com outros imigrantes letões. A família se fixou na Colônia Varpa, próxima a Paraguaçu Paulista, fundada em 1921 e considerada o mais importante núcleo da imigração leta no país.
Foi lá que ele conheceu Emília Leismeir, com quem se casou. A lua de mel em Campos do Jordão mexeu com a memória dos dois. As araucárias, o ar gelado, o cheiro de pinhão, tudo lembrava a paisagem da Letônia que Verner havia deixado para trás. Da viagem nasceu a obsessão por encontrar uma montanha parecida.
Em 1936, ouviu falar dos Campos do Jaguari, no município de Camanducaia. Subiu a serra a lombo de burro com o pai, abriu picada e cravou os primeiros marcos. Em 1938, comprou cinco alqueires do primeiro vendedor que apareceu. A escritura foi assinada com dinheiro vivo, em uma viagem até a sede do município, conforme registra o Portal de Monte Verde.

A vila que cresceu em volta de uma fazenda
Verner foi comprando terreno por terreno, de vários proprietários, até reunir 400 alqueires. Os vizinhos de Camanducaia riam dele. Diziam que era um inglês louco que pagava bom dinheiro por mato. Ele continuou.
Logo começou a ceder terras a amigos e parentes, quase todos europeus e batistas como ele. Vieram húngaros, suíços, alemães, russos e italianos. Cada família construiu casas com telhados inclinados, madeira aparente e chaminés que cuspiam fumaça nas manhãs frias. A arquitetura, segundo os registros locais, nasceu da memória dos próprios moradores. Ninguém contratou arquiteto para deixar a vila com cara de Alpes, ela ficou assim porque os fundadores estavam reproduzindo o que conheciam.
Da Hungria, alguns trouxeram a técnica de pintura decorativa Bauernmalerei, hoje reconhecida como patrimônio imaterial do distrito. Das outras casas vieram as receitas de fondue, a torta de maçã servida quente e a paciência de quem aprendeu a viver no inverno duro.

Por que faz tanto frio em Monte Verde?
A altitude responde quase tudo. A 1.550 metros, no ponto mais alto da Serra da Mantiqueira mineira, a vila tem clima temperado oceânico (Cfb na classificação de Köppen-Geiger), o mesmo de boa parte da Europa Central. Os invernos são secos, com geadas frequentes e madrugadas que podem ficar abaixo de zero.
O recorde absoluto entrou para a história em 30 de julho de 2021. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) registrou -4,5°C, a menor temperatura do distrito em 17 anos. As araucárias amanheceram cobertas de gelo e o chão crocante de geada lembrava cenário de filme europeu. Em 2025, no fim de maio, a vila já liderou o ranking de cidade mais fria do Brasil em dez dias diferentes, com mínima de 0,4°C.
Na comparação direta, Monte Verde costuma ser mais fria que Campos do Jordão. Levantamentos do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) mostram que, desde o ano 2000, a vizinha paulista vem registrando invernos mais amenos por causa do crescimento urbano. Monte Verde, por ser um distrito pequeno, não passou pelo mesmo aquecimento.
O que o visitante encontra hoje na avenida principal?
Quem chega à Avenida Monte Verde caminha por um centrinho que pode ser percorrido a pé em poucos minutos. A vista é de cartão-postal alpino: casas de madeira com telhados inclinados, chocolaterias com vitrines iluminadas, cafeterias com lareira acesa quase o ano inteiro e cervejarias artesanais que aproveitam a altitude para fermentar.
O distrito hoje pertence a Camanducaia e tinha 4.817 habitantes no Censo 2022 do IBGE, embora o número multiplique nos fins de semana de inverno. A população flutuante atrai operações premiadas: a vila foi eleita um dos destinos mais acolhedores do país no Traveller Review Awards 2023, prêmio promovido pela plataforma Booking.
A herança europeia também aparece na mesa. As três experiências mais pedidas da vila são:
- Fondue de queijo: o clássico absoluto de Monte Verde, servido em panela quente sobre fogareiro, herança suíça incorporada à cena local nos anos 1970.
- Truta da serra: criada em águas frias da região, preparada grelhada ou ao molho de alcaparras.
- Apfelstrudel e chocolate quente: a torta de maçã, trazida pelos imigrantes alemães e austríacos, dividiu o cardápio com chocolaterias artesanais que viraram parada obrigatória nas tardes frias.
Quer um roteiro completo para Monte Verde (MG) em 2026, com dicas do que fazer, onde se hospedar, restaurantes e preços? Vai curtir esse vídeo do canal Traz o Passaporte:
Como chegar à Suíça Mineira?
A vila fica a cerca de 165 km de São Paulo e a 480 km de Belo Horizonte. O acesso principal é pela rodovia Fernão Dias (BR-381), com saída em Camanducaia. A partir dali, são mais 30 km de estrada de serra asfaltada, sinuosa e bem sinalizada. Os aeroportos mais próximos são Guarulhos e Viracopos, ambos em território paulista.
Suba a serra e entenda
Monte Verde é prova de que paisagem também se herda. O letão que abriu picada em 1936 quis recriar um pedaço da Letônia e acabou inventando, sem planejar, a vila mais europeia do Sul de Minas. As geadas continuam ali. As araucárias também.
Você precisa subir a Mantiqueira numa madrugada de inverno, ver o gelo cobrir a praça e entender por que essa vila ainda parece um pouco com o lugar de onde Verner veio.
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