Cidade com 98% da uva exportada pelo Brasil e o recorde de US$ 1 bilhão em frutas: o sertão pernambucano que ganhou o 1º selo mundial de vinhos tropicais
A irrigação transformou uma área seca em grande polo de produção de frutas
Uva de vinho costuma exigir inverno rigoroso, videira dormente e uma única colheita anual. No sertão de Pernambuco, a combinação de sol constante e água bombeada do rio São Francisco quebrou essa regra. Petrolina e as cidades vizinhas viraram a única região do planeta com selo internacional para vinhos produzidos em clima tropical, e o mesmo sistema de irrigação sustenta boa parte das frutas que o Brasil exporta.
Por que o Vale do São Francisco recebeu o primeiro selo mundial de vinhos tropicais?
Porque comprovou que uma região quente o ano inteiro pode produzir vinho com identidade própria e padrão de qualidade verificável. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu em 2022 a Indicação de Procedência Vale do São Francisco, a primeira do mundo dedicada a vinhos tropicais.
O reconhecimento abrange um território que atravessa dois estados. A área delimitada inclui Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, no lado pernambucano, e Casa Nova e Curaçá, na Bahia, e só pode ser usada em vinhos tranquilos e espumantes feitos com uvas colhidas dentro dessa faixa. A Forbes Brasil registrou que a concessão seguiu requisitos equivalentes aos adotados pela União Europeia.

Como o sertão consegue duas safras de uva no mesmo ano?
A resposta está na ausência de inverno. Sem uma estação fria que force a videira a hibernar, o produtor controla o ciclo pela poda e pela quantidade de água aplicada, o que permite duas podas e duas safras anuais, com colheitas escalonadas em parcelas diferentes do vinhedo ao longo dos doze meses.
Na prática, isso significa parreiral carregado em qualquer mês do calendário. Conforme a Embrapa Semiárido, sediada na própria cidade, a produção depende de um manejo específico criado para o clima semiárido, com tecnologia desenvolvida etapa por etapa, do cultivo à vinificação. Esse calendário sem pausa é o que sustenta o enoturismo local, já que sempre existe alguma vinícola em época de colheita para receber visitantes.

Quanto a fruticultura irrigada pesa nas exportações do Brasil?
Muito mais do que o tamanho da região faria supor. De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), o Vale responde por 90% da manga e 98% da uva exportadas pelo país, apoiado em mais de 100 mil hectares irrigados.
O peso dessa fatia aparece no caixa do país inteiro. A mesma associação registrou que a fruticultura brasileira superou US$ 1 bilhão em faturamento com exportações em 2023, ano em que o volume de uva embarcada subiu 40%, e apontou o Vale como participação decisiva nesse recorde. A cifra é do Brasil como um todo, mas a maior parte das duas frutas que puxaram o resultado saiu daqui.
Nada disso existia há sessenta anos. A transformação começou quando a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) implantou os perímetros irrigados que tiraram a caatinga do lugar e colocaram pomares no seu lugar, movimento que também reorganizou a cidade vizinha do outro lado da ponte, a maior produtora e exportadora de manga do Brasil. As duas formam hoje o maior conjunto de fruticultura irrigada do país.
Quem quer conhecer os atrativos, a gastronomia e as vinícolas de Petrolina – Pernambuco, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Eu no Nordeste, que conta com mais de 263 mil visualizações, onde Lani mostra as atrações do Vale do São Francisco:
O que a primeira universidade federal do interior nordestino mudou na cidade?
Ela encurtou a distância entre o sertão e o diploma. A Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) foi a primeira federal a ter sede implantada no interior do Nordeste, com campi distribuídos por três estados, e nasceu justamente para evitar que os jovens da região precisassem migrar para as capitais.
A criação veio por norma federal específica. A Lei nº 10.473, de 27 de junho de 2002 instituiu a fundação com sede em Petrolina e previu atuação em vários campi no eixo Petrolina-Juazeiro. Hoje a universidade mantém na cidade o campus sede e o Campus Ciências Agrárias, com hospital veterinário e centros de pesquisa voltados à caatinga.
Como é o clima de Petrolina durante o ano?
A cidade fica a cerca de 376 metros de altitude, em pleno semiárido, e tem uma das menores médias de chuva entre os municípios brasileiros de grande porte. Veja abaixo como cada época se comporta em Petrolina:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições variam de um ano para outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada antes de viajar.
O sertão que virou vinhedo às margens do Velho Chico
Poucos lugares no mundo conseguem transformar sol em excesso e chuva escassa em vantagem produtiva. Petrolina fica a cerca de 712 km de Recife, tem aeroporto com voos para as principais capitais e faz fronteira urbana com Juazeiro pela ponte sobre o São Francisco.
Você precisa conhecer Petrolina e provar um espumante feito com uva colhida no meio do sertão, em uma região que colhe quando o resto do mundo espera o inverno passar.
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