Como as cidades do semiárido nordestino se tornaram uma nova potência no mapa econômico do Brasil
1.477 cidades em 11 estados: o semiárido brasileiro virou o semiárido mais populoso do planeta e agora disputa o mapa econômico do país
A região associada por décadas à seca e ao êxodo guarda hoje um dos maiores polos de energia renovável do Brasil, o único bioma exclusivamente nacional e uma economia que começa a despertar entre parques eólicos, fruticultura irrigada e o mel da Caatinga.
O único semiárido superpovoado do mundo
A delimitação oficial do Semiárido brasileiro, atualizada pela Resolução 176 de 2024 do Conselho Deliberativo da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (CONDEL/SUDENE), reúne 1.477 municípios. A região ocupa 15,3% do território nacional e abrange Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 30,3 milhões de pessoas viviam na região em 2022. A densidade demográfica faz do semiárido nordestino o mais populoso do planeta, característica que o diferencia de outras regiões áridas do mundo, em geral pouco habitadas. A Bahia lidera a lista com 283 municípios dentro da delimitação, de acordo com a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI).

Três critérios técnicos definem quem entra no mapa
A região é delimitada por critérios científicos. Para um município integrar o semiárido, precisa atender pelo menos um dos três: precipitação média anual igual ou inferior a 800 mm, índice de aridez de Thornthwaite igual ou inferior a 0,50 ou percentual de déficit hídrico igual ou superior a 60% considerando todos os dias do ano, conforme o IBGE.
A delimitação não é fixa. Na última revisão, 215 municípios foram incluídos e outros 50 ficaram em processo de contestação. A lei de criação do semiárido legal data de 1989, mas a raiz da questão é mais antiga: desde 1936, o governo federal tentava mapear a área com o chamado Polígono das Secas, substituído em 1989 pela delimitação atual.
A Caatinga é o único bioma que só existe aqui
A vegetação que cobre a maior parte do semiárido é a Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O nome vem do tupi-guarani e significa mata branca, em referência ao aspecto dos troncos esbranquiçados na estação seca, quando as folhas caem.
A Caatinga ocupa cerca de 11% do território nacional e abriga fauna e flora com alto grau de endemismo. Estudos recentes apontam endemismo de aproximadamente 54% entre peixes, 48% entre lagartos e 23% entre plantas da região, ao lado de espécies ameaçadas como a ararinha-azul, reintroduzida em 2020 pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Apenas cerca de 8% do bioma está dentro de unidades de conservação, o que torna a proteção do ecossistema uma pauta central do debate sobre o Semiárido.
Quem sonha em entender o bioma mais resiliente do Brasil, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Santuário Natural – Documentários de Animais, que conta com mais de 267 mil visualizações, onde é revelada a fascinante biodiversidade da Caatinga, a “Mata Branca” que abriga espécies únicas e segredos ancestrais do Nordeste:
O Nordeste virou o motor da transição energética brasileira
A alta incidência solar e a constância dos ventos transformaram a região em líder nacional em fontes renováveis. Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontam que o Nordeste produz mais de 70% da própria eletricidade a partir de fontes renováveis. Os maiores parques eólicos e solares do Brasil estão concentrados na Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí.
O Brasil é o terceiro país do mundo em capacidade instalada de energia renovável, com 213 gigawatts, atrás apenas de China e Estados Unidos, conforme o ONS. A produção nordestina já é exportada para o Sudeste e o Centro-Oeste pelo Sistema Interligado Nacional (SIN), e novos projetos de hidrogênio verde e eólicas offshore estão em licenciamento no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
O que o Semiárido produz além da energia
A economia do Semiárido combina cadeias tradicionais da agricultura familiar com novas frentes de bioeconomia. A diversidade produtiva é o que sustenta a virada do mapa econômico regional.
O semiárido deixou de ser só problema para virar pauta
Entre parreiras irrigadas no Vale do São Francisco, aerogeradores na divisa da Paraíba com o Rio Grande do Norte e colmeias espalhadas pela Caatinga, o Semiárido brasileiro redesenha a própria imagem. A região que foi sinônimo de êxodo agora responde por parcela estratégica da energia limpa e da economia verde nacional.
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