Cidade colonial desenhada por ordem de Portugal em 1745: 287 casarões reconhecidos como patrimônios e o pico mais alto do Nordeste
O traçado histórico ainda aparece nas ruas e construções do centro
A maioria das cidades do ciclo do ouro cresceu de forma desordenada, seguindo o traçado das minas. Rio de Contas, no sul da Chapada Diamantina e a mais de 700 km de Salvador, seguiu o caminho oposto: nasceu de uma ordem da Coroa portuguesa que determinava ruas largas, praças amplas e arquitetura capaz de embelezar o lugar. O resultado continua de pé, protegido por lei federal e cercado por montanhas que passam dos 1.900 metros.
Por que Portugal mandou construir uma cidade nova no sertão baiano?
Para organizar um centro de mineração que crescia sem controle. Conforme o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Rio de Contas é uma das raras cidades novas coloniais do país, criada por meio de uma Provisão Real de 1745 que recomendava escolher um sítio saudável perto de um arraial já existente, com traçado regular e arquitetura voltada ao embelezamento urbano.
O desenho continua legível hoje. A cidade fica em declive suave na vertente oriental da Serra das Almas, à margem esquerda do rio Brumado, com uma tipologia urbana simples que resultou em um conjunto homogêneo. Nascida como centro de extração de ouro, virou capital regional em poucas décadas, segundo a mesma fonte federal.

O que existe entre as 287 edificações tombadas?
Praças, igrejas barrocas e casarões que sobreviveram ao fim do ouro. De acordo com o IPHAN, o conjunto foi tombado em 1980 e reúne 287 edificações, entre elas a Casa de Câmara e Cadeia, hoje sede do fórum, a Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento e a Igreja de Santana, essas três já protegidas individualmente desde 1958.
O detalhe construtivo chama atenção de quem entende do assunto: os monumentos religiosos e públicos são de pedra, enquanto o casario é de adobe, com fachadas tradicionalmente brancas e esquadrias azuis. A mesma fonte aponta que a decoração dessas casas lembra a que apareceria mais tarde em Paraty, no Rio de Janeiro, e classifica a arquitetura civil da cidade como sem paralelo em todo o sertão baiano.

Onde ficam as montanhas que cercam o centro histórico?
A poucos quilômetros das últimas casas. O Pico das Almas, com 1.958 metros, é uma das maiores elevações da Bahia e do Nordeste, e sua trilha atravessa o Vale do Queiroz, campos rupestres e formações rochosas antes da subida final sobre pedra solta. O percurso exige guia local e um dia inteiro.
Em volta há ainda vestígios de represas, aquedutos, túneis e galerias abertos no período da mineração, segundo o IPHAN. Essa combinação de história e montanha se repete em outros trechos da mesma chapada, marcados pelo garimpo do século XIX.
Quais passeios cabem em três dias na cidade?
O centro se percorre a pé em uma tarde, e o restante depende de estradas de terra e caminhadas. Confira abaixo os principais atrativos da região:
- Cachoeira do Fraga: formada pelo rio Brumado a poucos minutos do centro, tem quedas em três níveis e poços de banho. Segundo o Guia Chapada Diamantina, a visitação passou a ter taxa cobrada pela Secretaria de Meio Ambiente.
- Pico das Almas: trilha de dia inteiro até 1.958 metros, com vista aberta para toda a região e vegetação de campo rupestre.
- Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento: templo de pedra na praça central, tombado individualmente desde 1958.
- Casa de Câmara e Cadeia: prédio colonial que reunia poder político e prisão no mesmo endereço, hoje ocupado pelo fórum.
- Povoado de Mato Grosso: núcleo histórico ligado aos antigos garimpos, em altitude ainda maior que a da sede.
Quem procura lugares fora do óbvio na Bahia, vai curtir este vídeo do Rolê Família, com mais de 314 mil inscritos, que explora o centro e as montanhas de Rio de Contas.
Como é o clima de Rio de Contas ao longo do ano?
A altitude acima dos mil metros deixa a cidade bem mais fresca que o restante do sertão baiano, com noites frias em pleno inverno. As chuvas se concentram no fim e no começo do ano, e o meio do ano é quase seco. Veja abaixo como o tempo se comporta em Rio de Contas durante o ano:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições mudam de um ano para outro por causa de fenômenos naturais como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada antes de viajar.
A cidade que foi desenhada antes de ser construída
Rio de Contas guarda algo raro no Brasil colonial: um projeto urbano pensado no papel, executado no sertão e preservado quase intacto depois que o ouro acabou. Em volta, as montanhas que atraíram os primeiros garimpeiros hoje atraem quem sobe por esporte.
Você precisa reservar alguns dias em Rio de Contas para entender como uma cidade planejada no século XVIII continua funcionando com as mesmas ruas até hoje.
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