Construída em 34 anos e reconhecida como uma das 7 Maravilhas do Brasil: cidade que tropeiros batizaram sob uma caneleira na Serra Gaúcha
O passado ajudou a criar uma cidade que preserva sua identidade até hoje
Quase toda obra grande começa com uma demolição. Em Canela, na Serra Gaúcha, os pedreiros fizeram o contrário: levantaram as paredes de uma catedral neogótica ao redor da igreja que já funcionava ali e só depois derrubaram a construção antiga, por dentro. O templo de basalto levou 34 anos para ficar pronto e virou o cartão-postal de uma cidade que nasceu à sombra de uma árvore.
Por que a catedral foi construída em volta da igreja antiga?
A solução manteve as missas acontecendo enquanto o novo templo tomava forma. A antiga matriz de Nossa Senhora de Lourdes, ligada à paróquia criada em 1937, continuou de pé por mais de uma década de canteiro, até que as paredes externas da nova Catedral de Pedra a envolveram por completo em 1964. Só então a estrutura original foi desmontada de dentro para fora.
O projeto do arquiteto Bernardo Sartori, em estilo neogótico inglês, começou a sair do papel em 1953 e usou basalto retirado das pedreiras da própria região, rocha vulcânica que dá à fachada o tom cinza-claro que muda de cor conforme a luz do dia. O forro chegou em 1978, o piso em 1982 e a porta de mogno esculpida encerrou o trabalho em 1987. Segundo o site oficial da Catedral de Pedra, o templo foi eleito em 2010, por votação popular, uma das Sete Maravilhas do Brasil.

O que os 12 sinos de bronze carregam de história brasileira?
Cada um deles leva o nome de uma figura da independência nacional, motivo pelo qual o conjunto se chama Carrilhão da Independência. Dom Pedro I, Tiradentes e José Bonifácio estão entre os homenageados. Fabricados na Itália e instalados em 1972, os sinos pesam de 100 kg a uma tonelada e ocupam a torre principal, que alcança 65 metros, altura equivalente à de um prédio de vinte andares plantado no centro de uma cidade de casas baixas.
Quem sobe até o mirante da torre encontra um pequeno museu de arte sacra e uma vista que emenda telhados, araucárias e vales. À noite, a fachada recebe um espetáculo de luzes gratuito, com projeções coloridas em dois horários fixos, às 20h30 e às 21h30, segundo a mesma fonte oficial do templo.

De onde vem o nome da cidade que abriga o templo?
De uma árvore usada como ponto de encontro por tropeiros no fim do século XIX. A rota que descia a serra rumo a São Leopoldo e Porto Alegre passava por uma canela-preta, espécie nativa da Mata Atlântica, e a parada virou referência tão repetida que acabou batizando o povoado. A primeira praça surgiu justamente em torno dela.
O núcleo urbano ganhou contorno em 1903, com a chegada do Coronel João Ferreira Corrêa da Silva, em uma região onde já viviam fazendeiros e descendentes de imigrantes alemães e italianos ligados às serrarias. Conforme a Prefeitura Municipal de Canela, o brasão do município traz até hoje a caneleira em campo de ouro e a Cascata do Caracol em campo de prata, a árvore e a paisagem que explicam a cidade.

Quantos parques cabem em um município de 255 km²?
Vinte e dois, número que rendeu à cidade um título aprovado pelo Congresso. A Lei nº 14.738/2023 concedeu ao município gaúcho o posto de Capital Nacional dos Parques Temáticos, reconhecimento que poucas cidades brasileiras carregam em texto de lei federal. O mais antigo deles é público: o Parque Estadual do Caracol, criado em 1973, onde o arroio despenca em queda livre de 131 metros sobre rochas basálticas, conforme o portal RS Parcerias, do Governo do Estado.
O reconhecimento também vem de fora. A cidade serrana aparece como a quinta mais hospitaleira do Rio Grande do Sul em levantamento da plataforma Booking, ao lado de Gramado, Bento Gonçalves, Nova Petrópolis e Cambará do Sul, segundo a Prefeitura de Canela. É o mesmo tipo de reputação que move destinos de perfil oposto, como a cidade que mais conquista novos moradores no litoral fluminense. Confira o que sustenta o título canelense:
- Parque Estadual do Caracol: mirante, trilhas e observatório panorâmico diante da maior cachoeira gaúcha, a 7 km do centro.
- Parque Terra Mágica Florybal: 13ª posição no ranking mundial de parques temáticos do TripAdvisor Travellers’ Choice, segundo a Prefeitura.
- Alpen Park: 22ª colocação no mesmo levantamento internacional, com trenó alpino e atividades de aventura.
- Praça da Matriz: jardim aos pés da catedral, ponto de partida natural para o centro histórico.
Quem busca planejar uma viagem e conhecer as melhores atrações da Serra Gaúcha, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal VIVA ESSA VIAGEM, que conta com mais de 354 mil visualizações, onde Aline e Lucas mostram a Cascata do Caracol, o Castelinho e os passeios imperdíveis de Canela – RS:
Como é o clima de Canela ao longo do ano?
A 837 metros de altitude, a cidade tem verões amenos para os padrões brasileiros e invernos capazes de registrar geada, com chuva bem distribuída pelos doze meses. A umidade constante explica o musgo que escurece parte do basalto da catedral. Veja abaixo como as estações se comportam:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições podem variar bastante de um ano para outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada antes de subir a serra.
Uma obra construída no ritmo das gerações
Gerações inteiras de pedreiros trabalharam no mesmo canteiro, e boa parte delas não viu a porta de mogno ser instalada. O cônego que idealizou o templo também não: morreu antes de 1987 e está sepultado dentro da igreja que sonhou.
O que impressiona diante da torre de basalto não é a altura, mas a paciência acumulada atrás dela. Uma cidade pequena decidiu erguer a casa nova sem derrubar a antiga e aceitou esperar o tempo que fosse preciso, escolha rara em um país acostumado a medir obras em mandatos.
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